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Dia do Idoso -

Trabalhar após a aposentadoria: benefícios e desafios

O MASSA! mostra quais as razões para baianos que já se aposentaram continuarem trabalhando

Delma trabalha com faturamento notas fiscais dentre outras atividades
Delma trabalha com faturamento notas fiscais dentre outras atividades |  Foto: Ana Albuquerque / Ag. A TARDE

Para muitos idosos, o verbo descansar não faz parte do vocabulário após conquistarem a aposentadoria. Encerrar a atividade profissional para pessoas acima de 60 anos não quer dizer que o tempo de plantar já foi e agora chegou o da colheita. No segundo trimestre de 2026, cerca de 567 mil baianos e baianas dessa faixa etária estavam aposentados e, ainda assim, trabalhando, segundo dados, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Estes números ajudam a tratarmos de um assunto amplo: o idoso nesta sociedade. O Brasil está envelhecendo de forma rápida, e segundo o IBGE, com o ritmo de crescimento anual do número de idosos, que é de 4,8%, em 2030, estaremos no quinto lugar entre os países com maior contingente de idosos. Mas então, qual o lugar do trabalho para esse público?

Neste Dia Internacional da Pessoa Idosa, o MASSA! mostra quais as razões para baianos que já se aposentaram continuarem trabalhando e mantendo uma rotina profissional.

O tão aguardado momento da aposentadoria

A aposentadoria é aguardada, desejada e, às vezes, temida. Quando chega o momento de deixar o trabalho, uma pergunta pode permanecer: "E agora, o que fazer?" Com a liberdade de não ter mais a obrigação de trabalhar, mas com uma renda assegurada mensalmente, o aposentado também pode se deparar com uma mudança na própria rotina e na forma como se reconhece.

Segundo o psicólogo Glaucon Melo, CRP 03/18968, a aposentadoria pode provocar uma crise de identidade ocupacional, marcada por questionamentos como: “O que eu sou agora?” e “para que sirvo?”. A interrupção da atividade profissional pode gerar um vazio existencial e uma perda de propósito, especialmente quando a identidade da pessoa esteve muito ligada ao trabalho.

Na foto, o psicólogo Glaucon Melo
Na foto, o psicólogo Glaucon Melo | Foto: Acervo Pessoal

O envelhecimento, em si, é apontado socialmente como esse momento da vida onde a utilidade do ser não é a mesma, sendo, de forma preconceituosa, negligenciada sob a relevância de outras que estariam produzindo para a comunidade de forma mais latente. O profissional aponta, porém, que não deve ser associado automaticamente à perda de autonomia.

Para Glaucon, a perda de independência está geralmente relacionada a doenças não tratadas, falta de estímulo ou barreiras sociais, e não ao envelhecimento. O cérebro continua aprendendo em qualquer idade, por meio de um processo conhecido como neuroplasticidade.

A partir dos 60 anos, o envelhecimento pode ser compreendido mais como um processo de amadurecimento do que de perda, influenciado por fatores culturais e individuais. Entre as mudanças psicológicas positivas estão:

➡️Aumento da estabilidade emocional e reações menos intensas a contratempos.

➡️Maior clareza sobre o que é importante na vida, resultando em relações mais seletivas e significativas.

➡️Manutenção e aprofundamento de conhecimento acumulado, sabedoria e experiência, apesar de uma possível diminuição na velocidade de processamento cerebral e memória de trabalho.

Também permanecem e podem se aprofundar o conhecimento acumulado, a sabedoria e a experiência, ainda que possa haver uma diminuição na velocidade de processamento cerebral e na memória de trabalho. “É verdade que, por exemplo, a velocidade do processamento do cérebro diminui, a memória de trabalho pode diminuir".

Aspas

o conhecimento acumulado, a sabedoria, a experiência, elas se mantêm e até se aprofundam.

Glaucon Melo, psicólogo

O sentido da função

É nesse ponto que o trabalho pode assumir outro significado. A relação entre envelhecimento, trabalho e saúde mental não é a mesma para todos, mas, segundo Glaucon, continuar trabalhando depois dos 60 anos pode trazer ganhos psicológicos quando isso acontece em condições dignas.

O trabalho pode manter uma rotina, fortalecer vínculos sociais, oferecer senso de propósito e sensação de utilidade, além de funcionar como espaço de reconhecimento social. “Continuar trabalhando após os 60 anos traz, psicologicamente, uma série de ganhos quando acontece em condições dignas. Mantém a rotina de vínculos sociais, senso de propósito, sensação de utilidade. Elementos que nos protegem na saúde mental.”

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O aposentado Antônio Reis, especialista em automação e controle de processo na indústria de petróleo, concorda com o profissional. Segundo ele, a aposentadoria não é como o fim da atividade, mas como um novo capítulo de escolhas e liberdade.

Na foto, o aposentado Antônio Reis
Na foto, o aposentado Antônio Reis | Foto: Ag. A TARDE/ Uendel Galter

Ele conta que, ao se aposentar, disse para si que teria uma espécie de "ano sabático", apenas viajando, sem compromissos e responsabilidade. Ele se aposentou em dezembro de 2024 e naquele mesmo ano viajou. Seguiu a tour de viagens até fevereiro, quando começou a perceber que seu planejamento teria que parar: “Eu vi que isso tem um limite também”.

Aspas

Quando eu retornei para casa, eu descobri o seguinte, eu não aguento ficar em casa

Antônio Reis

Ele acredita que continuar ativo e produtivo é benéfico não só para a mente, mas também para a comunidade, através do ensino e compartilhamento de experiência. “Eu acho que trabalhar, principalmente com o que você gosta, e produzir não é só bom para a cabeça e para a comunidade em si. Serve também para você transferir o conhecimento que você adquiriu para os mais jovens”, comenta.

Trabalhar durante a aposentadoria

Seja para complementar a renda, ou por se sentir bem, realizando alguma atividade e até por medo da solidão, o trabalho após a aposentadoria é um dado comum. No segundo trimestre deste ano, 23,4% das pessoas idosas estavam trabalhando, sendo 70% delas atuando em trabalhos informais, com a renda média mensal de R$ 2.726, valor 7,1% superior à média dos trabalhadores em geral do estado da Bahia, de R$ 2.563.

Em 2022, a maioria deles era responsável pelos domicílios onde viviam, o que equivale a 1,392 milhão de pessoas, representado por 64,5% da população total.

Os dados mostram diferenças entre os homens e as mulheres. Em 2024, o índice de homens chegava a 34,2%, enquanto entre as mulheres era de 16,7%. Na faixa entre 60 e 69 a diferença era ainda maior: 48% dos homens possuíam ocupação, contra 26,2% das mulheres.

Na foto, Delma Sant'ana
Na foto, Delma Sant'ana | Foto: Ana Albuquerque / Ag. A TARDE

Moradora de São Caetano, em Salvador, Delma Márcia Sant’anna, de 62 anos, viu a aposentadoria chegar em um período marcado pela insegurança. Durante a pandemia da Covid-19, depois de 32 anos de contribuição, ela deu entrada no pedido do benefício e precisou esperar mais dois anos até a formalização. “Eu fiquei com muita expectativa, porque eu tinha muito medo de acabar desempregada, sem renda nenhuma e ficar pior.”

A preocupação aumentava diante da possibilidade de enfrentar a velhice com menos segurança financeira. Por isso, quando a aposentadoria finalmente foi concedida, o sentimento foi de alívio. “Quando a aposentadoria saiu, eu dei graças a Deus.”

O benefício, porém, não significou o fim da vida profissional. Com o salário mínimo da aposentadoria, Delma decidiu continuar trabalhando para complementar a renda e ajudar nas despesas de casa.

Aspas

Quando eu me aposentei, eu fiquei recebendo um salário mínimo e, para completar a renda continuei trabalhando.

Delma Sant'anna

Há 25 anos, ela atua como auxiliar de escritório na mesma empresa. Depois de se aposentar, continuou no trabalho, mas passou a realizar as atividades de forma online, em casa. A mudança alterou a rotina e trouxe mais liberdade para organizar o próprio tempo. “Eu trabalho com o celular, de forma online, e quando tem demanda eu realizo. Não toma meu tempo, eu não fico amarrada a um horário.”

Delma trabalha com faturamento notas fiscais dentre outras atividades
Delma trabalha com faturamento notas fiscais dentre outras atividades | Foto: Ana Albuquerque / Ag. A TARDE

A possibilidade de trabalhar à distância também permite que Delma esteja fora de casa sem deixar de atender às demandas profissionais. O celular virou seu principal instrumento de trabalho. “Se precisarem de mim, e eu estiver em qualquer lugar, eu estou com o meu instrumento de trabalho.”

Na foto, a cozinheira Telma Santos
Na foto, a cozinheira Telma Santos | Foto: José Simões / Ag A TARDE

Assim como Delma, Telma Santos, moradora de Pernambués, em Salvador, também se aposentou, mas continuou trabalhando. Aos 67 anos, ela segue no mesmo local onde atuava antes da aposentadoria. Cozinheira industrial, hoje trabalha com alimentos para pronta entrega e prepara tortas, doces e salgados.

Na rotina, ela também não tem problemas. Concilia o trabalho com academia, família e igreja. Levanta às 5h, vai para a academia, chega ao trabalho às 10h e sai às 14h. Depois, ainda encontra tempo para ficar com o neto e ir à igreja. “Eu acho que o trabalho, para mim, é tudo. É importante eu levantar de manhã e saber que eu vou fazer alguma coisa, que eu vou sair, que eu vou ver gente, que eu vou voltar para a minha casa.”

A renda também ajuda a manter a casa e a filha. Telma afirma que consegue guardar parte do que ganha para passear. “A renda que eu estou ganhando, eu mantenho a minha casa legal. E consigo guardar um pouquinho para passear.”

Telma utiliza o transporte público todos os dias para ir trabalhar
Telma utiliza o transporte público todos os dias para ir trabalhar | Foto: José Simões / Ag A TARDE

Os três personagens se encontram em um ponto: o dinheiro como renda complementar para o lazer.


Não é sobre o trabalho, é sobre poder

Para Delma, o benefício da aposentadoria representa uma renda fixa e segura, enquanto o trabalho funciona como um complemento que amplia sua possibilidade de escolha.

Aspas

Eu junto as duas rendas pra continuar vivendo com a minha liberdade.

Delma Sant'anna

Ainda segundo ela, se não trabalhasse, precisaria adaptar os gastos ao valor da aposentadoria. O dinheiro do trabalho, portanto, ocupa um lugar diferente do benefício que recebe mensalmente. “E o extra é pras coisas extras mesmo.”

A rotina profissional, para Telma, está longe de ser apenas uma obrigação. A cozinheira conta que sempre teve o desejo de continuar trabalhando e que não se imagina parada em casa. Aos poucos, a atividade também passou a ocupar um lugar importante na forma como ela aproveita a própria vida. “Como a aposentadoria não é um dinheiro tão alto, e eu sou uma pessoa muito vaidosa, gosto de passear, isso tudo me ajuda.”

A cozinheira afirma ser inquieta, e que ideia de ficar em casa a deixa "louca."
A cozinheira afirma ser inquieta, e que ideia de ficar em casa a deixa "louca." | Foto: José Simões / Ag A TARDE

O dinheiro que recebe pelo trabalho não é destinado apenas às despesas. Telma afirma que a renda permite fazer coisas que deseja, como viajar e presentear. Também consegue guardar uma parte para aproveitar o tempo livre.

Delma afirma que, se não trabalhasse, precisaria adaptar os gastos ao valor da aposentadoria. O dinheiro do trabalho, portanto, ocupa um lugar diferente do benefício que recebe mensalmente.

Antônio ama livros e vinho, comprando alguns em suas viagens
Antônio ama livros e vinho, comprando alguns em suas viagens | Foto: Ag. A TARDE/ Uendel Galter

Para as aposentadas desta matéria há uma denominador comum e, ao mesmo tempo, uma grande diferença. Para Delma, continuar trabalhando está diretamente relacionado à necessidade de complementar a renda, enquanto para Telma, a aposentadoria também não é suficiente para tudo o que deseja, mas o trabalho aparece associado à possibilidade de passear, viajar, presentear e ter uma vida que considera melhor.

Porém, em comum aos três entrevistados, está a ideia de que o dinheiro obtido depois da aposentadoria não serve apenas para manter a vida funcionando. Ele também abre espaço para aproveitar a vida.

A possibilidade de escolher trabalhar, para Antônio, está justamente em ter se preparado financeiramente para poder trabalhar sem depender daquele salário para sobreviver. “Hoje eu tenho aquela paz de aposentado que é o seguinte: se alguém me chatear, beijo, tchau, vou pra casa [...] me preparei psicologicamente e financeiramente pra não fazer o que eu não quero quando eu me aposentar.”

O técnico nasceu em Campinas de Pirajá, em Salvador
O técnico nasceu em Campinas de Pirajá, em Salvador | Foto: Ag. A TARDE/ Uendel Galter

Para Antônio, a aposentadoria exige planejamento e deve ser sustentada por três pilares: tempo, saúde e dinheiro. Sem um deles, a liberdade conquistada nessa fase da vida pode ficar limitada.

Aspas

Porque dinheiro é que compra os sonhos, dinheiro é que compra as viagens, dinheiro é que compra o lazer, a cultura.

Antônio Reis

Para ele, a aposentadoria trouxe a possibilidade de escolher quanto e quando trabalhar e também de dizer não. “Eu acho que o grande trunfo de quem se aposenta com saúde e bem é o seguinte, é saber dosar o trabalho, o lazer e fazer o que gosta.”

É necessário equilíbrio

As histórias de Delma, Telma e Antônio partem do ponto em comum que está no que acontece depois que a aposentadoria deixa de ser apenas uma renda mensal: o dinheiro conquistado com o trabalho passa a significar possibilidades. Seja para viajar, passear, presentear, consumir algo desejado ou simplesmente ter mais liberdade, o trabalho continua movimentando a vida dessas pessoas, mesmo depois da aposentadoria.

O psicólogo Glaucon aponta que, apesar dos benefícios, como reconhecimento, há alguns riscos, caso o trabalho seja ligado diretamente à identidade da pessoa. Em uma perspectiva capitalista, quando a identidade de uma pessoa se atrela exclusivamente ao trabalho, ela se torna mais frágil diante de mudanças como doenças, redução de jornada ou aposentadoria. “O ideal é que a pessoa tenha várias fontes de valorização pessoal, não apenas profissional.”

Aqueles que trabalham por "necessidade", associam a atividade a cansaço, sobrecarga, preocupação e falta de controle. O idoso não deve, apesar de ser muito comum, ser o alicerce financeiro da família. Isso gera um sentimento duplo: orgulho e senso de importância, mas também um peso de responsabilidade imenso, ansiedade e sobrecarga emocional.

Mulheres são a maioria na Previdência
Mulheres são a maioria na Previdência | Foto: Ana Albuquerque / Ag. A TARDE

É preciso encontrar um equilíbrio que traga a verdadeira autonomia ao idoso, que significa garantir a escolha do idoso de vivenciar o envelhecimento de forma mais saudável, realizando sonhos, buscando novos relacionamentos e atividades, sem o peso de ser apenas uma "renda extra" ou um "peso" para a família.

No fim, para quem continua na ativa, as duas coisas podem coexistir: trabalhar para complementar a renda, manter-se em movimento ou simplesmente continuar fazendo aquilo que gosta -e, com o dinheiro conquistado, também poder desfrutar do tempo que a aposentadoria proporciona.

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