Super El Niño pode afetar o orçamento dos baianos; entenda como

Mudanças no clima podem trazer reflexos negativos para o consumidor

Home / Cidades

Alerta econômico - - Jaísa de Almeida- Atualizado em

Antes de chegar à mesa do baiano, muitos alimentos precisam enfrentar uma etapa que não aparece na etiqueta do supermercado: a produção no campo. É justamente aí que um fenômeno que acontece no Oceano Pacífico, chamado de Super El Niño, pode começar a ganhar espaço na economia das famílias.

O Super El Niño pode provocar mudanças nos padrões de chuva e temperatura acima da média em diferentes regiões do Brasil, além de colocar em discussão a oferta de determinados alimentos. Mas não significa que uma alta generalizada esteja garantida: uma lavoura depende de água para se desenvolver. Se uma plantação tiver a produtividade prejudicada, a quantidade disponível para comercialização pode diminuir.

Dependendo da oferta e da procura, o consumidor pode sentir a diferença no preço. É essa possível trajetória, do Pacífico até o orçamento doméstico, que especialistas acompanham. Para o meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Melquizedek Duarte, os efeitos do fenômeno não serão iguais em todo o território brasileiro.

“Ele deve afetar principalmente a região Norte e Nordeste com baixa precipitação. Então, a gente deve ter chuvas abaixo da média. Porém, na região da Bahia, os efeitos não são tão diretos. O que acontece é uma chuva mais irregular, especialmente no centro-norte aí no estado.”, explica em entrevista ao MASSA!.

No Nordeste, uma das consequências esperadas é a ocorrência de temperaturas superiores à média. Para Duarte, os termômetros podem registrar até 1,5°C acima do padrão, enquanto a irregularidade das precipitações pode alcançar rios e sistemas responsáveis pelo abastecimento.

“Para todo o Nordeste, a tendência é de temperaturas acima da média, podendo chegar até 1 grau e meio acima da média. Com essa irregularidade nas chuvas, isso deve afetar os rios e toda parte hidrográfica, até de abastecimento.”

Salvador sente o calor

Na capital baiana, a preocupação está principalmente nas temperaturas elevadas. Salvador reúne características urbanas que podem aumentar o aquecimento em determinados pontos, como grande concentração de construções, pouca arborização em algumas áreas e extensa cobertura de concreto e asfalto.

“A região de Salvador, é mais urbanizada, com prédios um pouco mais altos, então isso torna a região mais quente do que seria a região do semiárido, por exemplo. A baixa arborização, a vegetação menor, também o uso do solo com cobertura asfáltica, por exemplo, isso aí traz efeitos maiores.”

Ondas de calor podem afetar a capital baiana
Ondas de calor podem afetar a capital baiana | Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

O impacto financeiro para quem mora na capital, porém, não precisa estar diretamente relacionado à temperatura registrada nas ruas. Uma das principais preocupações está no interior, onde alterações na disponibilidade de água podem atingir atividades agrícolas.

A Bahia possui uma produção diversificada, com destaque para o cultivo de alimentos como soja, milho, feijão e café. Por isso, qualquer alteração nas condições necessárias para o desenvolvimento das plantações entra no radar de quem acompanha a produção e o abastecimento.

O que os números mostram?

Os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), disponibilizados ao MASSA!, apresentam estimativas diferentes para algumas das principais culturas produzidas no estado. O levantamento foi feito em dezembro de 2024, dezembro de 2025 e julho de 2026.

🌱 Soja: 7.532.100 toneladas em dezembro de 2024; 8.606.190 toneladas em dezembro de 2025; e 8.929.800 toneladas em julho de 2026.

🌽 Milho de 1ª safra: 1.551.090 toneladas em dezembro de 2024; 1.932.000 toneladas em dezembro de 2025; e 2.088.000 toneladas em julho de 2026.

🌽 Milho de 2ª safra: 766.080 toneladas em dezembro de 2024; 806.400 toneladas em dezembro de 2025; e 714.000 toneladas em julho de 2026.

🟤 Feijão de 1ª safra: 137.100 toneladas em dezembro de 2024; 86.400 toneladas em dezembro de 2025; e 100.800 toneladas em julho de 2026.

🟤 Feijão de 2ª safra: 85.200 toneladas em dezembro de 2024; 100.800 toneladas em dezembro de 2025; e 85.800 toneladas em julho de 2026.

Café arábica: 104.040 toneladas em dezembro de 2024; 88.800 toneladas em dezembro de 2025; e 90.300 toneladas em julho de 2026.

🌾 Trigo: 34.818 toneladas em dezembro de 2024; 34.644 toneladas em dezembro de 2025; e 34.860 toneladas em julho de 2026.

🍚 Arroz: 750 toneladas nas três estimativas.

Os números não representam, por si só, uma previsão de perdas provocadas pelo El Niño. Eles servem como retrato das estimativas de produção destes mantimentos e ajudam a dimensionar a importância da atividade agrícola para a economia baiana.

Quando a lavoura sente

É justamente sobre possíveis dificuldades no campo que chama atenção o alerta da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Irrigação, Pesca e Aquicultura da Bahia (Seagri). Segundo Assis Pinheiro Filho, diretor de Desenvolvimento da Agricultura da pasta, diferentes regiões podem enfrentar problemas caso a disponibilidade de água seja comprometida.

Assis Pinheiro é diretor de Desenvolvimento da Agricultura
Assis Pinheiro é diretor de Desenvolvimento da Agricultura | Foto: Divulgação/Manuela Cavadas/Seagri

No Oeste do estado, onde estão importantes áreas produtoras de grãos, a falta de água pode comprometer a germinação e diminuir a produtividade. Já no Semiárido e no Sertão, a preocupação envolve principalmente a agricultura familiar, a criação extensiva de animais e culturas destinadas à subsistência.

No Sul e no Sudoeste, por sua vez, o desenvolvimento de frutos e grãos pode ser afetado. Café e cacau aparecem entre as produções citadas pela Seagri como vulneráveis a alterações nas condições de cultivo.

Leia Também:

O problema não se resume à quantidade produzida. O momento em que a chuva acontece também interfere na atividade rural. Uma alteração no período adequado para o plantio pode obrigar o produtor a mudar o calendário e comprometer etapas posteriores da produção.

Secas também podem atingir outras regiões do estado
Secas também podem atingir outras regiões do estado | Foto: Divulgação/Embrapa

“A oscilação do clima desorganiza a janela ideal do calendário agrícola, pois a falta de umidade no solo força o adiantamento ou adiamento do plantio de culturas temporárias como a soja e milho de 1ª safra. O atraso no plantio da safra principal reduz a janela climática favorável para a segunda safra.”, relata Assis.

Do campo para o supermercado

Uma eventual perda de produtividade pode reduzir a quantidade de determinado alimento disponível para venda. É nesse momento que a questão deixa de ser exclusivamente agrícola e passa a interessar diretamente ao consumidor.

O preço de um produto não é definido apenas pela produção baiana. Mercadorias podem vir de outros estados ou países, e o valor final também sofre influência de transporte, combustível, energia, armazenagem, demanda e disponibilidade em diferentes mercados.

Por isso, uma redução em uma lavoura não significa automaticamente que o alimento ficará mais caro. O impacto depende da dimensão da perda e de como o mercado consegue compensar uma eventual redução na oferta.

Importante ficar atento as mudanças no preço
Importante ficar atento as mudanças no preço | Foto: Joá Souza / Ag. A TARDE

Mesmo assim, os alimentos afetados em diferentes regiões podem aumentar os custos ao longo dos meses. Se for necessário buscar o produto em locais mais distantes, por exemplo, despesas de transporte podem entrar nessa conta.

É essa possibilidade que coloca o consumo entre os principais pontos de atenção para as famílias. Produtos básicos têm presença constante nas compras e, por isso, pequenas alterações nos preços podem fazer diferença quando acumuladas ao longo do mês.

Preocupação chega às contas

Para o economista Marcelo Ferreira, acompanhar o orçamento doméstico é uma medida importante diante da possibilidade de encarecimento de produtos essenciais para os baianos. A recomendação inclui observar despesas que podem ser afetadas por alimentos, combustíveis e energia.

Marcelo Ferreira é economista
Marcelo Ferreira é economista | Foto: Arquivo pessoal

“Nesse momento, vale uma prática que a gente deve adotar sempre: observar o orçamento doméstico. Diante do risco de encarecimento de itens essenciais como alimentos, impulsionado pela alta de combustíveis e energia, o caminho é cortar gastos supérfluos e pesquisar preços.”

O conselheiro do Conselho do Federal de Economia do Brasil (Cofecon), Gustavo Pessoti, destaca que a preparação financeira não precisa esperar uma eventual alta. Segundo ele, conhecer as despesas permite identificar onde existe espaço para redução caso a renda fique mais pressionada.

Gustavo Pessoti é presidente do Conselho Regional de Economia da Bahia
Gustavo Pessoti é presidente do Conselho Regional de Economia da Bahia | Foto: Arquivo pessoal

“O primeiro passo é não esperar a alta dos preços para reorganizar o orçamento. Em um cenário de maior pressão sobre a inflação, o consumidor deve fazer um diagnóstico dos gastos e identificar quais despesas são essenciais, quais podem ser reduzidas e quais podem ser adiadas.”, descreve.

Entre os gastos que merecem maior atenção estão alimentação, energia elétrica, gás, transporte, combustível, medicamentos e despesas de saúde. Aluguel, outras despesas habitacionais e compromissos financeiros também entram nessa relação.

Dívidas de cartão de crédito e cheque especial podem se tornar especialmente pesadas quando a renda já está comprometida. Os juros dessas modalidades podem ampliar rapidamente uma diferença inicialmente pequena entre o que a família ganha e o que precisa pagar.

“É fundamental observar as despesas financeiras. Em períodos de inflação e orçamento pressionado, entrar no rotativo do cartão ou no cheque especial pode transformar uma dificuldade temporária em um problema muito maior”, aponta.

Vale fazer estoque?

A possibilidade de aumento de preços também pode provocar uma reação comum nas compras: levar mais produtos para casa antes que eles fiquem caros. Para o economista Marcelo Ferreira, porém, antecipar despesas exige cautela.

Comprar uma quantidade maior apenas por receio de uma alta pode resultar em desperdício caso os alimentos não sejam consumidos dentro do prazo. Também existe o risco de comprometer o dinheiro reservado para despesas fixas.

“Estocar produtos exige muito cuidado. Só vale a pena para itens não perecíveis e se você tiver dinheiro disponível, sem comprometer o caixa do mês — caso contrário, a compra agrava a situação financeira.”

Comprar uma quantidade maior apenas por receio de uma alta pode resultar em desperdício
Comprar uma quantidade maior apenas por receio de uma alta pode resultar em desperdício | Foto: Divulgação/Agência Brasil

Uma economia obtida em determinada compra perde sentido se a antecipação deixar faltar recursos para aluguel, contas básicas ou outras obrigações. Mas, segundo as orientações dos economistas, algumas atitudes podem ajudar o consumidor a atravessar o período sem comprometer o orçamento.

▶️ Conhecer o próprio orçamento: anotar receitas e despesas e saber exatamente para onde o dinheiro está indo;

▶️ Separar necessidade de desejo: antes de uma compra, perguntar: eu preciso disso agora ou estou comprando porque está em promoção ou porque tenho medo de que o preço aumente?

▶️ Pesquisar preços: em períodos de inflação, comparar preços deixa de ser apenas uma forma de economizar e passa a ser uma forma de preservar poder de compra;

▶️ Evitar novas dívidas caras: se o orçamento já está pressionado, parcelar compras não essenciais ou utilizar crédito rotativo pode agravar bastante a situação;

▶️ Reserva financeira: mesmo que seja pequena, uma reserva funciona como um colchão para absorver aumentos de preços ou despesas inesperadas.

Além de saber como se preparar financeiramente, também é preciso considerar que os possíveis efeitos do fenômeno não desaparecem de forma imediata. Segundo o meteorologista Melquizedek Duarte, existe um intervalo entre o aquecimento do Pacífico e a percepção de seus impactos em outras regiões.

“El Niño tem um atraso para a gente, a gente começa a sentir os efeitos de aproximadamente 2 ou 3 meses. O fenômeno está previsto para seguir até pelo menos o trimestre de 2027. Então, vai ser um 2027 de alerta, os seus efeitos ainda vão perdurar aí pelas regiões do Brasil por mais pelo menos 2 ou 3 meses.”, complementa.

Isso significa que o comportamento dos preços não deve ser analisado a partir de uma única data. Entre a alteração registrada no Pacífico e uma eventual repercussão nas compras, existe uma cadeia que envolve produção, transporte, comercialização e consumo.

Apesar dos possíveis impactos na produção baiana, ainda não é possível afirmar que o Super El Niño vai provocar uma alta generalizada nos preços. O resultado dependerá das condições das lavouras, da oferta disponível e dos custos envolvidos até que os produtos cheguem ao supermercado.

exclamção leia também