26º Salvador, Bahia
previsao diaria
Facebook Instagram
WHATSAPP
Receba notícias no WhatsApp Entre no grupo do MASSA!
Home / Cidades

Negócio ancestral - 05/06/2026, 08:00 - Amanda Souza

Mãos que trançam: como um saber ancestral virou negócio e renda

Das barracas no Pelourinho às temporadas internacionais, trancistas provam que ancestralidade também é mercado

Erika Dandara criou uma carreira com o ofício de trancista e hoje faz temporadas internacionais
Erika Dandara criou uma carreira com o ofício de trancista e hoje faz temporadas internacionais |  Foto: Uendel Galter / Ag. A TARDE

Subindo a ladeira do Pelourinho, em Salvador, logo em frente à simbólica Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, é possível encontrar uma mulher que, há 25 anos, escolheu aquele lugar como o seu posto de trabalho. Suas ferramentas cabem nas próprias mãos, que é o também seu principal instrumento; e o que ela faz ali é antigo, tem raiz na ancestralidade do povo brasileiro: as tranças.

O ato de trançar têm origem no continente africano com registros de pelo menos 30 mil anos atrás. Mais que penteado ou estética, os padrões no cabelo comunicavam status social e etnia. As trancistas sempre existiram, nas senzalas, nas ruas, nas festas do candomblé... e, com o tempo, o que era apenas um traço identitário virou também uma importante via de negócio, emprego e geração de renda.

Ana Cristina, ou a Cristina Hair, como anuncia o banner da barraca no Pelourinho, é uma mulher que viu nas próprias raízes a oportunidade de empreender trançando cabelo. Trabalhando há 25 anos no Pelourinho, ela construiu uma clientela fiel, formada por turistas e também por soteropolitanos que fazem questão de ir até ela para trançar o cabelo.

"Duas amigas deram a ideia. 'Vamos botar uma banquinha no Pelourinho, lá a gente faz trança e dá para ganhar dinheiro'. Aí a gente veio", lembrou sobre o começo do seu pequeno negócio. Mas a sua história com a trança, como para boa parte das mulheres negras, começa ainda na infância, na relação com o próprio cabelo.

Aspas

Eu tinha mais ou menos 10 anos, e minha mãe não sabia cuidar do meu cabelo, então eu precisei aprender. Peguei uma boneca, fui tentando. Saiu uma trança. Comecei a trançar meu próprio cabelo e todo mundo perguntava quem tinha feito. Foi aí que eu pensei: já dá para ganhar um dinheiro

Ana Cristina, trancista
Ana Cristina, ou Cristina Hair, trabalha há 25 anos no Pelourinho
Ana Cristina, ou Cristina Hair, trabalha há 25 anos no Pelourinho | Foto: Uendel Galter / Ag. A TARDE

A trancista entende que o que leva o seu sustento para casa todos os dias é uma arte milenar, de forte relação com a cultura da cidade, e isso a fortalece no trabalho, como garante. "Eu acho maravilhoso fazer da minha própria arte, meu ganha-pão, meu sustento, né? A minha fortaleza, da minha família", disse.

Ana Cristina garante: dá pra fazer dinheiro, dá pra viver da trança. Os valores dos penteados vão variar pelo modelo e material usado, se o cliente leva o próprio ou se usa o dela. No fim das contas, é um negócio lucrativo, mas tem que saber "se administrar", ela diz.

Aspas

Se eu ganhar R$ 200 hoje, não vou gastar todo. A formiga trabalha no verão e no inverno se recolhe, né? Então tem que saber administrar

Ana Cristina, trancista
Ana Cristina mantém uma barraca modesta no Pelourinho, onde recebe turistas e também soteropolitanos fiéis
Ana Cristina mantém uma barraca modesta no Pelourinho, onde recebe turistas e também soteropolitanos fiéis | Foto: Uendel Galter / Ag. A TARDE

Como alguém com experiência, ela analisa bem os melhores cenários para trabalhar. Diferente do que muita gente pode pensar, não é o Carnaval de Salvador o melhor momento para fazer trança num ponto turístico. "O turista do Carnaval quer curtir, né... o melhor momento é em julho, período de férias no Sul e Sudeste do Brasil e na Europa. Aí enche de turista e eles sempre querem fazer", conta, mostrando que, mesmo sendo uma pequena empreendedora, há planejamento, adequações à sazonalidade e estudo do cenário de trabalho.

Apesar de todas essas preocupações, a formalização ainda não chegou para ela. Sem Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ), o que ajuda Ana Cristina a regularizar o seu trabalho de alguma maneira é um cadastro feito junto à Prefeitura Municipal de Salvador, via Secretaria de Ordem Pública (Semop).

Esse cadastro ajuda a fazer um ordenamento da quantidade dessas profissionais, e assim é possível "fazer capacitações, entrega de materiais como coletes e crachás de identificação, entre outros benefícios que a prefeitura promove para os trabalhadores ambulantes".

Preservação da identidade também é negócio (e rentável)

Ainda andando no Pelourinho, se você perguntar onde encontrar alguém que faça tranças por ali vai descobrir que há muita oferta na região; só entre as cadastradas pela Semop são 17. Apesar desse número, um nome se repete: Negra Jhô. Valdemira Telma de Jesus Sacramento no documento, Negra Jhô tem um trabalho internacionalmente conhecido com tranças e turbantes.

Aspas

Eu brinco com a estética porque eu sei o que eu estou fazendo

Negra Jhô, trancista
"O cabelo é poderoso, tem que saber usar", explica Negra Jhô
"O cabelo é poderoso, tem que saber usar", explica Negra Jhô | Foto: Uendel Galter / Ag. A TARDE

Negra Jhô conta que a primeira vez que fez tranças tinha sete anos de idade. "Eu peguei as minhas irmãs, as vizinhas, coloquei num tijolo e comecei a trançar", lembra, sobre o que para ela foi um processo muito natural. "A trança de três pernas a gente aprende na nossa religião para fazer a nossa proteção", comenta sobre o processo de aprendizagem do que hoje é seu sustento.

Ela conta que já sabia que aquilo seria o seu futuro. "E eu fazia as trancinhas na rua... fulano ia fazer aniversário e eu dizia 'deixa eu fazer', mas eu nunca tomei curso". E foi assim que ela começou a empreender, antes mesmo de saber o que era isso.

Aspas

Eu sou a pioneira a colocar um banco [no Pelourinho] e acreditar que a trança transforma, que é profissão

Negra Jhô, trancista

Hoje ela tem um estúdio no Pelourinho dedicado à estética afro, como foco em tranças e turbantes. Se define como trancista e, entre todas as outras funções que exerce dentro de universo negro, como o cargo de Mulher Olodum, esse é o seu grande trabalho da vida, diz, e o que lhe sustenta.

Aspas

É o meu negócio. Dá pra ganhar dinheiro. Tem que dar. Ninguém vai ficar rico, mas vai ter o que comer dentro de casa

Negra Jhô
Negra Jhô é um patrimônio soteropolitano e referência em estética negra na Bahia
Negra Jhô é um patrimônio soteropolitano e referência em estética negra na Bahia | Foto: Uendel Galter / Ag. A TARDE

O negócio de Negra Jhô tem uma marca muito clara: valorização da estética afro e o uso desta arte como ferramenta ativismo social e resistência negra. Como uma das mais importantes profissionais do ramo em Salvador, ela celebra a possibilidade de empreender nessa arte e conquistar a sua autonomia financeira, abrindo o caminho para tantas outras.

Trabalho para quem gosta de mexer na cabeça

"As tranças sempre foram meu porto seguro, nunca abri mão, desde a época da escola. Eu amo mexer na cabeça das pessoas, fazer penteado, trançar", é assim que a trancista Erika Dandara define o próprio trabalho. De Morro de São Paulo, na Costa do Dendê, na Bahia, ela já faz temporadas fora do país levando o que aprendeu a fazer com as mãos.

A trancista sabe bem o valor que o empreendedorismo tem na sua vida, especialmente considerando se tratar de um "negócio ancestral", já que ela conseguiu unir as próprias raízes com uma possibilidade de trabalho, e tudo isso com a liberdade de quem comanda o próprio negócio. Consolidada no mercado da estética afro, agora ela fala em crescer.

"Chegar nesse patamar de reconhecimento como a arte capilar é sobre expandir. [...] E se eu posso ter um recurso com isso também, é mais gratificante ainda", defende a Erika. "O que eu busco agora é viajar mais, conhecer outros profissionais da área e levar um projeto também da arte capilar para outros lugares", conclui.

O trabalho de Érika tem forte relação com moda e identidade. Na foto, à esquerda, está Erika; à direita, a modela Diana Pérola.
O trabalho de Érika tem forte relação com moda e identidade. Na foto, à esquerda, está Erika; à direita, a modela Diana Pérola. | Foto: Uendel Galter / Ag. A TARDE

Foi com o incentivo de amigos que ela começou a enxergar o ato de trançar, que ela chama de "minha arte", como uma possibilidade de negócio. Erika fala sobre as tranças com bastante memória afetiva, fala de estar na porta de casa trançando os cabelos com a sua avó, e isso reflete, ainda hoje, na maneira como ela conduz o próprio trabalho.

Aspas

Cada vez mais eu olho o resultado do trabalho e falo: "Nossa, que lindo! Eu que fiz"', e fico admirando a minha arte

Erika Dandara
Érica Dandara é de Morro de São Paulo, na Costa do Dendê, mas o trabalho como trancista já a levou para o mundo
Érica Dandara é de Morro de São Paulo, na Costa do Dendê, mas o trabalho como trancista já a levou para o mundo | Foto: Uendel Galter / Ag. A TARDE

O olhar de empreendedora permite que Erika pense além, em formar novas profissionais. "O que eu quero também é formar profissionais que no futuro possam dar empregos, trabalhar em equipe, sendo uma outra forma de ganhar uma grana com a trança", explica.

O mais bonito é ver uma profissional feliz e satisfeita com o caminho que está trilhando no negócio que montou sozinha. Erika garante que "várias coisas lindas já aconteceram, oportunidades", mas vê espaço para expandir, crescer ainda mais. "Eu vejo vários sinais de que estou no caminho certo, e eu não desisto nunca".

Um ofício que virou profissão

Por muito tempo exercido à margem de qualquer reconhecimento formal, o ofício de trancista ganhou um marco em 2025: passou a integrar a Classificação Brasileira de Ocupações, o CBO, sob o código 5161-65. A medida, publicada pelo Ministério do Trabalho e Emprego, garante às profissionais acesso a direitos trabalhistas e previdenciários e abre caminho para a formalização como Microempreendedora Individual, o MEI.

Com o tempo, adereços também foram incorporados aos penteados
Com o tempo, adereços também foram incorporados aos penteados | Foto: Uendel Galter / Ag. A TARDE

Na prática, porém, o impacto ainda é difícil de medir. Questionado pela reportagem, o Ministério do Trabalho e Emprego informou não dispor de dados sobre o número de trancistas que se formalizaram como MEI após o reconhecimento da CBO, nem de estimativa sobre quantas profissionais exerciam o ofício na informalidade antes da regulamentação.

Mas esse é um cenário muito favorável para que as pessoas invistam no sonho de empreender e abram os próprios negócios. Nos quatro primeiros meses de 2026, mais de 2 milhões de pessoas abriram o próprio negócio no Brasil por meio do MEI, segundo levantamento do Sebrae. Desse número, 97,6 mil são do segmento de cabeleireiros e outras atividades de beleza, do qual as trancistas fazem parte.

O caminho do MEI foi o escolhido por Erika para formalizar o seu status profissional de empreendedora. Para a trancista, foi uma maneira de demonstrar maior profissionalismo. "Como já foi reconhecida a profissão, eu fui buscar um meio de fazer o correto, [...] dar uma garantia pro futuro. O MEI é uma possibilidade de aprimorar mais a profissão e poder trabalhar de uma forma mais eficaz, com mais segurança", disse.

O que se sabe é que, para mulheres como Erika Dandara e Negra Jhô, o reconhecimento do ofício de trancista como profissão tem muito significado, elevando o potencial de seus negócios.

Aspas

Eu já tinha a minha arte como profissão a vida toda, porque é o que leva o alimento para a minha casa

Negra Jhô, trancista
"Nosso cabelo é étnico", garante Negra Jhô
"Nosso cabelo é étnico", garante Negra Jhô | Foto: Uendel Galter / Ag. A TARDE
Aspas

Para mim isso é gratificante. [...] O reconhecimento como profissão fez com que as pessoas tivessem um olhar diferente

Erika Dandara, trancista

Confira a galeria de imagens da reportagem:

Mãos que trançam: como um saber ancestral virou negócio e rendaMãos que trançam: como um saber ancestral virou negócio e rendaMãos que trançam: como um saber ancestral virou negócio e rendaMãos que trançam: como um saber ancestral virou negócio e rendaMãos que trançam: como um saber ancestral virou negócio e rendaMãos que trançam: como um saber ancestral virou negócio e rendaMãos que trançam: como um saber ancestral virou negócio e rendaMãos que trançam: como um saber ancestral virou negócio e rendaMãos que trançam: como um saber ancestral virou negócio e rendaMãos que trançam: como um saber ancestral virou negócio e rendaMãos que trançam: como um saber ancestral virou negócio e renda

No ano de 2023, o dia 6 de junho foi instituído como Dia da Pessoa Trancista em Salvador. A data não foi escolhida sem razão: é o aniversário de Idalice Moreira Bastos (1950 - 2012), mulher negra trancista considerada uma das maiores referências da estética afro-brasileira. "Dai", como era conhecida, foi uma baiana que viveu no Rio de Janeiro e trabalhou duro pela autoestima e valorização identitária de pessoas pretas.

Assim como Idalice, muitas outras mulheres foram responsáveis por construir esse cenário ao longo dos anos, pavimentando o caminho de uma profissão que é exercida majoritariamente por mulheres negras, que também atendem, em sua grande maioria, outras mulheres negras. Isso fortalece uma rede de negócios, dos pequenos aos grandes, que são parte importante de um movimento que luta pelo fim da desigualdade racial.

Falar de trança é falar de resistência cultural, do ganha-pão de muitas pessoas, mas é, sobretudo, falar sobre a autoestima da mulher negra. Essas três mulheres entendem o próprio ofício como uma missão de empoderar a si e às suas semelhantes, e também às não semelhantes. Assim, elas mantêm viva uma tradição que tem raiz no cabelo e na história de um povo.

exclamção leia também