O tabuleiro está diante deles, mas não é preciso enxergá-lo para saber onde estão as peças. No Centro de Apoio Pedagógico ao Deficiente Visual (CAPE), no bairro do Barbalho, em Salvador, jogadores cegos e com baixa visão usam as mãos, a memória e a audição para acompanhar, gratuitamente, partidas de xadrez. Cada movimento precisa ser identificado e reproduzido, enquanto a próxima jogada é calculada mentalmente.
O tato, um dos cinco sentidos do ser humano, assume uma função diferente diante do tabuleiro. As peças são examinadas com os dedos e as casas podem ser reconhecidas pela altura. Durante a partida, os competidores dizem em voz alta de onde retiraram uma peça e para qual posição ela foi levada.

Na borda do equipamento, números e letras estão representados em braille. O recurso ajuda na localização das casas e permite que os jogadores utilizem referências próprias para identificar as posições. Em uma disputa, saber exatamente onde está cada peça é fundamental para decidir o próximo movimento.

O tabuleiro utilizado pelos alunos possui outras adaptações. As casas pretas são mais altas do que as brancas, criando uma diferença perceptível ao toque. Cada espaço também tem um buraco central para encaixar as peças e impedir que elas caiam quando são manuseadas.
As peças pretas possuem ainda uma saliência pontiaguda na parte superior. A diferença permite que sejam separadas das brancas sem a necessidade de enxergá-las. Além disso, cada jogador utiliza seu próprio tabuleiro e reproduz nele os movimentos feitos pelo adversário.
A fisioterapeuta Selma Calazans, que tem baixa visão, já acumula experiência em competições de xadrez. Para ela, o esporte não se resume à disputa entre duas pessoas diante de um tabuleiro. As decisões tomadas durante uma partida também exigem planejamento, cálculo e capacidade de antecipar possibilidades.

A relação com o jogo começou há alguns anos e, desde então, Selma passou a utilizar o raciocínio desenvolvido nas partidas em situações do dia a dia. Ela cita até mesmo a escolha de trajetos e o uso do transporte público como exemplos de decisões que podem exigir o seu planejamento prévio.
“Foi amor à primeira vista para desvendar o tabuleiro do xadrez, e o que aprendo levo para a vida. Fazer cálculo de cabeça, o que fazer primeiro, para onde ir, que roteiro de ônibus pegar. Todos esses cálculos fazem parte do meu cotidiano. O xadrez me proporciona isto, o raciocínio rápido e lógico.“, conta ao MASSA!.

A experiência acumulada nas partidas não elimina as exigências do xadrez adaptado. É necessário acompanhar linhas horizontais, verticais e diagonais, além de manter na memória a posição das peças que já foram movimentadas. É a partir dessas informações que ela constrói mentalmente uma representação do tabuleiro.
“O tabuleiro adaptado não tem muita dificuldade para seguir, mas ao mesmo tempo é difícil. Você tem que ler as diagonais, as laterais, horizontal, vertical. Então, se você não prestar atenção, você não consegue desenvolver.”
Xeque-mate contra ansiedade
Diferente de Selma, a relação de Laura Melo com o xadrez começou mais tarde. Cega desde os 24 anos, ela perdeu a visão depois que um tumor na hipófise do cérebro comprimiu e deslocou suas duas retinas. A aposentadoria chegou aos 35 anos, mas o contato com o esporte veio somente depois de idosa.
Moradora do Amaralina, ela enfrenta um longo deslocamento para chegar ao local das atividades. Para participar das aulas, pega dois ônibus e um metrô, e foi assim que, aos poucos, as partidas fizeram parte da rotina. Laura encontrou no jogo uma atividade que, segundo ela, ajuda a lidar com a ansiedade e exige atenção para acompanhar as possibilidades apresentadas pelo adversário.

“Me interessei pelo fato de eu ter muita ansiedade e isso aqui é uma terapia, né?, praticamente. Um jogo de tabuleiro muito bom que associa a gente a consciência, a metodologia da matemática e nos acalma”, diz.
A aprendizagem, entretanto, também é acompanhada por obstáculos físicos. Laura conta que perdeu parte da coordenação motora depois de ter covid-19 e que passou a enfrentar dificuldades para percorrer o tabuleiro de um lado ao outro. Os obstáculos, segundo diz, aparecem principalmente quando ela precisa acompanhar uma linha horizontal por uma distância maior.
"Perdi a coordenação motora depois que tive a Covid. Também perdi a audição de um ouvido e o paladar. Então essa é a dificuldade que estou tendo: ler o tabuleiro na horizontal, porque às vezes eu começo aqui e termino lá do outro lado", descreve para a reportagem.

Aprendizado depois dos 60
Aos 62 anos, Paulo Roberto Pereira também precisou se adaptar a uma nova realidade. Nascido no estado do Acre e naturalizado em Salvador, ele trabalhou durante anos como caminhoneiro, dirigindo carretas. Em 2021, um descolamento de retina provocou a perda parcial da visão.
Segundo Paulo, o problema é hereditário na família. A mudança fez com que atividades que antes faziam parte de sua rotina precisassem ser reorganizadas. Foi nesse período que o xadrez entrou em sua vida.

Ele já conhecia a dama e jogava quando ainda enxergava. O primeiro contato com o xadrez adaptado, no entanto, ocorreu no CAPE, em 2025. Desde então, começou a aprender as regras, reconhecer as peças pelo toque e participar de campeonatos.
“Eu jogava dama quando eu era vidente, e o xadrez, vim aqui ano passado, me interessei. Mas eu aprendi, já cheguei a 9º lugar no xadrez de um campeonato pequeno assim, só para interagir”, revela.
A participação em torneios veio pouco tempo depois do primeiro contato com a modalidade. O resultado, segundo ele, mostrou uma evolução rápida, embora as partidas ainda sejam marcadas por momentos de dúvida.
Durante um dos jogos, Paulo percebeu que havia cometido um erro ao posicionar uma peça e permitiu que o adversário realizasse uma jogada de ataque. Ele reconhece que situações assim fazem parte do processo de aprendizagem:
“Às vezes eu me atrapalho, nesse instante aí eu me atrapalhei porque se eu deixei aqui nela, ela cobriu com o bispo. Ela me deu xeque. Mas é que eu tô aprendendo ainda.”, relata.

Para ele, a atividade também representa uma forma de manter uma rotina e permanecer em contato com outras pessoas. O aprendizado do Sistema Braille, código de leitura e escrita tátil usado por pessoas cegas ou com baixa visão, aparece como outro elemento associado à experiência.
“Representa muita coisa, é minha nova rotina. Se ficar em casa é pior. E ajuda a desenvolver até nas pronúncias. Aqui a gente também lê Braille, eu aprendi a identificar as palavras”, acrescenta.
Alcance internacional
Antes de ensinar outros alunos, Cláudia Lima também precisou aprender a conviver com a perda da visão. Há 27 anos, quando chegou ao CAPE pela primeira vez, ela ainda tinha baixa visão. O espaço fez parte do processo de adaptação e, posteriormente, também se tornou o lugar onde iniciou sua trajetória no xadrez.

A experiência se transformou em uma carreira no esporte. Atualmente, Cláudia é candidata a mestre, título oficial concedido pela Federação Internacional de Xadrez (FIDE) ou por confederações nacionais. Ela também foi campeã baiana em 2025 e terminou o nacional de 2024 na quarta colocação:
“Entrei aqui no CAP em 2005, quando eu entrei no xadrez. Hoje em dia eu sou candidata a mestre de xadrez, campeã baiana de 2025, a quarta melhor do brasileiro, do nacional de 2024.”
Nas aulas, de acordo com o que conta ao MASSA!, seu processo de ensino começa pelo reconhecimento físico das peças. Ela diz que é importante que os estudantes passem as mãos pelos objetos para entender suas formas e diferenças. Depois, esses alunos são apresentados às possibilidades de movimentação de cada peça e às posições que podem aparecer em uma partida.

"Eles tocam, sentem a textura das peças, o formato das peças, e depois a gente vai fazer o estudo de cada posição, de cada movimento dessas peças. Cada aluno tem um tempo para aprender. E cada um aqui tem uma idade, cada um tem uma forma de pensar e de jogar, e isso faz com que a gente se dedique mais e faça com que eles aprendam ainda mais o xadrez”, detalha.
Jogadas caras
Para além das adaptações necessárias durante uma partida, o acesso ao próprio esporte aparece como uma questão entre os jogadores. Cláudia destaca o custo relacionado ao xadrez e aponta a falta visibilidade como um dos obstáculos para ampliar a presença de pessoas cegas e com baixa visão na modalidade.
A existência de equipamentos específicos, a necessidade de treinamento e a participação em competições podem representar gastos para os praticantes. Para a enxadrista, o cenário também está relacionado ao pouco reconhecimento destinado à modalidade.
"Xadrez é um esporte rico, mas é um esporte caro. Nós temos a equipe de xadrez de pessoas cegas e com baixa visão, e a gente trabalha muito com isso, com a inclusão. Então eu acho que precisa de mais reconhecimento e, por ser um esporte caro, acho que não tem muita visibilidade", complementa.

Mas isso não é motivo para desanimar. No Barbalho, cada jogador encontra uma maneira própria de lidar com as limitações impostas pela deficiência visual. Selma já tem experiência em competições; Laura descobriu a modalidade na velhice; Paulo ainda está construindo seu repertório; e Cláudia transformou o aprendizado em ensino.
Em comum, os quatro precisam conhecer o tabuleiro por outros caminhos. As mãos localizam as peças, a voz registra as jogadas e a memória mantém as posições. E o restante? Fica por conta da estratégia.