
Mais que embelezar nossos sorrisos e ser uma ferramenta para a mastigação, os dentes e a saúde bucal nos mantêm vivos e protegidos. As dores ou os incômodos nessa área sinalizam como está a saúde de outras partes do corpo, podendo alertar sobre inflamações, como a sinusite, doenças como a enxaqueca e até sobre nossa saúde mental.
Algumas pessoas, quando estressadas, cansadas ou até desacordadas, costumam apertar ou ranger os dentes involuntariamente. Esse hábito involuntário chama-se bruxismo, um transtorno que, segundo pesquisa realizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), acomete 40% da população do Brasil.
“O bruxismo, também chamado de apertamento dentário, nada mais é do que sobrecarga dentária e muscular”, explicou Rafael Drummond, cirurgião-dentista especializado em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial.

Rafael explica que essa sobrecarga age na nossa mandíbula, o único osso móvel da face. “A mandíbula é o que faz a gente abrir e fechar a boca. Logo, se ela se mexer, significa que tem ação muscular”, explica. O bruxismo é justamente o "exercício" desnecessário desses músculos, levando à sobrecarga e à inflamação.
“Imagine que você está ali dormindo ou em um momento de estresse, apertando ou rangendo aquele dente de forma desnecessária e involuntária, muitas vezes. A partir do momento que você está fazendo isso, você está colocando esses músculos em sobrecarga. Você está malhando sem necessidade".
O que é bruxismo?
O psicólogo clínico Glaucon Melo (CRP 03/18968) é especialista em Saúde Mental e Atenção Psicossocial, e explicou que o estresse e a ansiedade atuam por três caminhos principais:
- Fisiológico: aumentam o cortisol salivar, prejudicam a imunidade local, reduzem o fluxo salivar, deixando a boca seca, e aceleram processos inflamatórios, como gengivite e periodontite.
- Comportamental: levam ao bruxismo (apertar ou ranger os dentes) e ao hábito de morder a bochecha ou o lábio, além de prejudicarem a rotina de escovação e os cuidados bucais.
- Sintomático: podem desencadear úlceras aftosas recorrentes e a síndrome da boca ardente, condições que têm forte componente psicossomático.
“O estresse crônico acelera a destruição dos tecidos que sustentam os dentes, mesmo com boa higiene”, afirma Glaucon.

O bruxismo se manifesta principalmente durante o sono, mas também pode ocorrer enquanto a pessoa está acordada. Ele é dividido em:
- Involuntário (noturno): apertamento ou ranger dos dentes durante o sono, muitas vezes de forma inconsciente.
- Voluntário (diurno): apertamento consciente dos dentes ao longo do dia.
O dentista Rafael explica que um dos principais sinais percebidos durante o diagnóstico está relacionado ao desgaste dentário. “O paciente geralmente entra no consultório falando que não suporta mais a dor sentida. Ou então, se o paciente não sabe, a gente geralmente pergunta ao esposo ou à esposa: ‘Você sabe dizer se seu esposo ou sua esposa fica rangendo os dentes?’. Geralmente, alguns falam: ‘Ah, é, ele dorme e fica rangendo’.”, contou.

Quais são os sintomas do bruxismo?
Os principais sintomas do bruxismo são:
- Dores musculares: cansaço muscular, dor de cabeça, torcicolo e dor ao mastigar.
- Dores articulares: dor na região da ATM (próxima ao ouvido), podendo ser confundida com dor de ouvido.
O bruxismo pode ocorrer em todas as fases da vida: na infância, na adolescência, na idade adulta e na velhice. No entanto, entre os adultos, é mais comum em mulheres, especialmente durante a menopausa ou por volta dos 40 anos, devido a fatores hormonais e ao estresse.
Ele trouxe como exemplo o caso de uma paciente que estava sentindo uma dor muito forte nos dentes, algo que nunca havia sentido antes. Ao ser encaminhada para os exames que auxiliam no diagnóstico, algo estranho ocorreu: “A tomografia e a ressonância das articulações dela deram 100%, tudo ótimo. Isso significa o quê? Que, se a articulação dela está boa, significa que o problema dela é muscular”, afirmou.
Após conversar com a paciente, descobriu que ela havia passado por um momento recente de tensão devido à rotina de estudos para um vestibular que iria fazer. “E aí, no meio da consulta, ela disse: ‘Parando para pensar, eu fiz a prova domingo. De domingo para cá, não tenho sentido mais essas dores’”, contou o dentista.

Devido às conexões entre os dentes e as outras partes do corpo, o diagnóstico e o tratamento do bruxismo requer uma abordagem multidisciplinar, frequentemente exigindo encaminhamento para otorrinolaringologistas, neurologistas e fisioterapeutas.
Há problemas em uma área que podem apresentar sintomas semelhantes aos de outra. Um exemplo é a dor de dente causada pela sinusite, decorrente da congestão dos seios maxilares, que abrigam as raízes dentárias.
Saúde bucal e mental andam lado a lado
A precariedade da saúde bucal e o bruxismo podem ser causados por fatores como estresse, ansiedade, deformidades dentofaciais e períodos emocionalmente difíceis, como o luto, o desemprego e os estudos intensos, além do uso recorrente de alguns medicamentos, como ansiolíticos e antidepressivos.
“Quando vivenciamos estresse, ansiedade ou emoções intensas, o corpo libera hormônios como o cortisol, que, em excesso crônico, prejudica a resposta imunológica e altera a microbiota da boca, favorecendo inflamações e infecções”, explicou o psicólogo Glaucon Melo.

Segundo o psicólogo, alguns estados emocionais podem influenciar os cuidados bucais diários e fazer com que determinados hábitos sejam gerados e reproduzidos automaticamente. “Quando a pessoa está emocionalmente abalada, é comum negligenciar a higiene bucal, criando um ciclo que afeta tanto a boca quanto a autoestima e a confiança pessoal”, contou o psicólogo.
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O dentista Rafael confirma essa informação ao dizer que pacientes com quadros depressivos ou ansiosos frequentemente perdem o autocuidado, o que afeta diretamente a higiene bucal, causando:
- Cáries;
- Tártaro;
- Gengivite (inflamação da gengiva);
- Periodontite (evolução da gengivite, levando à perda óssea e dentária);
- Bruxismo.
No consultório do dentista, houve um aumento significativo de pacientes com bruxismo após a pandemia. “Depois da pandemia, o número de pacientes com bruxismo no meu consultório alavancou muito. Eu não fiz nenhum estudo sobre isso, mas existem estudos na literatura com os quais eu concordo, indicando que, após a pandemia, houve uma desorganização psicológica no mundo”, contou.
As emoções e a saúde bucal estão conectadas de forma bidirecional, e não apenas "na cabeça". “Elas se manifestam no corpo, e a boca é um dos caminhos mais visíveis dessa conexão”, conclui Glaucon.
* Glaucon Melo é psicólogo, atuante sob a abordagem de Gestalt-Teapia. Ele atua como Redutor de Danos, sendo especialista em Especialista em Saúde Mental e Atenção Psicossocial, em Comportamento Suicida: identificação, Manejo Clínico e Posvenção.
* Rafael Drummond é Cirurgião Bucomaxilofacial e Mestre em Odontologia e Saúde pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Sócio-fundador da clínica DUOS. Além da Região Metropolitana, o Dr. atende em diversos municípios do estado, como São Sebastião do Passé Candeias, São Francisco do Conde, Jiquiriçá, Euclides da Cunha e Tucano .

