No bairro de São Caetano, onde a rotina é marcada pelo movimento de uma das regiões mais populosas de Salvador, crianças e adolescentes encontram no esporte uma alternativa para ocupar o tempo livre, fazer amizades e desenvolver novas habilidades. Às segundas, quartas e sextas-feiras, o Dojô Campeões do Bem recebe alunos para as aulas do Projeto Luta Cidadã – Judocas e Cidadãos em Formação!, realizado na Base Comunitária da 9ª Companhia Independente da Polícia Militar (CIPM).
Embora funcione dentro de uma estrutura da Polícia Militar, a iniciativa tem o esporte como principal ponto de encontro. No tatame, os alunos aprendem técnicas do judô, mas também passam a conviver com outras pessoas, assumir compromissos e estabelecer uma rotina fora da escola. Para algumas famílias, a atividade ainda representa uma oportunidade de acesso gratuito a uma modalidade que poderia ficar distante da realidade financeira de casa.
É nesse ambiente que Valentina, de 8 anos, começou a construir uma rotina própria. A menina é criada pela avó Nancy Rita desde os oito meses de idade, após a morte da mãe, vítima de câncer de pâncreas. Como acompanha a neta enquanto o pai da garotinha trabalha, a mulher procurou uma atividade que permitisse à criança sair de casa. Segundo ela, a proximidade do projeto do local onde mora e a ausência de custo fazem diferença na escolha.
“Uma criança precisa se mover, ficar fora de casa, participar de ginástica, de natação. E a gente não tem muitas condições para pagar. O projeto é uma maravilha, é um lugar seguro, é perto de casa, em uma área movimentada”, diz em entrevista à reportagem do MASSA!

Além da atividade física, Nancy percebe no judô uma possibilidade de ajudar a neta a lidar com a ausência da mãe. A aposentada afirma que, por causa da idade, sabe que ocupa um lugar diferente na vida da menina e considera importante que Valentina tenha contato frequente com outras crianças. O convívio proporcionado pelas aulas, de acordo com ela, ajuda a pequena a construir relações para além do núcleo familiar:
“O esporte é uma maneira para suprir essa falta da mãe porque eu tenho idade, né? Ela sabe que eu não sou a mãe dela. E ela precisa conviver com outras crianças, precisa conviver com outras pessoas. Não ficar só presa comigo e com o avô."
Nova rotina depois da pandemia
A experiência também foi diferente para Miguel, de 11 anos. O garoto, morador do bairro, passou por um período de isolamento depois da pandemia e, segundo o pai, o técnico em radiologia Val Araújo, já recebia acompanhamento médico por conta das dificuldades de socialização. A família buscava uma atividade que pudesse estimular a convivência e, ao mesmo tempo, despertasse o interesse do menino.
Antes do judô, o futebol parecia ser o caminho mais natural. Miguel chegou a frequentar um clubinho, mas não quis continuar. A mudança de modalidade veio depois que os pais conheceram o projeto em São Caetano. A adaptação ao novo ambiente ocorreu aos poucos e, atualmente, o garoto participa das aulas há cerca de sete meses, segundo o pai.

“Ele interagiu bastante, gostou, mas, com o tempo, ele não queria mais futebol. A gente [Val e sua esposa] veio saber desse projeto, aí trouxe ele, ele gostou e já faz sete meses, mais ou menos, que participa”, compartilha com a reportagem.
Para Val, encontrar uma atividade que despertasse o interesse do filho também trouxe uma preocupação que acompanha o imaginário de muitos pais: a insegurança. Ele conta que, com os adultos fora de casa durante boa parte do dia, ele se sente apreensivo em deixar Miguel circulando sozinho pela rua. Nesse cenário, ter um compromisso regular com o esporte passou a fazer parte da organização da família:
Eu saio pra trabalhar, a mãe sai também, eu não tenho coragem de deixar meu filho sair e ficar no meio da rua. Eu vejo que muitas crianças que vão pro colégio, estudam, mas o restante do dia ficam soltos na rua. Eu, como pai, me preocupo.
No tatame, novas possibilidades
Para Maria Júlia Nery, de 13 anos, o judô chegou acompanhado de novas amizades e de uma sensação maior de autonomia. A adolescente conta que sempre teve vontade de praticar a modalidade e, depois de começar as aulas, passou a enxergar objetivos que antes não faziam parte da sua rotina. Entre eles estão disputar campeonatos e avançar nas faixas.
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A adolescente também relaciona o aprendizado das técnicas de luta à possibilidade de defesa pessoal. Ao falar sobre a experiência, ela destaca a convivência com os colegas e a forma como o esporte passou a ocupar um espaço fixo na semana. A atividade, segundo Maria Júlia, trouxe ainda um compromisso que se estende para fora do dojô.
“As pessoas são muito acolhedoras, muito legais. Eu fiz muita amizade e aprendi muita coisa, principalmente a me defender. Hoje em dia é muito difícil para as mulheres, muito feminicídio, muita violência, muita agressão com as mulheres. O judô é uma forma muito boa para as mulheres aprenderem defesa pessoal", relata.

O envolvimento com a modalidade fez com que a jovem passasse a organizar parte do dia em função dos treinos. Depois da escola, ela segue para as aulas e precisa se preparar com antecedência. A perspectiva de competir também acrescentou uma meta concreta à experiência:
“Eu sempre quis entrar no judô. Agora que eu entrei, eu quero ir para campeonato, mudar de faixa. É uma coisa que mudou muito minha vida, porque agora eu tenho um comprometimento com alguma coisa, que antes eu não tinha. Agora eu saio da escola, já venho para o judô, tenho que deixar minhas coisas arrumadas."
Esporte como ponto de encontro
A estrutura que abriga as aulas fica dentro da 9ª CIPM, mas a relação entre o projeto e os moradores ultrapassa o espaço físico da companhia. Segundo o major PM Zanony, comandante da unidade, a abertura do local para atividades voltadas à população também permite que os moradores da localidade frequentem um ambiente que normalmente estaria associado apenas ao trabalho policial.
Ao falar sobre o bairro São Caetano, o oficial afirma que a realidade econômica da região não deve ser utilizada para definir o comportamento de quem mora ali.
É muito comum as pessoas rotularem aquilo que elas não conhecem. Por se tratar de uma localidade de pessoas com a renda considerada baixa essas pessoas tendem a pensar de forma enviesada para a questão da criminalidade.
Na avaliação do comandante, a utilização da estrutura por projetos sociais também modifica a relação cotidiana entre policiais e moradores. Ele afirma que lideranças do bairro já utilizam o espaço para desenvolver atividades e que a aproximação pode contribuir para facilitar o diálogo entre a PM e a população..
“A partir do momento que a PM abre as suas portas, no sentido de tornar viável a presença da comunidade dentro das suas instalações, se quebra aquele mito do distanciamento e também fica perceptível que trabalhar com a inclusão do jovem é a melhor maneira que nós temos hoje de tentar tirar as pessoas do acesso das drogas, da criminalidade", menciona.

Para o aspirante Augusto, que está à frente do projeto, a atividade esportiva também ajuda a apresentar outras possibilidades para quem cresce no bairro. Ele ressalta que São Caetano reúne moradores com diferentes trajetórias e que a localização da iniciativa não deve ser confundida com uma característica atribuída aos participantes:
“Não é porque aqui é uma região periférica, que todos aqui são criminosos ou pessoas de má conduta. Pelo contrário, a grande maioria da sociedade aqui, todos são pessoas de boa conduta.”
Muito além do judô
O tatame não é o único espaço destinado às atividades esportivas na base comunitária. O local também oferece aulas de capoeira, karatê, aikido e boxe, ampliando as opções para quem procura uma modalidade com a qual se identifique. A variedade permite que jovens e adultos tenham contato com diferentes práticas de luta e escolham aquela que mais desperta interesse.

Professor de artes marciais na base comunitária há cerca de dez anos, o policial militar Marcelo Almeida acompanha a transformação de parte desses alunos ao longo do tempo. Segundo diz o instrutor, a prática esportiva não se limita ao condicionamento físico: os ensinamentos também envolvem comportamento, disciplina e respeito nas relações com colegas e professores.
O esporte é um transformador para a vida do ser humano. E, para esses meninos aqui, é fundamental. É uma arte marcial que agrega.

No judô, essa formação também está relacionada a princípios que vão além da competição. Um deles é o “Jita Kyoei”, conceito associado à ideia de prosperidade e benefício mútuo. Na prática, a filosofia incentiva os alunos a entenderem que o desenvolvimento individual também passa pela relação com quem está ao redor.
“A gente tem aqui alguns princípios máximos do judô, que é Jita Kyoei, prosperidade e benefício mútuo. Então, eles aprendem a cuidar uns dos outros. Os maiores sempre estão cuidando dos menores”, conta Marcelo.
Entre quedas, golpes, exercícios e conversas, o dojô passou a integrar a rotina de crianças e adolescentes de São Caetano. Para alguns, é uma atividade física; para outros, uma oportunidade de fazer amizades, desenvolver autonomia ou estabelecer um compromisso semanal. As histórias de Valentina, Miguel e Maria Júlia mostram que os caminhos encontrados no esporte são diferentes, mas têm em comum a possibilidade de construir novas experiências dentro do próprio bairro.

São Caetano, assim como outros bairros de Salvador, também convive com problemas relacionados à violência, mas a realidade de quem vive na região não se resume às ocorrências que chegam ao noticiário. Há 27 anos, o grupo O Rappa cantava, em “Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero)”, que “paz sem voz, não é paz, é medo”. No tatame, a voz que aparece é outra: a de crianças e adolescentes que encontram no esporte uma forma de pensar em novos caminhos para o futuro.