
Na terra do “lá ele”, falar sobre a saúde masculina, em especial a saúde dos órgãos reprodutivos, é um grande desafio. Entre piadas, vergonha e descuido, a resistência à consulta com o urologista pode esconder um problema maior: o diagnóstico tardio de doenças que poderiam ser identificadas antes.
Diferente das mulheres, que são incentivadas desde cedo a procurar ginecologistas para acompanhamento de rotina, os homens, por outro lado, não têm essa mesma cultura, muitas vezes não recebendo orientação dos pais sobre saúde sexual ou a necessidade de consultas preventivas.
“Temos a cultura do homem não procurar o médico. Isso tem se perdido com o tempo, nós temos percebido que os homens procuram cada vez mais os médicos, mas ainda assim é muito pouco”, afirma o Dr. Filipe Prado, médico urologista com 11 anos de formação em medicina, que atua no Sistema Único de Saúde (SUS), em entrevista ao MASSA!

Dados do Sistema de Informação Ambulatorial (SIA), do Sistema Único de Saúde (SUS), reforçam o avanço percebido no consultório do doutor, onde mais homens estão procurando médicos. Segundo o SIA, entre 2016 e 2020, o número passou de 425 milhões para 637 milhões de atendimentos.
Agindo sob urgência, muitos homens só procuram o médico quando sentem algum sintoma, mas porque os homens fogem do urologista? Qual o custo dessa fuga para a saúde?

A iniciativa de ir ao médico
Quando o assunto é urologista, o medo de alguns homens começa com um simples exame: o toque retal. O procedimento que é utilizado para avaliar características como tamanho, consistência e possíveis alterações da próstata, o reto e o ânus. O exame é cercado por preconceitos e brincadeiras, que ajudam a alimentar o constrangimento.
“Ainda que a gente explique que o exame do toque é realizado na minoria dos pacientes, há essa vergonha.”, conta o Dr. Filip.
O médico esclarece que o procedimento é indicado apenas para uma minoria de pacientes, homens acima de 50 anos com Antígeno Prostático Específico (PSA) indicativo, e a maioria não precisa fazê-lo.
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De acordo com o doutor, metade das buscas pelo especialista ocorre por iniciativa própria, demonstrando uma certa cultura de autocuidado.
Assim como em outros âmbitos da saúde, as mulheres atuam como incentivo para os homens irem a consulta. A insistência da esposa, parceira, filha ou mãe costuma fazer a diferença. “A esposa é uma grande parceira nesse sentido.", contou.
Qual a idade ideal para procurar?
Entre as doenças que exigem atenção na saúde masculina, o câncer de próstata ocupa lugar de destaque. Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), a Bahia deve registrar 6.540 novos casos da doença em 2026. Em Salvador, a estimativa é de 1.070 diagnósticos no mesmo período.
Embora seja mais frequente em homens mais velhos, a doença também pode atingir pessoas mais jovens. Historicamente, o INCA e Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) divergem na idade recomendada para realizar o rastreamento do câncer de próstata. Mas quando os homens devem começar a fazer os exames?

O Dr. Filip afirma que a diferença ocorre devido ao conflito entre a saúde pública e o balanço populacional de riscos e benefícios. “A SBU adota uma postura focada em detectar tumores em fases curáveis, recomendando exames de rotina (PSA e toque) a partir dos 50 anos ou 45 para homens com histórico familiar. Já o INCA segue as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), e desaconselha o rastreamento em massa de homens assintomáticos.", afirmou urulogista.
Filip explica que o INCA defende que as evidências científicas não comprovam redução significativa na mortalidade geral, e expõem a população ao sobrediagnóstico. “É um embate clássico: de um lado, as sociedades médicas recomendam por entenderem que quanto mais diagnóstico precoce, maior a taxa de cura. Já as entidades governamentais visam não gastar dinheiro, não julgam que vale a pena o investimento.”, disse o especialista.
Para além do cancêr
Apesar de ser frequentemente associado à prevenção do câncer de próstata, o urologista é responsável por acompanhar diferentes aspectos da saúde masculina. Entre os problemas mais comuns encontrados nos consultórios estão infecções urinárias e genitais, prostatites, fimose e hiperplasia prostática benigna (HPB), condição caracterizada pelo aumento da próstata e que não é câncer.
A especialidade também acompanha questões relacionadas à saúde sexual e reprodutiva, incluindo a realização de vasectomias. Segundo Filip Prado, a procura pelo procedimento tem aumentado, acompanhando mudanças no planejamento familiar e na decisão de muitos casais de ter menos filhos. “A gente sabe que antigamente os casais tinham muitos mais filhos. Hoje em dia a pessoa tem um, dois e já pensa em encerrar mesmo. Então criar mais de dois filhos às vezes tem sido mais difícil hoje em dia", explica.
Como conseguir atendimento pelo SUS?
Para os homens que precisam de acompanhamento urológico, mas não têm condições de pagar por uma consulta particular, o acesso pelo SUS começa na Atenção Primária à Saúde. O primeiro passo é procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou uma Unidade de Saúde da Família (USF).

No local, o paciente passa por uma avaliação com o médico da unidade, que pode solicitar exames iniciais, como glicemia, colesterol e PSA, quando houver indicação clínica. Caso seja identificada a necessidade de acompanhamento especializado, o profissional realiza o encaminhamento para uma consulta com urologista por meio da regulação municipal.
O tempo de espera varia conforme a disponibilidade de vagas, a unidade de referência e a demanda de cada município. Por isso, é importante manter o acompanhamento na unidade de saúde enquanto aguarda o atendimento especializado.

