
"Comecei a sentir dor física. Eu tive que ir ao médico, porque não sabia o que havia de errado comigo. Então eu fui diagnosticada com PSD (estresse pós traumático) e fibromialgia, que muita gente pensa que não é real, e eu nem sei que p*rra dizer sobre isso", contou a cantora norte Americana Lady Gaga, após ser vítima de abuso sexual.
Apesar de não ser visível, a fibromialgia é uma síndrome caracterizada por dor musculoesquelética difusa e persistente, que atualmente, segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia, atinge mais de 6 milhões de brasileiros.
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A dor atrapalha a vida de muita gente que convive com doenças crônicas e sem cura. O Fevereiro Roxo, campanha elaborada em 2014 por Ongs independentes de Minas Gerais, traz à luz os problemas, até então invisíveis, de pessoas que lutam e convivem com doenças como lúpus, Alzheimer e fibromialgia.
No caso da fibromialgia, segundo a fisioterapeuta formada pela UESB, Josane Miranda, o diagnóstico surge inicialmente a partir das dores espalhadas pelo corpo. Ainda de acordo com a profissional, os principais sintomas são: dores difusas, cansaço extremo e falta de vontade de fazer coisas básicas, muitas vezes confundidas com “corpo mole” ou preguiça.
Estresse ligado à fibromialgia
Josane trabalha com microfisioterapia, técnica voltada para micro movimentos com objetivo de encontrar na memória corporal o que gera o sintoma, ligado, segundo ela, a memórias de traumas. "Isso gera marcas no corpo. Com a microfisioterapia, a gente faz uma liberação dessa sobrecarga dos tecidos corporais", conta.
Dentre os dados do Ministério da Saúde, o diagnóstico de fibromialgia — que já é considerado deficiência pela chamada Lei de Gaga (Lei nº 15.176/2025) — atinge até 90% apenas mulheres.

A lei garante que pessoas com fibromialgia ou condições relacionadas tenham prioridade de atendimento e acesso ampliado a tratamentos pelo SUS. Ou seja, aquilo que antes era difícil ou custoso, agora passa a ser um direito assegurado.
"Isso traz um alerta e um cuidado para experiência social das mulheres que têm às vezes jornadas duplas, triplas, dão conta de casa, dão conta de filho, essa exaustão física, mental É também importante trazer essa questão: Por que as mulheres são mais acometidas?”, destaca a fisioterapeuta.

Com a lei em vigor, pacientes com fibromialgia podem acessar nutricionista, psicóloga e fisioterapeuta de maneira gratuita.
"A microfisioterapia entra quando traz essa regulação do corpo, uma consciência corporal e uma regulação das emoções. A psicoterapia também é extremamente importante porque, obviamente, o nosso corpo responde às emoções. Além do reumatologista, que é o especialista que cuida desses quadros, a fisioterapia, a psicoterapia e a nutrição também são muito importantes", ressalta.
O diagnóstico da condição — complexo de ser fechado — passa por um trabalho conjunto de profissionais de saúde. Em seu consultório, Josane recebe pacientes que enfrentaram muitos diagnósticos “inconclusivos”:
"Não é só uma dor psicológica. A dor nunca é só psicológica e nunca é só física. É um conjunto, e a gente precisa ter atenção, investigar, validar e acolher essa dor, porque quem tem dor persistente, dor crônica, acaba tendo o humor e a socialização comprometidos", explica.
Essa dificuldade de 'provar' que a dor está ali faz com que as pessoas desconfiem da veracidade do sofrimento, invisibilizando a doença e prejudicando os pacientes. A fisioterapeuta acende a importância de validar o quadro e trazer o diagnóstico correto:
"Existem, sim, casos de remissão dos sintomas. É muito gratificante ver alguém que chega cheia de dor, travada nos próprios planos, conseguir avançar com acompanhamento, disciplina e autocuidado. Mesmo sem promessa de cura, é possível ter conforto, controlar sintomas e recuperar qualidade de vida."

Na pele de quem vive
Diferentemente da fibromialgia, o lúpus é uma doença autoimune em que o próprio sistema imunológico passa a atacar o corpo. Ele pode afetar a pele, as articulações, os rins, os pulmões, o coração e até o sistema nervoso, com períodos de crise e momentos de melhora.
Já os pacientes portadores de fibromialgia que chegam no consultório de Josane relatam algo em comum: sobrecarga.
“Atendo mulheres de realidades muito diferentes — donas de casa, professoras, assistentes sociais — muitas têm dificuldade de dizer ‘não’. Elas seguem ‘aguentando’ até chegarem à exaustão. É importante conscientizar, porque mesmo que a gente não veja nada de fora, essa pessoa está sentindo dor.”
Do trauma que virou uma dor crônica, Antônia Anaila, de 62 anos, convive com a fibromialgia desde 2013, ano em que perdeu o próprio filho. Ao Portal MASSA!, ela afirma que tudo começou com uma dor diferente todos os dias.
"Eu tomo inclusive medicação para ansiedade, e quase sempre que sinto dor preciso ir ao posto tomar medicação na veia", inicia. Entre os medicamentos citados, Anaila ressalta o Tramal, que é um analgésico usado para aliviar dores de moderada a forte intensidade. A substância, inclusive, é indicada para graves problemas ortopédicos, como hérnia de disco.
É aquela dor que vai percorrendo o corpo: começa nos braços, dói nas mãos, depois no joelho… Já fiz ressonância e deu artrose no joelho, tendinite e bursite.
Antônia Anaila
E até mesmo a busca pelo tratamento é difícil. A experiência com atividades físicas como pilates e até a fisioterapia, não foram positivas para o quadro de Anaila. "Consegui fisioterapia na UNEB e fiquei toda inchada. As dores pioraram, fiquei toda inchada", explica.

O impacto psicológico
As dores intensas impactaram a vida de Anaila, que além de atravessar o luto, precisou parar de trabalhar:
Na época eu era revendedora, tive que parar porque eu não conseguia mais andar e ficar muito tempo em pé. Até em pé na igreja meus joelhos ficam inchados
Ex- vendedora Antônia Anaila

Vale ressaltar que a deficiência vai muito além da dor física. A síndrome também interfere no sono, na concentração, na memória e aumenta a vulnerabilidade da pessoa a transtornos psicológicos, como ansiedade e depressão.
As principais dores e sensações relatadas por quem convive com fibromialgia incluem:
➡️ Dor difusa, migratória e persistente pelo corpo
➡️ Formigamento e/ou dormência
➡️ Fadiga excessiva
➡️ Sono não reparador (a pessoa acorda cansada, como se não tivesse dormido) ou até insônia
➡️ Dificuldade de concentração e lapsos de memória
➡️ Dor de cabeça
➡️ Alterações intestinais
➡️ Ansiedade
➡️ Depressão
➡️ Fibro fog (névoa cerebral)
Questionada se sente incapacidade por conta da condição, a ex-vendedora concordou, e relatou ainda a necessidade do uso de medicamentos para tratar a ansiedade.
Tomo dois por dia, porque às vezes eu fico com aquela falta de ar, parecendo que eu vou receber uma notícia ruim.
Antônia Anaila
A névoa mental, aquele sentimento de confusão, também impacta a vida de Anaila. "Até com minha mente mexe um pouco. As vezes quando eu vou pro médico, eu tenho que levar a medicação tudo por escrito, porque senão fico esquecendo".
Atualmente, não existe um estudo que comprove exatamente o que causa a fibromialgia. O que se sabe, até agora, é que diversos fatores podem estar envolvidos ao mesmo tempo — desde alterações na forma como o sistema nervoso processa a dor até histórico de traumas físicos ou emocionais, predisposição genética e questões hormonais.
Para a ex- vendedora, o gatilho para as dores foi a perda do filho, que tinha apenas 23 anos. "Foi em 2013 que eu perdi, e aí comecei a sentir as dores. Antes me julgavam, mas hoje minha filha e meu esposo me entendem.", inicia o desabafo.
"Tem noite que eu não durmo. Passo a madrugada sentada na poltrona. Dá 4h, 5h, eu vou para o quarto, volto... Às vezes sinto que estou incomodando. Meu esposo até diz: 'Não dormi com você se mexendo', completa.
A intervenção com melhor evidência científica é a atividade física regular e orientada. Porém, segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia, por conta das dores intensas e persistentes, os pacientes evitam ao máximo qualquer tipo de exercício.
"Antes eu até conseguia fazer a minha faxina, que eu gosto, mas hoje não dá mais, tem que ser por etapas. Se eu lavar o banheiro hoje, só vou varrer a casa amanhã", diz.
Você não se acostuma, você tenta viver com ela. É uma coisa difícil mesmo de você conviver
Ex- vendedora Antônia Anaila
Tratamento e avanços
O primeiro passo para quem convive com a fibromialgia é ter um diagnóstico certeiro. E, segundo a fisioterapeuta Josane, isso começa pela consulta com um especialista. “É importante passar pelo médico que vai fazer o diagnóstico clínico”, explica.
A partir daí, o tratamento entra em uma etapa essencial: ajudar o corpo a sair do estado constante de tensão:
“A gente vai fazer a intervenção de trazer mais relaxamento para essa musculatura, porque é a sensação de que o corpo tá sempre em estado de alerta”, afirma. Segundo ela, essa hiperssensibilização do sistema nervoso funciona como se a pessoa estivesse ligada no alerta o tempo inteiro.
Por isso, o foco também é regular os sistemas internos que controlam ação e descanso. “Tem o simpático, que dá ação, e o parasimpático, que traz o relaxamento. A gente faz estímulos de regulação para que esse parasimpático também seja ativado, e a pessoa consiga descansar, dormir melhor e ter recursos para manejar para além da medicação”, detalha.
Esses recursos incluem técnicas simples e acessíveis no dia a dia. “Com respiração, relaxamento… até transformar o seu banho no seu momento de spa”, orienta. A profissional também destaca que práticas como automassagem, óleos essenciais e terapias integrativas ajudam a equilibrar tanto o corpo físico quanto o emocional.
Quase sempre, a psicoterapia entra como aliada — e não por acaso. “Normalmente, os pacientes chegam para mim por indicação de psicólogos. Quase 80% vêm por indicação porque são profissionais que reconhecem que esse corpo tá contando uma história que precisa ser validada e integrada para além da palavra”, diz.
Para ela, é aí que a microfisioterapia fecha o ciclo do cuidado. “O corpo traz coisas que às vezes a palavra não dá conta. Com a microfisioterapia, a gente tem um caminho de entender essa história que o corpo tá contando e ajudar a liberar essa sobrecarga”, conclui.
*Sob a supervisão da editora Amanda Souza
