
O mês de Setembro é dedicado a campanhas de conscientização sobre a cultura surda e a importância da Língua Brasileira de Sinais (Libras), período que também reforça a discussão sobre acessibilidade e os direitos dessa população. Neste sábado (26), a atenção se volta ainda para o Dia Nacional dos Surdos.
Em Salvador, situações que fazem parte da rotina, como procurar atendimento em uma unidade de saúde, resolver uma pendência no banco ou buscar informações em um serviço público, podem se tornar mais difíceis para pessoas surdas quando não há profissionais preparados para se comunicar em Libras.
Quando esse suporte não está disponível, a saída costuma ser recorrer a recursos improvisados para estabelecer o contato. A escrita e até aplicativos podem ajudar durante uma conversa, mas essas alternativas não substituem o atendimento feito diretamente na língua de sinais e podem deixar informações pelo caminho.
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É diante dessa realidade que Igor de Andrade, morador de Salvador, professor de Libras na Universidade Estadual de Alagoas e ator Palhaço Surddy, aponta a falta de comunicação como uma das principais barreiras enfrentadas pela população surda nos serviços públicos.
“As principais barreiras que as pessoas surdas enfrentam nos serviços públicos estão relacionadas à falta de comunicação, pois muitas vezes não há intérpretes que auxiliem a comunicação e também muitos ouvintes sentem medo ao se comunicar com surdos”, diz.

A dificuldade fica ainda mais evidente quando não existe alguém que domine a língua de sinais no local. Nessas situações, Igor conta que precisa recorrer ao próprio celular para tentar estabelecer uma conversa com a pessoa responsável pelo atendimento.
“Quando não tem ninguém que saiba Libras, eu uso o celular como recurso para conseguir me comunicar. Normalmente, peço para a pessoa escrever o que ela quer falar e, assim, consigo ler e entender a mensagem. Em outras situações, eu mesmo escrevo no celular e mostro para a pessoa ouvinte”, destacou.
Para Igor, o contato com a Libras pode fazer diferença na forma como uma pessoa se comunica com surdos. Um exemplo está dentro de casa: a namorada dele, Julia, é cantora e aprendeu a língua por meio da convivência com o professor e com a comunidade surda, sem ter frequentado um curso formal.
“Minha namorada é cantora. Ela aprendeu tudo comigo há 3 anos. Ela nunca fez curso de Libras e só conviveu comigo e com a comunidade surda. Ela já é fluente em Libras”.

A experiência de Júlia, segundo o relato de Igor, mostra como a convivência pode aproximar uma pessoa ouvinte da língua de sinais. Fora desse contexto, porém, quem depende de um atendimento em Libras pode encontrar profissionais que não tiveram a preparação necessária para estabelecer esse tipo de comunicação.
Quando esse suporte não está disponível, a tecnologia passa a ser uma das alternativas encontradas para facilitar o contato. Igor cita o uso de aplicativos como o ICOM, plataforma de serviço de tradução simultânea em Libras por videochamada, como um recurso para conseguir conversar.
Mesmo com essas ferramentas, Igor aponta que a falta de profissionais preparados continua sendo uma dificuldade em diferentes serviços, principalmente nas áreas essenciais, como saúde e atendimento bancário.
“A falta de profissionais se mostra em diversas áreas, como na saúde, por exemplo, ao buscar hospitais ou serviços relacionados ao SUS. Há também ausência de intérprete em agências bancárias e, muitas vezes, o surdo necessita escrever para se comunicar.”
A situação não se restringe aos relatos de Igor. A dificuldade de encontrar pessoas habilitadas para estabelecer esse contato também é destacada pelo professor surdo de Libras Evandro Bispo. Segundo ele, em alguns casos, há quem tente atuar nesses espaços sem ter domínio suficiente para utilizar a língua de sinais.
“Ainda temos dificuldade de encontrar profissionais habilitados. Alguns, infelizmente, querem atuar sem ter aquela habilidade de sinalizar. Então, o surdo precisa avançar, ter experiências, contatos, né? Mas a gente percebe, eu percebo, que falta muita acessibilidade nesses espaços”, explicou.

A falta de preparo também pode fazer com que uma pessoa surda precise explicar novamente o que necessita ou encontre obstáculos para concluir um atendimento.
“Faz-se necessário estimular o cumprimento da lei estadual, né, número 15.143, deste ano, de 4 de maio de 2026, que exige que espaços, bancos com determinado número de pessoas tenham, né, forneçam qualificação em Libras para os seus funcionários”, complementa Evandro.
Além da ausência de pessoas que saibam Libras, a forma como ouvintes tentam iniciar uma conversa também pode dificultar o atendimento. A professora de Língua Brasileira de Sinais Eurides Nascimento, que é ouvinte, explica que certos comportamentos são comuns nessas situações.
“Muitos, ao tentar uma comunicação com uma pessoa surda, gritam ou acreditam que o aprendizado do alfabeto manual já é o suficiente”, explica.

Na ausência de fluência em Libras, alguns recursos podem ajudar a estabelecer um primeiro contato, no entanto, ainda assim, segundo Eurides, essas alternativas podem apresentar limitações e não garantir que a mensagem seja compreendida por completo durante a conversa.
“Algumas alternativas são usadas na comunicação com a pessoa surda na ausência da fluência da Libras, tais como: a escrita, o uso de alguns aplicativos como o Hand Talk e o uso do alfabeto manual. Entretanto, nesses casos, não é preservada a naturalidade da língua e, muitas vezes, não há o entendimento completo do que foi dito”.
Diante dessas limitações, o conhecimento básico de Libras pode facilitar o primeiro contato e reduzir a dependência de alternativas usadas de forma improvisada. Para o professor Igor, esse preparo também deveria estar presente em órgãos públicos e empresas, principalmente nos locais procurados diariamente pela população.
“Considero importante que os órgãos públicos e as empresas também ofereçam cursos básicos de Libras aos seus funcionários. Mesmo que não sejam fluentes, ter um conhecimento básico da língua já possibilitaria uma comunicação inicial com a pessoa surda e demonstraria uma preocupação maior com a acessibilidade”, diz.
A falta de comunicação pode transformar uma tarefa simples em uma situação que exige tempo, paciência e diferentes tentativas para ser resolvida. O acesso à Libras durante esses atendimentos permite que pessoas surdas participem da conversa sem vivenciar o sentimento de frustração.
E enquanto a comunicação em Libras não estiver ao alcance nesses espaços, o celular, a escrita e outros recursos seguem sendo usados para preencher essa lacuna.

