
“Quê? Como é? Não entendi direito.” Quando pedir para repetir o que alguém disse vira algo frequente ou até perceber alguém chamando já exige esforço, pode ser um sinal de alerta para a saúde dos ouvidos. Esse tipo de situação aparece com mais frequência do que muita gente pensa — e ignorar esses recados do corpo pode trazer consequências mais sérias com o passar do tempo.
Dificuldade para compreender conversas, mesmo em locais mais silenciosos, ou a sensação de que o volume do celular e da TV nunca parece suficiente, são indícios de que a audição pode estar sofrendo algum impacto. Mesmo diante desses sinais, muitas pessoas acabam adiando a procura por atendimento médico.
A falta de informação e o preconceito em torno de problemas de audição fazem com que muitos baianos sigam a rotina sem investigar sintomas que poderiam ser avaliados mais cedo. Em entrevista ao MASSA!, o médico otorrinolaringologista Felipe Carvalho Leão (CRM 30874) explica que os primeiros sinais de sobrecarga no ouvido costumam surgir de forma discreta. Em muitos casos, a pessoa ainda escuta os sons ao redor, mas passa a perceber que compreender o que está sendo dito em ambientes barulhentos já não é tão simples quanto antes.
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De acordo com o especialista, alguns sintomas iniciais acabam sendo tratados como algo passageiro, quando, na verdade, podem indicar que o ouvido já está sendo exigido além do limite. Para ele, esses alertas costumam surgir antes de um quadro mais grave, mas acabam passando batido por muita gente.
“Zumbido (como um chiado no ouvido), sensação de ouvido tampado/abafado, e aquela necessidade de aumentar a TV ou o volume do celular porque “'arece baixo'. Um sinal comum muitas vezes não é o 'ouvir menos', mas sim o: 'ouço, mas não entendo'. O ponto é que esses sintomas podem parecer fugazes, mas são avisos de que o ouvido já está sendo sobrecarregado”, relata.
Quanto mais isso se repete, maior a chance de virar um quadro de perda auditiva mais importante no futuro.
Felipe Leão

Fone no talo e paredão: risco real
Entre os baianos, a relação com a música costuma ser intensa. É comum ver gente caminhando com fones no volume máximo ou curtindo resenhas em que caixas de som potentes dominam o ambiente. O problema é que essa exposição frequente pode provocar alterações na audição — em alguns casos, de forma definitiva.
“Nem sempre é permanente, mas não dá para contar com isso: som muito alto em fones ou em paredões pode causar tanto uma perda auditiva temporária quanto uma definitiva. Às vezes a pessoa sai do ambiente com a audição “abafada”, com sensação de ouvido tampado ou com zumbido, e melhora em algumas horas ou até no dia seguinte”, afirma.

Outro ponto que preocupa o otorrinolaringologista é que o dano auditivo pode acontecer de forma silenciosa e cumulativa. Ou seja, a repetição desse tipo de exposição ao longo dos anos pode desgastar gradualmente a capacidade de escutar, mesmo que a pessoa não perceba imediatamente.
“O mais perigoso é que o dano pode ser cumulativo e silencioso: mesmo que o incômodo passe, isso não garante que não houve prejuízo, e repetidas exposições ao longo dos anos podem “gastar” a reserva auditiva e levar a dificuldade para entender fala, principalmente em ambientes barulhentos, e até a uma perda mais precoce; por isso, zumbido ou ouvido tampado depois de som alto deve ser encarado como um alerta claro para reduzir volume e tempo de exposição”, pontua.
Existe limite seguro?
Para quem não abre mão de curtir música no fone — seja no ônibus, na academia ou no dia a dia — o otorrinolaringologista afirma que dá para reduzir riscos ajustando volume e tempo de uso:
“Dá para pensar em um limite seguro combinando volume e tempo, porque o risco depende da “dose” de som ao longo do dia: como regra de referência, em saúde ocupacional considera-se que 85 decibéis (dB) por até 8 horas já é o teto do “seguro”, e, a partir daí, quanto mais alto o volume, menos tempo dá para ficar. Em termos simples, cada aumento de volume encurta muito o tempo tolerável.”
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Uma orientação citada pelo médico é a chamada regra do 80–90, que ajuda a controlar o uso dos fones no dia a dia.
“Para o dia a dia com fones, uma orientação prática é a regra do 80–90: tentar ficar em até 80% do volume máximo por no máximo 90 minutos por dia, fazendo pausas. [...] Eu recomendo também protetor auricular sempre que o som estiver tão alto que você precise falar mais alto para ser ouvido, ou quando você já sabe que costuma sair com sintomas auditivos”, completa.
Fique ligado nos sinais!
Se você chegou até aqui, já deu para notar que sinais como zumbido frequente, sensação de ouvido tampado ou dificuldade recorrente para entender o que as pessoas dizem devem ser investigados. Quando esses sintomas começam a aparecer, o mais indicado é procurar um médico otorrinolaringologista para avaliar como anda a audição.
Ouvir bem faz parte de uma rotina saudável — seja no trabalho, nas conversas do dia a dia ou naquele papo com os amigos. Ignorar esses alertas pode parecer tranquilo no começo, mas, com o tempo, o prejuízo pode bater na porta — e aí não tem volume no talo que resolva.
