
Composto por um sistema nervoso e repleto de neurônios, o nosso segundo cérebro faz mais do que processar a comida que ingerimos: participa da produção de serotonina, um neurotransmissor relacionado ao comportamento, às emoções e ao sono. Por isso, o cuidado com o que comemos também pode refletir no funcionamento do corpo e da mente.
O MASSA! vai te explicar mais sobre a ligação entre o cérebro e o intestino, os efeitos que acontecem no órgão após comermos alimentos e como essa relação pode impactar outras funções do organismo.

“O intestino se comunica com o cérebro e o cérebro vai se comunicar com o intestino. E tanto o cérebro influencia na motilidade do intestino, na sensibilidade das vísceras, como o intestino também envia informações para o cérebro por essas vias nervosas”, afirma a nutricionista Lenice Góes da Paixão, CRN5-3505, especialista em nutrição clínica funcional e nutrição esportiva funcional.
Ela explica a relação direta entre a saúde intestinal e o cérebro ao falar sobre como emoções fortes tipo medo e estresse, podem provocar alterações no funcionamento do intestino. Ela cita, por exemplo, o que acontece quando ficamos estressados: “Uma pessoa com alteração de estresse, ela vai ter uma alteração na motilidade intestinal. Ela pode tanto ficar com o intestino mais preso, quanto com o intestino mais solto”, contou.

Essas alterações podem vir acompanhadas de distensão abdominal e gases. A relação entre intestino e cérebro também aparece na produção de serotonina e melatonina e na qualidade do sono. A melatonina, conhecida como o hormônio do sono, é produzida a partir da serotonina. Quando há uma baixa produção de serotonina devido à disfunção intestinal, ocorre uma menor produção de melatonina, o que pode afetar a qualidade do sono. “Se o intestino tá bagunçado, não tá produzindo serotonina, e isso aí vai interferir no sono também. A pessoa não dorme direito", afirmou Lenice.
Sinais de que há algo errado
Mas como saber quando o intestino não está funcionando bem? A identificação de uma possível disfunção intestinal começa pelo conhecimento do próprio corpo. Cada indivíduo tem um padrão intestinal único, por isso, é importante perceber mudanças como arrotos excessivos e alterações na frequência ou consistência das evacuações.
Entre os sinais que merecem atenção estão o inchaço abdominal frequente e a produção excessiva de gases. Outros sintomas citados pela nutricionista são:
➡️Produção excessiva de gases: caracterizada por muita flatulência e arrotos frequentes.
➡️Alterações no padrão de evacuação: Constipação severa e prolongada, como passar 15 dias sem defecar ou fezes excessivamente amolecidas ou diarreia frequente, como defecar três vezes ao dia com consistências variadas, sendo a segunda e a terceira mais líquidas.

➡️Defecar várias vezes ao dia, especialmente se não for o padrão normal do indivíduo.
➡️Uso de medicamentos específicos: alguns medicamentos como as canetas análogas de GLP-1 (canetas emagrecedoras) podem ocasionar fezes mais amolecidas e disbiose.
A doutora cita como exemplo uma paciente que observou uma sensibilidade extrema em que o abdômen inchava até com a ingestão de água ou estufava logo após comer. “Eu tenho uma paciente, por exemplo, que disse que o abdômen despende até com água. Tomou água, o abdômen já começou a estufar. " relata. De acordo com a especialista, isso é um sinal claro de disfunção.
Os efeitos dos ultraprocessados
A alimentação também pode interferir diretamente no ambiente intestinal. Segundo Lenice, os alimentos ultraprocessados podem provocar alterações na microbiota e modificar o funcionamento do intestino. “Na verdade, ultraprocessados em geral causam uma alteração no ambiente intestinal como um todo.”
Entre os produtos, estão alimentos ricos em açúcar, sódio, gorduras trans, aditivos químicos e adoçantes, como a sucralose. Para a nutricionista, o problema não está necessariamente em um consumo esporádico, mas no padrão alimentar baseado nesses produtos. “Esses aditivos, já prejudicam. Mas não vai ser um consumo esporádico que vai causar mal. Mas, quem consome, normalmente, já tem aquele padrão alimentar baseado nesses alimentos", explicou.
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Esse padrão também pode diminuir o consumo de alimentos importantes para a saúde intestinal, como fibras, leguminosas e sementes. Esses nutrientes são importantes para alimentar as bactérias benéficas presentes no intestino. Na prática, alimentos como castanhas podem acabar sendo substituídos por produtos processados como biscoitos, que possuem maior quantidade de açúcar e aditivos e menor oferta de nutrientes importantes para a microbiota.
Os "superalimentos"
A expressão “superalimento” aparece cada vez mais associada a produtos considerados especialmente benéficos para a saúde. Mas, segundo a nutricionista, a ciência não trabalha com a ideia de um alimento isolado capaz de concentrar todos os benefícios necessários. O foco está nas propriedades das classes de alimentos: “Trabalhamos com a classe completa de alimentos", destacou.
Alimentos como stão chia, psyllium e aveia, linhaça e gergelim, estão na classe dos ricos em fibras, que podem ser fermentadas pelas bactérias intestinais e contribuir para a produção de ácidos graxos de cadeia curta, importantes para a saúde intestinal.
Ai você tem uma alimentação toda desequilibrada, não faz um café da manhã, e quer achar que é o açaí e a maçã que vai salvar o seu intestino. Não vai né?
Doutora Lenice Góes
Já açaí, chás, frutas vermelhas, uvas e cacau estão entre os alimentos ricos em polifenóis e antioxidantes. Segundo a entrevistada, esses compostos contribuem para a saúde intestinal, estimulando o crescimento de bactérias benéficas e apresentando efeito anti-inflamatório.

Para identificar se um alimento realmente possui propriedades que podem beneficiar a saúde, a orientação é observar sua composição, principalmente a presença de fibras e antioxidantes naturais. “Se eles realmente têm qualidades, se eles têm fibras, têm antioxidantes, que são naturais realmente”, disse Lenice,
Um exemplo citado pela nutricionista é o iogurte natural. O alimento pode contribuir para a saúde intestinal, mas a adição de açúcar ou aditivos muda suas características. “E o iogurte natural, por exemplo, ele é um superalimento porque ele ajuda na saúde intestinal, mas no momento que a gente coloca um açúcar, a gente coloca um aditivo, o iogurte já perde essa capacidade de ser um superalimento.”
E os suplementos?
A suplementação também entra na discussão sobre alimentação e saúde intestinal, principalmente quando o assunto é creatina e Whey Protein. Segundo a nutricionista, a creatina não está relacionada apenas ao ganho de massa muscular. O suplemento também pode contribuir para a saúde cerebral e a memória, além de ajudar na densidade mineral óssea. “A creatina, ela ajuda na saúde cerebral. Não é só questão de massa muscular”, afirmou.
Entre as situações citadas pela profissional estão o uso por mulheres e idosos com sarcopenia, adultos que praticam atividade física com objetivo de ganhar massa muscular e pessoas com osteopenia. Já o Whey Protein exige atenção quando existem alterações gastrointestinais. Algumas pessoas podem apresentar dificuldade para digerir as proteínas do soro do leite. “O Whey Protein, em relação à questão intestinal, eu faço até contraindicações, porque algumas pessoas não têm uma boa digestibilidade [...] das proteínas no soro do leite.”

Para pessoas com alterações gastrointestinais, a profissional cita proteínas vegetais como as de ervilha e levedura, como alternativas. Depois da estabilização do sistema gastrointestinal, o whey protein isolado pode ser utilizado, enquanto o concentrado é considerado mais pesado para a digestão.
No fim, a orientação da nutricionista volta para a ideia que atravessa toda a relação entre intestino, cérebro e alimentação: não existe um alimento único capaz de compensar uma rotina alimentar desequilibrada. O cuidado está na combinação dos diferentes nutrientes e na atenção aos sinais que o próprio corpo apresenta.

