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poder feminino - 14/03/2026, 08:00 - Lais Machado

"Ser bancada não me faz menos mulher": os dilemas das Sugar Babies

Relações sugar dividem opiniões: luxo, autonomia e debates sobre autoestima, desejo e poder feminino

No Brasil, mais de 10 milhões de pessoas são Sugar Baby
No Brasil, mais de 10 milhões de pessoas são Sugar Baby |  Foto: Ilustrativa / Freepik

Marcas de luxo, pulseiras da Gucci e bolsas da Prada: esses são acessórios comuns no universo das chamadas Sugar Babies. O termo faz referência a uma pessoa, geralmente mais jovem, que recebe benefícios em troca de companhia.

Nesse modelo, o sugar baby costuma ganhar presentes, ajuda financeira, viagens ou vantagens diversas em troca de companhia, atenção, afeto e — dependendo do acordo — intimidade sexual.

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Segundo dados de 2024 da plataforma Meu Patrocínio, o Brasil já soma mais de 10 milhões de Sugar Babies cadastradas.

A busca por um estilo de vida luxuoso viralizou na internet, e uma das vozes mais conhecidas desse meio é Julia Dias, coach e influenciadora de Salvador. Em seus relatos, ela conta que nunca se identificou com a realidade simples em que vivia: bolsista em escola particular, moradora de bairro popular e usuária de ônibus.

“Tinha momentos felizes, mas não me sentia pertencente naquele meio. A maioria das roupas eram doadas por pessoas da minha família”, disse em vídeo no TikTok.

Julia é natural de Salvador
Julia é natural de Salvador | Foto: Reprodução/ Instagram (@juliadiasjuju)

Julia relata que, ainda adolescente, começou a estudar regras de etiqueta e tudo relacionado ao universo de pessoas com maior poder aquisitivo. Ela acreditava que aquele mundo um dia seria o seu. “Absorvia tudo, porque eu sentia em mim que logo eu estaria vivendo a minha vida dos sonhos”.

Segundo ela, só existiam quatro caminhos possíveis para mudar de vida: estudo, trabalho, casamento ou loteria.

Aspas

No dia que eu encontrar um boy, vai ser um que tenha grana, sucesso na vida. E que possa abrir uma porta que eu não posso sozinha

Coach e influenciadora Julia Dias

O primeiro relacionamento sugar veio aos 19 anos. Julia ainda morava com os pais quando, pela primeira vez, pôde entrar em uma loja e comprar algo sem olhar o preço. “Podia ir em restaurante sem me preocupar com a conta e não precisava mais de transporte público. Estava tendo acesso ao que acredito que todas as pessoas mereciam ter”.

@juliadiasju Um resumo da minha vida #fy #foryou #foryou #sugarbaby ♬ som original - juliadiasju

"Ser bancada não me faz menos mulher"

Julia não é exceção. Entre as milhões de sugar babies no país, muitas enxergam o dinheiro não como submissão, mas como ferramenta de autonomia.

É o caso de Izabel Fontana, 28 anos, esteticista e sugar baby há sete anos. Ela afirma que o dinheiro, para ela, representa reconhecimento, não dependência.

Segundo relato divulgado pela plataforma, a instabilidade financeira foi um dos motivos que a levou a buscar esse tipo de relação. “Já estive em relacionamentos em que minha maior preocupação era dinheiro. Eu não conseguia separar nada para mim porque precisava dividir contas com meu ex-namorado. Hoje isso não acontece mais”, conta.

Impactos na sexualidade: desejo x troca

Mas se há bônus, também existem pontos de atenção. A sexóloga Raquele Carvalho explica que relações sugar podem, sim, afetar a sexualidade feminina. Ela destaca que o sexo, quando entra em uma lógica de troca, pode deixar de ser vivido como expressão de desejo e prazer.

“A sexualidade da mulher é muito influenciada pelo tipo de relação que ela vive. Nas relações sugar, existe um acordo em que companhia, atenção e, em alguns casos, intimidade aparecem junto com benefícios materiais”, afirma.

Ela explica que, quando isso acontece, algumas mulheres podem acabar se envolvendo sexualmente mais para manter a dinâmica da relação do que por vontade espontânea. Segundo Raquele, isso não impede que exista prazer, mas pode deslocar o desejo do protagonismo.

Raquele Carvalho (@raquele.carvalho), Sexóloga
Raquele Carvalho (@raquele.carvalho), Sexóloga | Foto: Arquivo Pessoal

Por isso, ela reforça a importância de observar se a mulher está livre para desejar, escolher e colocar limites — ou se apenas corresponde à expectativa da outra parte.

Autoimagem e autoestima: validação ou pressão?

Outra questão delicada é como esse tipo de relação influencia a autoestima. Raquele explica que, quando presentes e dinheiro ganham peso na dinâmica afetiva, algumas mulheres podem passar a associar seu valor ao que recebem.

Isso pode gerar inseguranças, comparações com outras mulheres e a sensação de que precisam manter uma aparência ou comportamento específicos para continuar sendo desejadas.

Por outro lado, quando a autoestima é mais estruturada e a mulher não depende daquela relação para se sentir validada, o impacto tende a ser menor. O ponto central, segundo a sexóloga, é que o valor pessoal não fique condicionado à aprovação alheia.

Empoderamento: existe? Em quais situações?

Para algumas mulheres, ser sugar realmente pode trazer sensação de autonomia.

“Existem casos em que elas entram nesse tipo de relação de forma consciente, com acordos claros e limites bem definidos”, explica Raquele. Nesses cenários, algumas relatam sentir mais controle sobre suas escolhas, sobre seu tempo e até sobre como conduzem a vida sexual e afetiva.

Mas ela faz um alerta: empoderamento não está apenas em benefícios materiais. “O verdadeiro empoderamento está na liberdade de escolha. Está na capacidade de estabelecer limites, dizer não quando quiser e sair de uma relação quando ela deixa de fazer sentido.”

‘Empoderar também é escolher’

A sexóloga Sara Santon reforça o mesmo ponto: existem situações em que esse modelo pode, sim, gerar sensação de liberdade e autonomia — especialmente quando há escolha consciente, consensual e acompanhada de limites claros.

Segundo ela, o apoio financeiro pode ampliar oportunidades e contribuir para a independência. Ainda assim, isso só se traduz em empoderamento real quando há respeito, segurança emocional e decisões alinhadas aos valores da mulher.

Psicóloga e Sexóloga Sara Santon
Psicóloga e Sexóloga Sara Santon | Foto: Arquivo Pessoal

“No fim das contas, mais importante do que o formato da relação é a liberdade real que essa mulher tem para decidir sobre seu corpo, seus afetos e sua vida”, completa.

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