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Unidos e saudáveis - 08/08/2026, 07:00

Longe de telas: pais e filhos fortalecem laços através do esporte

Histórias de famílias mostram como corridas, lutas e brincadeiras podem fortalecer vínculos

Gustavo Ursão e o filho Pedro
Gustavo Ursão e o filho Pedro |  Foto: Arquivo pessoal

Neste domingo (9), é celebrado o Dia dos Pais, uma data que costuma ser marcada por encontros, abraços e momentos em família. Para alguns pais, porém, a conexão com os filhos vai muito além de uma comemoração e acontece durante todo o ano, em meio a treinos, corridas, lutas, brincadeiras e muita atividade física.

É o caso do empresário e praticante de atividades físicas Gustavo Ursão, que transformou o esporte em uma rotina ao lado do filho, Pedro. Os dois dividem momentos no CrossFit, no judô e até em brincadeiras que ajudam a movimentar o corpo.

"A rotina da gente em relação ao esporte, como eu te falei, é: finais de semana ele vai comigo treinar no CrossFit, a gente faz alguma atividade junto, sobe corda, pula barra, e, do judô, dia de terça-feira treinamos juntos", detalhou o papai ao MASSA!.

A parceria, segundo Gustavo, funciona nos dois sentidos. Mesmo sendo o pai, ele conta que também recebe incentivo do filho para continuar evoluindo nos treinos.

"Ele me incentiva a praticar melhor e mais, de forma mais eficiente o esporte, já que eu sou exemplo para ele. Então, eu tenho o maior cuidado de fazer melhor, de fazer de forma perfeita. A gente é pego como exemplo, mesmo que não queira, então a gente tem essa responsabilidade, digamos assim", completou.

Menos tela, mais brincadeira

Em uma época em que celulares, tablets, computadores e outros dispositivos fazem parte cada vez mais cedo da rotina das crianças, Gustavo encontrou no esporte e nas brincadeiras uma maneira de estimular o filho a se movimentar.

"[Hoje] Ele se interessa muito mais pela atividade física do que pelas telas. Então, ele sempre está nas telas num momento de ociosidade. Mas, sempre que eu estou em casa, a gente busca jogar futebol, treinar um pouco de CrossFit ou fazer atividade física aleatória, brincar de pega-pega, esconde-esconde. Então, tudo que venha a aumentar o repertório motor dele, a gente busca fazer de forma lúdica, sem nenhuma pressão, obviamente".

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Para o pai, a rotina compartilhada acabou mudando também a relação entre os dois. O esporte virou mais um espaço de parceria e convivência. "O que mudou na relação da gente é que a gente hoje consegue ter uma maior cumplicidade. A gente é parceiro mesmo para tudo. Então, a gente tem uma relação de parceria de pai e filho muito maior do que o comum, digamos assim, e se torna o herói dele, né? Uma referência de atividade física e de autocuidado."

Uma história que atravessa gerações

O esporte também criou uma ligação especial entre Gustavo e Pedro por meio das memórias familiares. Atualmente, o menino pratica judô no mesmo local onde o pai treinava quando tinha a idade dele.

"A lembrança que eu tenho dele é essa aí, onde tem eu, meu mestre, que é também uma referência para mim de pai, e ele. Meu mestre de judô já é falecido, então ele foi treinar, Pedro treina hoje no lugar onde eu treinei, quando eu era da idade de Pedro. E aí é um ciclo que vai se construindo de lembranças e que a gente, dentro da nossa família, pretende não deixar morrer, que os filhos dele, os meus netos, e assim, sucessivamente", detalhou 'Ursão'.

Para Gustavo, portanto, a atividade física acaba sendo muito mais do que uma forma de cuidar da saúde. É uma maneira de construir lembranças que podem passar de uma geração para outra.

Esporte como aliado no desenvolvimento

A relação entre pai e filho por meio do esporte também ganhou um significado especial para Gabriel, que pratica corrida e busca inserir o filho, Noah, na atividade física. O menino é autista, nível de suporte 2, e, segundo o pai, a prática tem sido importante em diferentes aspectos do desenvolvimento.

"Eu venho há um tempo praticando corrida e tentando introduzir também meu filho. O esporte, para mim, é algo mais que essencial. Ele muda o caráter, além de cuidar também da nossa saúde, tudo mais. Eu acho mais que essencial. E, ainda mais, meu filho, como autista, nível de suporte 2, o esporte na vida de criança que tem essa questão é muito importante para o desenvolvimento na parte de coordenação motora, na parte intelectual, na parte social também. Está sendo muito benéfico para a gente", enfatizou.

Gabriel e Noah
Gabriel e Noah | Foto: Arquivo pessoal

A experiência dos dois reforça como a prática esportiva pode se adaptar à realidade de cada família, respeitando as características e os limites de cada criança.

Esporte também é memória afetiva

Para o profissional de Educação Física, especialista em Fisiologia do Exercício e mestre em Ciências do Movimento Humano pela UFRGS, Maikon Cezar, histórias como as de Gustavo e Gabriel mostram que o esporte pode ser uma importante ferramenta de aproximação entre pais e filhos.

"Se a gente for olhar agora para o cenário atual, inclusive, eu posso até dar um exemplo. Eu tenho um estagiário aqui na unidade, que ele não tinha uma boa relação com o pai. Então, o que foi que eles fizeram? Começaram a correr juntos, os dois. Começaram a participar de corridas, de assessoria, e isso acabou estreitando o laço entre eles. Então, já é um estudo de casa, né? Já é um exemplo de que, de fato, a atividade física praticada, vamos dizer assim, em família, consegue fortalecer esse vínculo aí", contou ao MASSA!.

A própria relação de Maikon com o esporte começou dentro de casa. Ele vem de uma família militar e conta que o incentivo recebido do pai ajudou a definir até mesmo sua escolha profissional.

"Eu venho de uma família militar. Meu pai é oficial, meu irmão é sargento. Então, eu que não segui carreira, né? Eu segui carreira acadêmica. Então, fiz mestrado e tudo mais. Mas, assim, desde o início, eles sempre me incentivaram a praticar atividade física, tanto que eu vim para a Educação Física, né? Nenhum dos dois é da Educação Física, mas eu vim para a Educação Física justamente por isso: por gostar da atividade física, vendo eles como exemplo", explicou.

O profissional de educação física, Maykon  César
O profissional de educação física, Maykon César | Foto: Arquivo pessoal

Crianças cada vez mais conectadas

O cenário atual, no entanto, traz um desafio para os pais: equilibrar o tempo dedicado às telas com momentos de movimento e convivência.

A edição de 2024 da TIC Kids Online Brasil, pesquisa do Cetic.br, mostrou que o uso frequente de plataformas digitais faz parte da rotina de grande parte dos brasileiros de 9 a 17 anos. Entre os usuários dessa faixa etária, 70% acessavam o WhatsApp com frequência elevada, enquanto 66% faziam o mesmo com o YouTube e 60% com o Instagram.

Para Maikon, não é preciso montar uma grande estrutura ou começar com treinos pesados para mudar essa realidade. Uma simples caminhada ou um passeio de bicicleta ao lado do filho já pode ser um primeiro passo.

"Cara, eu acredito que a gente não precisa nem ir muito longe, né? Eu acho que uma simples caminhada do pai com o filho, ou até mesmo andar de bicicleta, já consegue tirar esse foco do filho, por exemplo, das telas. Inclusive, no tempo da pandemia, eu escrevi um artigo que falava sobre isso, né? Aí, na atividade física, no tempo da pandemia, justamente voltado para essa parte do sedentarismo, o tempo que a criança saiu do colégio, ficou muito tempo em casa, muito tempo na frente de tela, na frente do computador, né? Como isso aumentou a obesidade, ansiedade, depressão. Então, a gente nem precisa ir muito longe. Eu acho que uma simples caminhada, um andar de bicicleta, já consegue desviar esse foco da criança da tela e acaba promovendo esse estreitamento de laço e promovendo saúde física e mental também", acrescentou.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que crianças e adolescentes de 5 a 17 anos façam, em média, pelo menos 60 minutos diários de atividade física de intensidade moderada a vigorosa ao longo da semana. A entidade também destaca benefícios da prática para a saúde física, mental e o desenvolvimento motor e cognitivo.

O importante é encontrar uma atividade prazerosa

E não existe uma modalidade obrigatória para pais e filhos. De acordo com Maikon, a escolha deve levar em conta aquilo que desperta o interesse da família.

"Olha, eu acredito que hoje a corrida está em alta. Nem precisa ir para uma assessoria de corrida, por exemplo. Nem precisa. Corrida está muito em alta, o andar de bicicleta, por exemplo, está muito em alta. Acho que nem precisa vir para uma academia. Às vezes, a pessoa tem que identificar qual que é o melhor exercício. O que vai trazer prazer para ela naquele momento, satisfação. É o andar de bicicleta, é a corrida, por exemplo, na orla, ou a musculação. Então, tem que ser identificado ali, mas eu acho que hoje em dia a corrida está bem alta", acrescentou.

Segundo o profissional, o exemplo dos pais também pode influenciar a relação que os filhos terão com a atividade física no futuro. "Inclusive, a gente tem muitos estudos que comprovam isso. Normalmente, a criança vai seguir o exemplo do pai. E, se ela consegue manter hábitos saudáveis na infância, na adolescência, existe uma probabilidade muito grande de ela continuar com esses hábitos na vida adulta".

Mais do que exercício, presença

No Dia dos Pais, a mensagem que fica é que não é necessariamente o esporte escolhido ou a quantidade de horas de treino que faz a diferença. Para Maikon, o mais importante é a presença.

"A presença. A presença do pai é muito marcante. Eu digo isso para você porque eu tenho essa memória comigo. Do meu pai sempre estar presente. Mesmo eu estando ali brincando com meus amigos, mas eu sempre tenho essa memória de que ele está presente, ele está ali. Isso traz segurança".

"Então, se o pai está presente, por exemplo, o pai leva o filho no jogo do colégio, o pai está presente, o filho vai ter essa memória. O pai levou o filho para fazer uma caminhada, o pai está presente, o filho vai ter essa memória".

"Eu acho que a presença do pai ali é muito importante".

E é justamente essa presença que Gustavo, Gabriel e tantos outros pais transformam em rotina: um treino, uma corrida, uma brincadeira ou simplesmente alguns minutos longe das telas e perto dos filhos. No fim, o exercício pode até cuidar do corpo, mas as memórias construídas juntos ficam para a vida.

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