O Dia Nacional do Livro é celebrado nesta quinta-feira (29), e um movimento que tem chamado a atenção é o crescimento da leitura entre os idosos. Nesse cenário, enquanto o índice de leitura cai entre crianças e jovens, o número de pessoas da terceira idade que estão retomando o hábito de ler cresce gradualmente.
De acordo com dados de uma pesquisa realizada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), o índice de brasileiros que compraram livros aumentou no país. Segundo os dados referentes a 2025, 18% dos brasileiros e brasileiras compraram ao menos um livro, impresso ou digital, no período. O resultado representa um aumento de dois pontos percentuais em relação a 2024.
Apesar do avanço, o baixo nível de proficiência em leitura entre os brasileiros ainda preocupa. Em dados divulgados pelo Senado Federal, a senadora Teresa Leitão (PT-PE), presidente da Comissão de Educação, ressaltou a importância de ampliar o acesso à leitura no país.
Em Salvador, a Biblioteca Comunitária Betty Coelho, localizada no bairro da Boca do Rio, percebeu mudanças no perfil do público que frequenta o espaço, com a presença de pessoas mais velhas, sobretudo mulheres idosas.

Douglas de Almeida, de 71 anos, um dos criadores da Biblioteca Comunitária Betty Coelho, explicou, em entrevista ao MASSA!, que o estímulo à leitura começa com livros de imagens, obras infantis e poemas. A estratégia considera que parte desse público não teve acesso à educação durante a infância e a adolescência e, na terceira idade, passa a explorar o universo da literatura.
“Porque, no primeiro momento, tem um estranhamento. Porque está numa biblioteca, um espaço que algumas delas, por exemplo, nunca foram. Mas a gente tem uma primeira leitura, recita poemas para elas. Fala da importância do livro de forma estratégica, que o livro também tem as imagens […] No início tem um estranhamento, depois esse estranhamento passa para uma admiração. Os olhos começam a brilhar”, afirma.
O poeta explicou que, após esse primeiro contato, as participantes costumam se sentir mais confortáveis no espaço. De acordo com Douglas, uma das estratégias utilizadas é reunir o grupo em rodas de conversa após a leitura, com o objetivo de estimular o compartilhamento de interpretações e a troca de experiências sobre as obras.
“A questão da leitura é a questão da possibilidade de ter acesso ao livro […] As idosas, grande parte das idosas de baixa renda, criaram as netas. Então, a gente valoriza a questão da autoestima, né? Está falando aí a importância que elas têm, aí pede para falar, como a gente faz com as crianças, para falar sobre o livro que foi lido. Então, elas, quando se pronunciam, elas trazem todo o repertório. Elas, simplesmente, não dominam a leitura escrita, mas elas dominam a leitura de mundo”, diz o responsável pelo espaço.
Com o aumento do público, o poeta pretende desenvolver atividades voltadas para os idosos dentro da biblioteca, como rodas de contação de histórias, recitação de poemas e oficinas direcionadas à terceira idade.
Douglas também contou que o espaço recebe visitas de estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA), da rede pública de ensino. Segundo ele, parte das pessoas que conhece a biblioteca durante essas visitas retorna posteriormente, demonstrando mais interesse pelos livros.
Uma dessas visitas foi realizada por estudantes do Instituto Municipal de Educação Professor José Arapiraca, que estiveram no local com cerca de 30 idosos. A biblioteca também recebeu uma turma ligada ao Centro de Referência de Assistência Social (CRAS). O mediador afirmou que percebeu dificuldades de acesso à leitura e a necessidade de desenvolver estratégias para aproximar esse público dos livros.
“Grande parte das idosas que estudam à noite são semianalfabetas. Então, algumas têm até dificuldade de ler. Nós fizemos livros infantis, fizemos uma exposição de livros infantis. E o livro infantil, na verdade, atinge todo o público, porque é literatura. Feita por escritores e escritoras. Então, são livros cada um abordando determinada temática. O texto é curto, de fácil assimilação”, pontua Douglas.
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Leitura entre pessoas com mais de 60 anos
A 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada em 2024 pelo Instituto Pró-Livro, em parceria com o Itaú Cultural e o Ipec, buscou compreender os hábitos de leitura da população brasileira.

De acordo com os dados da pesquisa, que ouviu a população em 208 municípios do país, o percentual de leitores com mais de 60 anos chegou a 29%.
Benefícios da leitura para os idosos
Além de ampliar o acesso à cultura e ao conhecimento, o hábito da leitura pode contribuir para o bem-estar e a qualidade de vida na terceira idade.
- Estímulo cognitivo: a leitura exercita funções cognitivas e ajuda a manter o cérebro ativo, contribuindo para a saúde mental ao longo do envelhecimento.
- Fortalecimento da memória: acompanhar histórias, lembrar nomes de personagens e compreender acontecimentos são atividades que estimulam a memória.
- Redução do estresse e da ansiedade: reservar um momento para a leitura pode favorecer o relaxamento e ajudar a aliviar as preocupações do cotidiano.
- Melhora do sono e do bem-estar: incluir a leitura na rotina, especialmente antes de dormir, pode ajudar a desacelerar a mente e favorecer o descanso.
- Estímulo à criatividade e ao vocabulário: o contato com diferentes histórias e narrativas amplia o repertório, estimula a imaginação e contribui para o desenvolvimento da linguagem.
- Combate à solidão: a participação em clubes de leitura e rodas de conversa favorece a interação social, a troca de experiências e a criação de vínculos.
