Tecnologia de facções aprisionadas fortalece dinâmica na Bahia

Estado lidera número de grupos criminosos em atividade no país

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Tabuleiro do crime - 09/02/2026, 10:00 - Jaísa de Almeida- Atualizado em 09/02/2026, 11:23

As facções criminosas deixaram de ser um problema restrito aos presídios e hoje moldam, na prática, a dinâmica de bairros inteiros de Salvador. O avanço desses grupos, que nasceram atrás das grades e ganharam força nas ruas, transformou a Bahia no estado com o maior número de organizações criminosas em atividade no Brasil. Ao todo, são 21 facções em operação, segundo o Mapa das Organizações Criminosas 2024, da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), ligada ao Ministério da Justiça — quase um quarto de todas as mapeadas no país.

Esse cenário tem raízes antigas, dentro do próprio sistema prisional. Foi ali que surgiram as duas maiores facções do Brasil, o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC). Dados do boletim analítico Política Penal e Drogas 2025, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), mostram que cerca de 190.291 pessoas — homens e mulheres — cumprem pena por associação ao tráfico de drogas.

Na Bahia, a presença das facções vai muito além dos nomes mais conhecidos do noticiário policial, como Bonde do Maluco (BDM) e CV. Outras organizações também já botaram as caras e disputam espaço, a exemplo da Katiara, Caveira, Terceiro Comando Puro (TCP) e Tropa do A. Com tantas frentes em atuação, Salvador e outras cidades do interior sentem o peso das disputas, que vão do controle do tráfico à imposição de regras dentro dos bairros.

Para o promotor do Ministério Público da Bahia (MP-BA), Edmundo Reis, em entrevista exclusiva ao MASSA!, a força dessas facções está ligada à atuação em conjunto. Em associação, os grupos intensificam ações para expandir negócios, inclusive fora do Brasil. Nesse movimento, o Porto da capital baiana passou a ser visto como rota alternativa aos terminais de Santos, em São Paulo, e do Rio de Janeiro, já bastante monitorados por operações policiais voltadas ao tráfico internacional.

Edmundo é promotor de justiça
Edmundo é promotor de justiça | Foto: Divulgação/MP-BA

Ainda segundo o promotor, o BDM aparece entre as 14 organizações criminosas com atuação dentro do sistema carcerário baiano, o que coloca a Bahia como o segundo estado do país com mais facções nas prisões, conforme relatório do Ministério da Justiça e da Segurança Pública.

Mesmo com esse crescimento, separar e isolar as lideranças segue sendo um desafio, já que as unidades prisionais da capital não dispõem de tecnologia capaz de barrar totalmente a comunicação entre internos e comparsas do lado de fora — troca que, de acordo com o MP, sustenta o controle territorial e pesa direto na rotina de quem vive nas áreas dominadas.

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Presídio cercado pelo crescimento urbano

O Complexo Penitenciário da Mata Escura exemplifica essa dificuldade. Construído inicialmente em uma área afastada, o presídio acabou cercado pelo crescimento urbano. O que antes era isolado, hoje divide espaço com avenidas movimentadas, como Gal Costa e Cardeal Brandão Villela, além do bairro de Valéria, regiões onde a população já convive com os impactos do domínio das facções.

Edmundo Reis recorda que, no passado, “era uma fazenda, era uma mata escura quando o presídio foi mandado para lá”. Com a cidade avançando ao redor da unidade, bloquear sinais de celular virou um problema ainda mais complexo. Ajustar equipamentos para impedir a comunicação interna acaba afetando também quem vive no entorno.

Imagem ilustrativa da imagem Tecnologia de facções aprisionadas fortalece dinâmica na Bahia
Foto: Divulgação/Seap

“Na hora que você regula aquela torre para efetivamente bloquear os sinais, ela vai afetar toda a comunidade no entorno. E aí vem as operadoras, todas começam a receber ao mesmo tempo as reclamações de que os celulares dos seus clientes não estão funcionando. Alguma coisa tá errada. Então a Anatel vai lá e diz: não pode, você tem que, você tem que baixar, não pode prejudicar", contextualiza.

Outro entrave apontado pelo promotor é a velocidade com que a tecnologia avança. Enquanto o Estado tenta adquirir equipamentos mais modernos, novas formas de burlar os sistemas surgem rapidamente, tornando soluções ultrapassadas antes mesmo de entrarem em operação:

Aspas

A gente não estabeleceu o perímetro, porque, para você adquirir um equipamento de segurança — um bloqueador que seja definido por perímetro — precisa de autorização e, antes de sequer terminar a licitação, essa tecnologia já está ultrapassada e já existe outra que burla isso

Na foto: presídio de Mata Escura
Na foto: presídio de Mata Escura | Foto: Divulgação/MP-BA

Apesar das limitações estruturais, de acordo com informações do próprio Ministério Público, o enfrentamento às facções que atuam a partir do sistema prisional segue em curso, mas ainda encontra entraves que dificultam o enfraquecimento desses grupos. O órgão informou ter deflagrado 96 operações em 2025 contra esquemas criminosos ligados, principalmente, ao tráfico de drogas, muitos deles com origem ou articulação dentro das unidades prisionais.

Ainda segundo o MP-BA, no recorte dos últimos cinco anos, o número de operações passou de 30, em 2021, para 92 neste ano, em uma tentativa de conter a atuação de facções que, mesmo com lideranças presas, continuam se comunicando e influenciando territórios fora dos muros das cadeias.

Seap tenta frear ordens internas

Dentro desse cenário de disputa e tentativa de controle das facções, o MASSA! procurou a Secretaria de Administração Penitenciária (Seap) para saber como se molda a estratégia de combate à qualquer tentativa de atuação criminosa. Segundo o órgão, existe a manutenção de uma atuação permanente e integrada para “brecar” qualquer comunicação ilícita entre internos e o lado de fora. Para isso, são realizadas revistas quase diárias, com monitoramento das celas e apreensão frequente de materiais proibidos, geralmente armas artesanais e entorpecentes, numa tentativa de fechar o cerco dentro das unidades.

“É o resultado do investimento na tecnologia de Bodyscan para o controle de acesso de visitantes nas unidades prisionais. Esses equipamentos de raio X, atualmente instalados em 18 unidades do Estado, possuem alta precisão de imagem e têm dificultado de forma significativa a entrada de aparelhos celulares e outros ilícitos no sistema prisional”, informa.

Mesmo com essa estrutura, a própria Seap reconhece que há limites legais que precisam ser respeitados. A Lei de Execução Penal garante, por exemplo, o atendimento reservado entre os encarcerados e seus advogados, além das visitas de familiares — situações previstas na legislação, mas que podem acabar sendo utilizadas de forma indevida como meio de comunicação entre os traficas.

Ao comentar as declarações do MP-BA sobre possíveis ordens criminosas partindo de dentro das cadeias, a secretaria ressaltou que “não houve, até o momento, especificação ou comprovação de que as eventuais ordens criminosas mencionadas tenham sido transmitidas por meio de aparelhos celulares em posse de internos custodiados no sistema prisional estadual.”

Ainda assim, o órgão afirma que segue ampliando investimentos em inteligência, tecnologia e operações integradas com forças de segurança, com o objetivo de prevenir, identificar e reprimir qualquer articulação criminosa que tente sair de trás das grades e alcançar as ruas.

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