Mulher broxa, e agora? Como lidar quando o sexo deixa de ser prazeroso

Do corpo à cabeça, médicos e terapeutas explicam ao MASSA! o que influencia a libido feminina

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Vontade zero - 04/04/2026, 08:00 - Jaísa de Almeida

“Mulher broxa?” A pergunta, dita muitas vezes em tom de piada, ainda circula por aí e levanta uma dúvida real. Se a disfunção erétil é um termo exclusivo para os homens, como chamar quando o problema envolve elas? No setor médico, o termo correto é disfunção sexual feminina, e, segundo especialistas, o buraco é mais embaixo do que muita gente imagina.

A ginecologista Ludmila Andrade (CRM 19674), especialista em sexologia clínica e saúde feminina, explica que o problema não aparece do nada. Na real, é comum que fatores físicos, emocionais, culturais e até questões do relacionamento se misturem, formando um quadro complexo que cada mulher vive de um jeito.

“As disfunções sexuais femininas raramente têm uma única causa, ela quase sempre é multifatorial. Geralmente, as questões sexuais envolvem fatores biopsicossociais. Então, na prática é uma combinação de fatores emocionais, hormonais, relacionados ao relacionamento daquele casal e até mesmo cultural”, conta ao MASSA!.

Ludmila Andrade é especialista em sexologia e saúde feminina
Ludmila Andrade é especialista em sexologia e saúde feminina | Foto: Arquivo pessoal

E quando o assunto são as causas, muita gente pensa logo em hormônio. E sim, alterações no período do pós-parto, uso de anticoncepcional ou menopausa influenciam, mas não explicam tudo. Segundo a médica e professora da Afya Salvador, reduzir tudo a isso é simplificar demais uma questão complexa:

“As alterações hormonais como pós-partos, de anticoncepcional, menopausa, podem impactar na libido e na lubrificação, mas isso é somente uma parte da história, porque ansiedade, estresse, sobrecarga mental, problemas no relacionamento, problemas socioeconômicos, educação sexual baseada na culpa e na repressão também têm um peso enorme, e muitas mulheres nunca foram ensinadas a conhecer o próprio corpo.”

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Foto: Ilustrativa/Reprodução/Freepik

No dia a dia, o senso comum costuma resumir o problema à “falta de vontade”. Só que, na prática, os sintomas podem aparecer de várias formas e nem sempre são identificados de imediato. Muitas mulheres, inclusive, passam a evitar a relação por associá-la a desconforto ou frustração.

“A maioria das pessoas pensa que é só falta de desejo, mas essas disfunções podem se manifestar como dificuldade de excitação, lubrificação, dor na relação sexual ou dificuldade de chegar ao orgasmo. Muitas mulheres acabam evitando o sexo, não por desinteresse, mas porque ele deixou de ser prazeroso”, detalha.

Ciclo de medo

Além da ginecologia, outras especialidades também entram nessa conversa. O urologista Adriano Caldeira (CRM 38952), também docente da Afya, alerta que problemas urinários recorrentes podem interferir diretamente na vida íntima, o que cria um ciclo de medo e evitação.

“Uma mulher que tem infecção urinária frequente passa a associar a relação sexual à dor e ao desconforto — e isso cria um ciclo de evitação que compromete a vida íntima. Além disso, em algumas delas o próprio ato sexual pode desencadear o episódio de infecção, deixando elas apreensivas”, conta à reportagem.

Adriano Caldeira é urologista
Adriano Caldeira é urologista | Foto: Arquivo pessoal

Ele também destaca que o tabu ainda pesa dentro dos consultórios. Muitas pacientes minimizam o sofrimento ou acreditam que dor e perda de prazer fazem parte da idade ou da maternidade, o que atrasa o diagnóstico:

“A mulher ainda chega ao consultório minimizando o próprio sofrimento. Ouço com frequência frases como “é normal, né, depois de ter filho?” ou “achei que fosse coisa da idade”. Não é normal conviver com dor, perda de urina ou ausência de prazer sexual. Esse tabu atrasa o diagnóstico em anos. E do lado dos profissionais também há falhas. Precisamos criar um ambiente onde a mulher se sinta à vontade para falar. Quando isso acontece, o tratamento é muito mais eficaz.”

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A mistura que complica o prazer

Para além do físico, a cabeça também conta muito! A psicóloga e sexóloga Flaviany Leonardo (CRP 03/21426) lembra que culpa, repressão e padrões sociais podem travar o desejo silenciosamente, mesmo quando a mulher quer se permitir.

“Interferem bastante, mesmo de forma silenciosa e profunda, já que o desejo envolve emoções, autoimagem e a história de vida. Não é só o que ela ouviu ao longo da vida, e sim pelo que ela acredita sobre si mesma e de como construiu sua auto imagem. Quando existe a sexualidade ligada à culpa, ao pecado, ou ‘menina não fala sobre isso’, 'mulher tem que se preservar', muitas acabam travando, se sentindo erradas ou com medo do julgamento”, justifica.

Psi Flaviany explica a condição do ponto de vista emocional
Psi Flaviany explica a condição do ponto de vista emocional | Foto: Arquivo pessoal

A especialista destaca que a forma como o casal lida com o assunto pode mudar completamente o rumo da situação. Para ela, não basta “conversar por conversar”. A abordagem, o tom e até o momento escolhido interferem diretamente na maneira como a mulher se sente dentro da relação:

“O diálogo influencia, mas nem toda conversa ajuda. Quando vem carregada de cobrança, frustração ou pressão, pode piorar o problema. O importante é sair do ‘tem algo errado com você’ e construir entendimento juntos, já que a sexualidade é relacional.”

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Foto: Ilustrativa/Reprodução/Freepik

Flaviany também chama atenção para o timing da conversa. Segundo ela, discutir o tema no calor do momento ou logo após a relação sexual pode gerar ainda mais tensão, já que existe uma carga emocional envolvida. A orientação é escolher um espaço neutro, com escuta e responsabilidade compartilhada.

“Uma boa forma de começar a conversa é falando sobre si, sem acusar o outro, e escolher um momento fora da relação sexual. O diálogo é um processo que exige tempo, mas, quando feito de forma assertiva, ajuda na melhora da disfunção e fortalece a intimidade do casal”, completa

No fim das contas, entender a disfunção sexual feminina é sobre respeitar a mulher e criar espaço para o prazer sem culpa. Escutar, buscar ajuda e conversar pode transformar a relação com o próprio corpo e com quem se escolhe compartilhar sua intimidade.

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