A gravidez pode ser um período de descobertas, mas também de medo e insegurança, especialmente para mulheres das periferias que enfrentam dificuldades financeiras e nem sempre contam com uma rede de apoio. Além das mudanças físicas e emocionais, a expectativa pela chegada de um filho envolve preocupações com os cuidados do bebê e com as condições necessárias para recebê-lo, desafios que podem pesar ainda mais quando a gestante precisa enfrentar tudo sozinha.
É nesse momento que o acolhimento e a convivência com outras mulheres podem fazer a diferença. No bairro do Uruguai, em Salvador, gestantes aprendem a confeccionar o enxoval dos filhos enquanto compartilham experiências e encontram companhia durante a espera pela maternidade.
Os encontros acontecem por meio do Projeto Sonho de Mãe, na Rua 6 de Janeiro, e combinam o aprendizado de técnicas de costura com o acompanhamento de mulheres em situação de vulnerabilidade social.
Aos 19 anos, Bianca Oliveira participa das atividades enquanto se prepara para a chegada do primeiro filho, um menino. Moradora do Beco do Sabão, no bairro da Calçada, ela conta que sentiu medo no início da gestação, principalmente por não saber se teria apoio para enfrentar as mudanças que estavam por vir.

“No começo, eu tive muito medo, porque achava que ninguém ia me apoiar. Mas, depois, fui descobrindo várias coisas e me emocionando com várias delas, né? É meu primeiro filho. Tô me divertindo muito com minha gravidez”, contou.
Casada, Bianca explica que o marido trabalha como padeiro e passa boa parte do dia fora de casa. Por isso, ela fica sozinha durante esse período. Foi assim que enxergou nos encontros uma oportunidade de sair da rotina e conversar com mulheres que entendem parte das dúvidas e dos sentimentos que acompanham uma gravidez. "Vou para lá distrair minha mente, vai ser melhor, né?", pensou.
É bom ter com quem conversar, porque aqui tem outras mulheres que muitas vezes já passaram pela mesma coisa.
Bianca Oliveira, gestante

A convivência também permite que a jovem desenvolva habilidades que ainda não conhecia e se prepare para a chegada do filho. Ao falar sobre a experiência, Bianca destaca a importância das conversas e da possibilidade de aprender com as pessoas que encontra no espaço.
“Eu tô gostando do acompanhamento daqui. É muito legal. As pessoas são legais, sabe? Dá para conversar, dialogar e fazer muitas coisas que eu ainda vou aprender”, conta ao MASSA!.
Enxoval é confeccionado ao longo dos encontros
As atividades são realizadas todas as quartas-feiras, às 14h, e cada participante produz uma peça do enxoval por semana. O trabalho envolve desde tarefas básicas, como dobrar tecidos, alinhavar e prender alfinetes, até as etapas de acabamento, permitindo que as gestantes acompanhem a preparação dos itens que serão usados pelos filhos.
O aprendizado é acompanhado por voluntárias que ensinam as técnicas de costura e ajudam as participantes durante a produção. Uma delas é Maria Vitória Madureira, que atua há 20 anos no projeto e fica responsável pelo acabamento das peças na máquina de costura. Natural de Valença, ela mora atualmente no Uruguai e é mãe de duas filhas já adultas.
Ao lembrar da própria experiência com a maternidade, Maria considera que ter encontrado uma iniciativa semelhante naquela época teria sido importante para ela. “Eu tive duas filhas, que agora já são adultas, e penso que, se tivesse participado de algo assim no meu tempo, teria me sentido muito bem”, contou.
Ter esse apoio durante a gravidez teria sido muito importante para mim
Maria Vitória Madureira, voluntária

Leia Também:
A voluntária explica que muitas gestantes chegam sem experiência com agulhas e tecidos, o que exige atenção durante o aprendizado. Com orientação e paciência, porém, elas conseguem avançar nas tarefas e participar da confecção das peças.
“É importante ter paciência com elas [grávidas] e explicar direitinho o que precisam fazer. Elas são dispostas e aprendem rápido. É só ter paciência e orientar cada uma durante o processo de aprendizagem”, explica.
Maria de Lourdes também participa do trabalho. Natural da Paraíba e moradora do Uruguai há quase 40 anos, ela acompanha as mulheres desde os primeiros contatos com a costura até a conclusão do enxoval, observando como as participantes desenvolvem novas habilidades ao longo das semanas.
“Quando começam, elas não sabem sequer como enfiar uma linha na agulha. Então, é bem difícil para elas. A gente acompanha cada uma desde os primeiros passos na costura até a conclusão do enxoval. A cada semana, elas levam uma peça pronta”, conta.

Com a prática, as gestantes passam a trabalhar nos detalhes decorativos de lençóis, mantas e cueiros, utilizando fitas e bordados para personalizar os itens. Para Maria de Lourdes, acompanhar o envolvimento das mulheres com as próprias produções é uma parte importante da experiência.
“Elas vão criando gosto, né? Porque tem as partes que são decoradas, como os lençóis, as mantas, os cueiros. Aí elas ficam encantadas, porque a gente decora com bicos bordados, fitas. E aí elas ficam muito felizes.”

A participação também representa uma oportunidade de troca para as voluntárias, que compartilham conhecimentos e convivem com mulheres em diferentes momentos da maternidade. Maria de Lourdes destaca que a experiência de ajudar outras pessoas também traz aprendizados para quem está do outro lado.
Compartilhar o que a gente tem e ajudar outras pessoas a receber o apoio de que precisam traz muita alegria. São meninas que realmente precisam desse acolhimento. Todos nós precisamos uns dos outros, e essa troca é importante, porque, assim como a gente contribui com elas, elas também contribuem com a gente”, diz.
Apoio considera dificuldades além da gravidez
A necessidade de acolhimento, no entanto, não se limita à preparação para a chegada do bebê. Segundo a assistente social Camila Sacramento, a violência doméstica e a escassez alimentar estão entre os problemas enfrentados por gestantes em situação de vulnerabilidade, muitas das quais precisam sustentar a família mesmo quando recebem algum tipo de auxílio.
“Muitas, mesmo recebendo auxílio, enfrentam dificuldades para se manter e são mães solo. Aqui, encontram acolhimento e atendimento psicológico para levar a gravidez até o fim com mais segurança e autonomia”, aponta.

A saúde emocional também merece atenção durante esse período, principalmente quando a mulher não tem com quem dividir as preocupações e as responsabilidades. Camila ressalta que o suporte dentro do projeto pode continuar depois do nascimento da criança, quando o cansaço e as mudanças na rotina passam a fazer parte dos cuidados com o recém-nascido.
“A falta de apoio é um dos principais fatores associados à depressão durante a gestação e, principalmente, no pós-parto. Com uma rede de apoio, a mulher consegue buscar atendimento psicológico, conversar sobre suas dificuldades e dividir os cuidados com o bebê. O puerpério é um período de muito cansaço, e esse acolhimento faz diferença”, defende.
Rede de apoio para enfrentar a maternidade
Para Vânia Castro, gerente de projetos sociais da Associação Coração de João, a iniciativa tem um papel importante no acolhimento dessas mulheres que precisam desse suporte durante a gestação. Segundo ela, a atividade é a mais antiga da associação e existe há 30 anos.
Entre os desafios enfrentados pelas jovens gestantes estão a descoberta de uma gravidez não planejada e, em alguns casos, a falta de participação do companheiro nos cuidados e nas responsabilidades que acompanham a chegada de uma criança.

Vânia ressalta que as mudanças da gravidez podem vir acompanhadas de maior sensibilidade emocional. Por isso, contar com pessoas dispostas a ouvir e ajudar, sem julgamentos, pode influenciar a maneira como a mulher atravessa esse período. “Esse é o grande desafio do acolhimento familiar: lidar com uma gravidez que não foi planejada e, às vezes, com a ausência do companheiro para assumir, junto com essa gestante, a responsabilidade pela vida que está chegando”.
“A gravidez em si já mexe com a mulher, né? Mexe com os hormônios, mexe com a mulher, que se torna muitas vezes muito mais sensível. Então, o fato de ter essa rede de apoio, que acolhe, que cuida, que acolhe sem julgar, sem criticar, né? Que verdadeiramente estende a mão, isso faz a diferença”, complementa.
Como fazer para participar do projeto?
As gestantes interessadas em participar devem entrar em contato com a organização responsável ou comparecer a um dos pontos de atendimento. As vagas são limitadas à capacidade do espaço e à disponibilidade de materiais para a confecção dos enxovais.
O contato pode ser feito das seguintes formas:
Online
- WhatsApp: (71) 99304-0024
- Instagram: @sonhodemaealagados
Atendimento presencial
- Centro Pastoral Boa Esperança: Rua 6 de Janeiro, nº 101, bairro do Uruguai, Salvador (BA). O local costuma receber as atividades e os encontros semanais do projeto.
- Sede administrativa: Rua Luiz Régis Pacheco, nº 1618, bairro do Uruguai, Salvador (BA).
A maternidade traz mudanças que vão além da chegada de um filho e exige adaptações na rotina, nas relações e na vida financeira.
Em meio a tantas responsabilidades, ter as próprias dificuldades ouvidas e encontrar pessoas dispostas a ajudar pode tornar esse período menos difícil, permitindo que as gestantes também olhem para suas necessidades enquanto se preparam para cuidar de uma nova vida.
