
Cigarro, álcool… esses elementos já são conhecidos como vilões quando o assunto é câncer de garganta, e de cabeça e pescoço. Mas o que pouca gente fala e sabe é que o sexo oral sem proteção também entra na lista de fatores de risco para este tipo de tumor.
Embora pouco comentado, o Ministério da Saúde alerta que este é o terceiro tipo de câncer mais incidente no Brasil e deve atingir mais de 61 mil brasileiros ainda este ano, segundo estimativas.
Leia Também:
E o cenário futuro não é animador: a previsão é de aumento de 86% nos óbitos, passando dos atuais 17 mil para 30 mil, em 2050, conforme levantamento do Grupo Brasileiro de Câncer de Cabeça e Pescoço (GBCP).
“Nos últimos anos, principalmente em países desenvolvidos, as políticas contra o tabagismo e o consumo excessivo de álcool reduziram bastante os casos ligados a esses hábitos. Com isso, cresceu a participação da infecção pelo HPV como causa da doença”, explica Leonardo Freitas, cirurgião de cabeça e pescoço pela USP.
Cuidado com o “bola gato”
O câncer de garganta tem aumentado entre jovens no Brasil, especialmente por causa do HPV. Para o especialista, isso tem relação direta com mudanças nos hábitos sexuais, aumento do número de parceiros e relações sem proteção.
“Um dos maiores desafios para combater essa prática é o tabu para falar sobre sexo, especialmente sobre sexo oral e prevenção. A dificuldade em orientar sobre práticas seguras contribuiu para a disseminação desse vírus”, destaca o Dr. Leonardo.

Segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), oito em cada dez pessoas diagnosticadas com câncer de cabeça e pescoço descobrem a doença já em estágio avançado.
Existem vários tipos de HPV
O HPV (Papilomavírus Humano) é um vírus muito comum entre pessoas sexualmente ativas. Alguns tipos causam verrugas, outros podem levar ao desenvolvimento de tumores.
“É importante destacar que nem todo tipo de HPV representa alto risco para o câncer de orofaringe. Os subtipos mais associados são o HPV16 e o HPV18”, afirma Leonardo.
Outro ponto essencial é que ter o vírus não significa, automaticamente, desenvolver câncer. Muitas pessoas carregam HPV na garganta e nunca terão a doença.
“Para que o câncer se forme, precisa existir uma combinação entre o vírus e a vulnerabilidade do organismo. Mesmo quem tem um HPV de alto risco pode nunca desenvolver o tumor”, destaca o cirurgião.
Sintomas do câncer
Feridas na boca que não cicatrizam, espinhas que não regridem, lesões esbranquiçadas em lábios ou mucosas orais, aftas persistentes e nódulos no pescoço que aumentam de tamanho são sinais de alerta.
“O câncer de orofaringe relacionado ao HPV aparece principalmente nas amígdalas, que são estruturas lá atrás da boca, onde, na infância, temos amigdalite com frequência. Essas áreas são as mais suscetíveis ao desenvolvimento do tumor”, explica o médico.

Outro sintoma importante é a dor ao engolir, que não melhora em duas ou três semanas. A presença de caroços no pescoço que persistem pelo mesmo período também precisa ser investigada.
“Alguns cânceres de garganta causados pelo HPV nem apresentam lesão visível. Às vezes, o único sinal é o caroço no pescoço. Lesões pequenas já podem se espalhar, e essa região costuma ser o primeiro local atingido”, alerta.
Meu parceiro apresentou a doença, e agora?
Para que o câncer se desenvolva, não basta ter o HPV: é preciso que haja uma interação específica entre o vírus e o organismo.
O vírus transfere parte de seu material genético para células da orofaringe, que passam a se multiplicar de forma descontrolada — mas isso só ocorre quando o sistema imunológico permite. Por isso, nem todo portador do vírus desenvolverá câncer.
Além disso, o HPV pode permanecer no corpo por anos, até décadas, sem causar nenhum sintoma. O tumor pode surgir muito tempo depois da infecção, sem relação com uma transmissão recente.
“Muitos pacientes ficam em dúvida, principalmente casais de longa data, que recebem o diagnóstico de repente. Para evitar conflitos, é fundamental explicar que o vírus pode estar adormecido há muitos anos e não tem relação direta com o parceiro atual”, conclui o especialista.
Prevenção
As principais formas de prevenir o câncer de garganta — e também outros tumores de cabeça e pescoço ligados ao HPV — são o uso de preservativos e a vacinação.
A cirurgiã de cabeça e pescoço Ana Gabriela Neis alerta que muitos jovens abandonaram o uso da camisinha.
“Mais da metade dos jovens já é contaminada pelo HPV. Isso ocorre pela alta taxa de transmissão, que acontece principalmente pelo contato entre mucosas, facilitado pelo sexo genital e oral”, explica.

Para ela, o relaxamento no uso do preservativo também tem relação com a mudança de percepção sobre o HIV:
“Quando o HIV passou a ser tratado como doença controlável, muita gente deixou de se preocupar com a camisinha. Mas outras infecções sexualmente transmissíveis continuam tendo desfechos graves, como o HPV”, afirma.
Além do preservativo, a vacinação é um dos pilares da prevenção. A vacina quadrivalente distribuída pelo SUS protege justamente contra os tipos mais ligados ao câncer: HPV16 e HPV18.
“A vacina impede a contaminação ao preparar o sistema imune, enquanto o preservativo evita a transmissão pelo contato entre mucosas. As duas estratégias são fundamentais para reduzir o avanço das doenças causadas pelo HPV”, reforça Ana Gabriela.
