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VIOLÊNCIA CONTRA MULHER -

Medida protetiva não basta: Salvador, Conquista e Feira lideram números

Medidas protetivas crescem na Bahia, mas falhas na proteção às mulheres expõem incertezas

Medidas protetivas estão crescendo na Bahia, mas mulheres ainda enfrentam problema de segurança
Medidas protetivas estão crescendo na Bahia, mas mulheres ainda enfrentam problema de segurança |  Foto: Ilustrativa/Clara Pessoa/Ag. A TARDE

O aumento da procura por medidas protetivas de urgência na Bahia tem crescido e os números carimbam o desafio enfrentado pelo sistema de Justiça no combate à violência doméstica e familiar contra as mulheres em todo o território baiano.

Apesar da concessão dessas determinações judiciais funcionar como um instrumento crucial para interromper situações de risco para as mulheres, a proteção delas depende também do cumprimento das restrições impostas aos agressores, além da capacidade de atuação da rede de atendimento diante de possíveis violações.

Isto porque, existe uma linha a ser pensada e observada de forma cuidadosa entre a decisão judicial e a garantia de segurança sobre a efetividade desse mecanismo. Dados obtidos pela reportagem do MASSA! em contato com o Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA), apontam que o número de processos de medidas protetivas distribuídos no estado passou de 23.561, em 2023, para 31.495, em 2025.

No período, foram registrados 84.434 processos, considerando os três anos. A comparação entre os extremos da série histórica representa um crescimento de aproximadamente 33,7% na quantidade de processos distribuídos. Em 2024, por exemplo, foram contabilizados 29.378 processos, número superior ao registrado no ano anterior.

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Já em 2025, o total chegou a 31.495, mantendo a trajetória de crescimento observada no período. Os dados demonstram a ampliação da demanda judicial relacionada às medidas protetivas, embora, isoladamente, não permitam concluir se o aumento decorre de mais episódios de violência, de maior procura por proteção ou de outros fatores.

Cidades baianas com mais medidas protetivas

Outro levantamento do painel estatístico do TJ-BA obtido pelo MASSA! aponta que, em 2026, foram registradas 29.400 concessões de medidas protetivas de urgência, distribuídas por 203 comarcas baianas. Veja as cidades com maior número:

  • Salvador: 7.226;
  • Vitória da Conquista: 1.471;
  • Feira de Santana: 1.283;
  • Juazeiro: 970;
  • Camaçari: 807;
  • Barreiras: 545;
  • Porto Seguro: 479;
  • Lauro de Freitas: 393;
  • Ilhéus: 387;
  • Paulo Afonso: 380.

No entanto, a quantidade de medidas concedidas não corresponde, necessariamente, ao total de mulheres atendidas, já que uma mesma mulher pode estar relacionada a mais de um procedimento.

Descumprimento de medidas

O problema, no entanto, está nos descumprimentos das medidas. O que gera preocupação, incerteza, pânico e até medo nas mulheres em reencontrar os seus agressores. Isto porque, apesar do aumento na concessão de medidas protetivas, o desrespeito às determinações judiciais segue como um desafio para a segurança das mulheres na Bahia.

Em 2025, o estado contabilizou 4.351 registros de descumprimento de medidas protetivas de urgência. Em 2024, 3.825, conforme os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. A diferença representa um aumento de 13,6% em um ano.

A taxa também subiu, passando de 25,8 para 29,3 registros por 100 mil habitantes no período. O cenário amplia o debate sobre a efetividade das medidas protetivas e a capacidade de resposta das instituições diante de possíveis violações.

Mais do que conceder a proteção judicial, é necessário garantir que as determinações sejam respeitadas e que as vítimas encontrem apoio e segurança para denunciar novos episódios de violência.

Bahia contabilizou mais de 4 mil registros de descumprimento de medidas em 2025
Bahia contabilizou mais de 4 mil registros de descumprimento de medidas em 2025 | Foto: Ilustrativa/Raphael Muller/Ag. A TARDE

As medidas são efetivas?

Previstas na Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), as medidas protetivas de urgência buscam prevenir a continuidade ou o agravamento da violência doméstica e familiar. Entre as determinações possíveis estão o afastamento do agressor do lar, a proibição de aproximação da vítima e de seus familiares e a restrição de contato por qualquer meio de comunicação, conforme as circunstâncias de cada caso.

A concessão da medida, contudo, não encerra o desafio de proteção. O descumprimento das determinações pelo agressor pode expor a mulher novamente a situações de risco e exige atenção das autoridades responsáveis pela fiscalização, pelo atendimento às vítimas e pela adoção de providências judiciais.

A desembargadora Nágila Brito destaca que as medidas protetivas de urgência são fundamentais para interromper o ciclo de violência doméstica, mas ressalta que a concessão judicial, isoladamente, não elimina os riscos enfrentados pelas mulheres.

Conforme explicado por Nágila, a efetividade da proteção depende de uma série de etapas, como a rápida intimação do agressor, a comunicação clara à vítima e a fiscalização das restrições impostas, que pode ocorrer por meio do Batalhão Maria da Penha, na capital, da Ronda Maria da Penha, no interior, ou da monitoração eletrônica.

“Entre a decisão judicial e a proteção concreta, há etapas decisivas”, afirma a desembargadora. Ela também enfatiza a importância de mecanismos que permitam identificar o descumprimento das medidas e garantir uma resposta imediata das autoridades diante de qualquer violação.

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A medida protetiva é um instrumento fundamental para interromper o ciclo de violência, mas sua concessão, por si só, não elimina o risco.

Desembargadora Nágila Brito

"Entre a decisão judicial e a proteção concreta, há etapas decisivas: a intimação rápida do autor da violência, a comunicação clara à vítima, a fiscalização das proibições impostas e a existência de uma comunicação e uma resposta imediata quando ocorre qualquer violação das medidas protetivas", conclui.

Outro desafio apontado pela desembargadora é a falta de integração contínua entre Judiciário, Polícia, Ministério Público, Defensoria Pública e serviços de assistência social e saúde. Para a magistrada, a avaliação do risco deve ser constante, especialmente em casos que envolvem ameaças de morte, perseguição, acesso a armas, histórico de violência grave ou descumprimentos anteriores.

"A informação sobre o risco precisa circular de forma segura e tempestiva. Também é necessário compreender que a medida não deve ser tratada como uma decisão estática: o grau de perigo pode aumentar, especialmente quando há histórico de violência grave, acesso a armas, perseguição, ameaças de morte, separação recente e descumprimentos anteriores", detalha.

A saúde mental em aliança com as mulheres

Ao MASSA!, a psicóloga Terena Cardoso alerta para sentimentos das mulheres em medidas protetivas descumpridas: "Ela pode se sentir impossibilitada de executar funções do seu dia a dia como trabalhar, sair de casa, levar e buscar filhos na escola, enfim viver a vida funcional por achar que o agressor pode reencontrá-la e lhe causar mal novamente".

A psicóloga ainda explica que a esperança de mudança, a dependência emocional e a falta de recursos financeiros podem dificultar o rompimento com o agressor, especialmente quando há filhos. Ela destaca que a rede de apoio deve acolher sem julgamentos e oferecer ajuda concreta, reforçando que é injusto afirmar que a mulher permanece nessa situação porque quer.

Aspas

Uma rede de apoio, quando realmente existente, não julga. Mostra a essa mulher que ela não está sozinha, e isso precisa ir de encontro a presença física com apoios reais, incluindo o financeiro

Psicóloga Terena Cardoso

A profissional destaca que o medo de reencontrar o agressor pode comprometer a saúde mental e a autonomia das vítimas, dificultando tarefas cotidianas, como trabalhar, sair de casa e levar os filhos à escola. Segundo ela, o sentimento de insegurança pode limitar a liberdade dessas mulheres, que passam a viver com receio de novas agressões: “Ela pode se sentir impossibilitada de executar funções do seu dia a dia".

Ações do TJ-BA

O Tribunal de Justiça da Bahia desenvolve iniciativas voltadas ao atendimento de mulheres em situação de violência para ampliar o acesso à Justiça e agilizar a análise das solicitações. Entre elas, está o Núcleo de Justiça de Medidas Protetivas de Urgência, que atua de forma virtual e auxilia as unidades judiciais na análise dos pedidos.

Outra ferramenta é o TJBA Zela, plataforma digital que reúne informações sobre direitos, serviços de atendimento e mecanismos de proteção, com o objetivo de facilitar o acesso das mulheres ao sistema de Justiça.

Tribunal de Justiça da Bahia oferecem iniciativas de ajuda para as mulheres
Tribunal de Justiça da Bahia oferecem iniciativas de ajuda para as mulheres | Foto: Ilustrativa/Clara Pessoa/Ag. A TARDE

As iniciativas integram os esforços institucionais para ampliar o acesso à proteção judicial. A discussão sobre a efetividade das medidas, porém, também envolve a articulação entre o Judiciário, os órgãos de segurança pública e os demais integrantes da rede de atendimento, especialmente nos casos em que há suspeita ou confirmação de descumprimento.

Diante do crescimento dos processos distribuídos e do volume de medidas concedidas, o desafio não se limita a garantir que as solicitações sejam analisadas, mas sim em também passar por assegurar que as decisões produzam efeitos concretos na vida das mulheres, com respostas adequadas diante das violações e condições para que elas possam buscar ajuda quando a proteção determinada pela Justiça estiver ameaçada.

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