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Ressocialização: a luta contra a invisibilidade - 29/08/2025, 09:00 - Bruno Dias - Atualizado em 29/08/2025, 09:25

Internas levam artes feitas à mão para além dos muros da cadeia

Detentas tiveram imagens feitas à mão expostas no Museu de Arte Contemporânea da Bahia
Detentas tiveram imagens feitas à mão expostas no Museu de Arte Contemporânea da Bahia |  Foto: Uendel Galter/Ag A Tarde

Assim como a frase dita pelo filósofo e historiador francês Michel Foucault: “Um pouco de possível, senão eu sufoco”, as internas tiveram a oportunidade de passar três meses de alívio da rotina monótona da prisão e embarcar em uma jornada criativa durante a realização de uma nova ‘Oficina de Imagens’, no Conjunto Penal Feminino de Salvador, na PLB, em Mata Escura.

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Assim como o projeto das Flores - apresentado no primeiro capítulo da série Ressocialização: a luta contra a invisibilidade, do Portal MASSA! - a iniciativa também busca promover a ressocialização das participantes por meio de dinâmicas diferenciadas. Desta vez, o foco foi o ensino de truques de fotografia aliados à arte.

Para as atividades, a SEAP contou com o apoio do Laboratório de Fotografia da Faculdade de Comunicação (Labfoto) e do Núcleo de Estudos sobre Sanção Penal (Nesp), da Faculdade de Direito da UFBA. Cerca de 10 mulheres do Conjunto Penal participaram das aulas, realizadas às quintas-feiras entre novembro de 2024 e janeiro deste ano.

Imagem ilustrativa da imagem Internas levam artes feitas à mão para além dos muros da cadeia
Foto: Uendel Galter/Ag A Tarde

Durante as sessões, elas aprenderam sobre fundamentos da luz da câmera, técnicas de fotografia com latas de alumínio, montagem de cena para retratos e químicos de revelação. Também participaram de uma sessão de fotos individuais com o tema: “Como você se vê”, evidenciando características e inspirações de cada uma por meio das poses e roupas escolhidas.

O supervisor das ações, professor da Facom, Rodrigo Rossoni, explicou em entrevista ao MASSA! que a principal ideia do projeto é valorizar a humanidade e identidade de cada mulher, mesmo além dos frios muros de concreto.

"Pensamos em uma oficina que não fosse apenas técnica, mas que também discutisse imagem, identidade, afetos e escuta", inicia.

Aspas

A ideia era trabalhar a humanidade de cada uma delas, muitas vezes esquecida no cotidiano do presídio, seja pela padronização das roupas ou por outros fatores

Rodrigo Rossoni, supervisor das ações e professor da Facom

“Quando falamos de ressocialização, é fundamental compreender que estamos lidando com seres humanos, com histórias, identidades e subjetividades. Sem esse respeito, não há ressocialização possível. A oficina ajudou a construir justamente isso: trabalhar as subjetividades, fazer com que elas percebessem que ainda existe humanidade dentro delas, que ainda estão vivas e podem ter esperança no futuro”, continua.

Internas aprenderam sobre fundamentos da fotografia durante três meses
Internas aprenderam sobre fundamentos da fotografia durante três meses | Foto: Uendel Galter/Ag A Tarde

Além de proporcionar momentos coloridos e lúdicos, longe da rotina cinzenta da cadeia, a oficina também contribuiu para a remissão de pena de cada custodiada. Como resultado, algumas já foram liberadas por alvará da Justiça após cumprir suas sentenças, e agora podem mostrar à sociedade os talentos que desenvolveram enquanto estavam presas, seja na fotografia ou no arranjo de flores.

O feito foi ressaltado por Taciana Marques, diretora do Conjunto Penal Feminino. Ela enfatizou que o mais importante é o aprendizado, para mostrar às internas que elas podem seguir caminhos diferentes daqueles vividos dentro do presídio. Além disso, destacou a necessidade de atenção especial às mulheres presas.

“As mulheres precisam, de fato, dessa atenção. Esse contato com o mundo externo, com pessoas que se comprometem a ensinar e trazer algo para elas, é fundamental”, diz.

Aspas

Muitas vezes, elas são esquecidas. Recebem poucas visitas, os encontros íntimos também são reduzidos em comparação com o masculino

Taciana Marques, diretora do Conjunto Penal
Taciana Marques, diretora do Conjunto Penal Feminino
Taciana Marques, diretora do Conjunto Penal Feminino | Foto: Uendel Galter/Ag A Tarde

Fotos viram arte de museu

Graças à oficina, as artes e fotos produzidas pelas presas foram expostas no Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC), na galeria chamada ‘Daqui de Dentro’. Com dezenas de imagens e retratos, a exibição teve início no dia 18 de agosto, exclusivamente para as participantes e seus familiares. A visitação foi aberta ao público no dia 19 e segue até o dia 31.

A apresentação das obras contou com a presença dos professores que participaram da ação. Mesmo com uma desconfiança inicial, eles aceitaram o desafio e, durante o processo, se sensibilizaram com cada participante, criando um laço forte, unido pela arte. O artista voluntário Caique Silva, de 33 anos, descreveu a experiência durante os três meses dentro do Conjunto Penal Feminino como emocionante.

“Pra gente foi uma surpresa. Nenhum de nós conhecia a unidade prisional, nunca tínhamos entrado lá. Existia aquele receio construído por filmes e estereótipos. Mas isso foi sendo quebrado durante as práticas. Fomos nos aproximando cada vez mais, mergulhando nos íntimos, contando histórias. Essas práticas destruíram completamente as barreiras, que foram se dissolvendo aos poucos", relata.

Aspas

A despedida foi um momento bem triste, porque entendemos que a partir dali ficaríamos um bom tempo longe delas

Caique Silva, artista voluntário
Artista voluntário Caique Silva, de 33 anos
Artista voluntário Caique Silva, de 33 anos | Foto: Uendel Galter/Ag A Tarde

Reencontro marcante

Pelo lado das detentas, a sensação foi de aprendizado e liberdade criativa. Para M.J.S, de 39 anos, os conhecimentos adquiridos na oficina serão levados para a vida toda, como marcas positivas do cuidado que recebeu enquanto cumpria pena, buscando a ressocialização e a reparação pelos erros do passado.

Presa desde 2019, ela encontrou na fotografia um fio de esperança para o futuro: “Isso dá esperança e também agrega ao currículo, porque já saímos com uma profissão. Esse curso, assim como outros que fizemos na unidade, nos capacita. Muitas fotos foram feitas por nós mesmas, e isso é uma valorização muito grande. Esse evento está sendo muito especial para mim”.

Além da felicidade em ver os resultados do processo artístico, a emoção tomou conta ao rever seus parentes. Em contato com a reportagem, a interna desabafou que não via a mãe há seis anos e não conseguiu conter as lágrimas ao encontrá-la novamente. As palavras foram tomadas por um abraço recheado de saudade, que apertava a cada dia passado na cadeia.

Internas reencontraram seus familiares
Internas reencontraram seus familiares | Foto: Uendel Galter/Ag A Tarde

“Encontrei pessoas da minha família aqui. Minha mãe faz seis anos que eu não a via. Também revi meu sobrinho e minha irmã. Esse reencontro foi muito especial. Foi uma surpresa muito emocionante. No primeiro momento eu nem acreditava que estava vivendo aquilo. Foi muito especial”, comenta, com os olhos cheios de lágrimas.

Aspas

A família também não sabia que iria me ver, então foi uma surpresa dos dois lados

M.J.S

Da mesma forma, a mãe, identificada apenas pelas iniciais M.N.S, de 53 anos, viveu um turbilhão de emoções ao ver a filha depois de tanto tempo separadas. Entre abraços e dedicação de amor, o reencontro trouxe de volta memórias do passado, como se cada lembrança adormecida voltasse à tona naquele momento.

Do primeiro choro, às vivências da infância, a mulher se emocionou e chorou ao recapitular o passado, agora misturado com o peso da saudade acumulada durante anos de distância.

Aspas

Na vida, existem coisas ruins, momentos de terror, mas também encontramos gente boa, com carinho e respeito. Não devemos pensar apenas no terror da vida, mas no amor, no carinho e na dedicação que existe no coração das pessoas

M.N.S, de 53 anos, mãe da interna

“Quando eu a vi, não acreditei. É como se estivesse vivendo tudo de novo, desde a primeira vez que a peguei nos braços depois de tanto tempo. Quando vi as fotos da minha filha sorrindo de novo, ninguém imagina o quanto isso é importante. Ver uma pessoa sorrir novamente é especial. Olhando para aquela foto, você percebe um brilho único", reforça.

Reencontro emocionante marcou a mostra no MAC
Reencontro emocionante marcou a mostra no MAC | Foto: Uendel Galter/Ag A Tarde

Combate ao machismo e preconceitos

A exposição também contou com a presença de Bacildes Terceiro, superintendente de ressocialização sustentável. Ele acompanhou toda a amostra e, em entrevista ao MASSA!, ressaltou os projetos desenvolvidos com as detentas do Conjunto Penal Feminino, afirmando que novas ideias já estão sendo elaboradas e devem ser realizadas futuramente.

Bacildes Terceiro, superintendente de ressocialização sustentável
Bacildes Terceiro, superintendente de ressocialização sustentável | Foto: Uendel Galter/Ag A Tarde

O gestor destacou que fatores como a influência de parceiros ligados ao crime, o preconceito da sociedade e o machismo estrutural precisam ser combatidos.

“O público feminino precisa e merece essa atenção, tanto em Salvador quanto no interior. Hoje, o conjunto penal feminino está completamente envolvido em projetos de ressocialização: educação, trabalho, cultura e arte. Esse projeto reflete todo o esforço que a SEAP tem feito na Bahia inteira para investir em ressocialização. A ideia da reintegração social é fechar a porta de entrada para o crime, minar o recrutamento da criminalidade”, afirma.

Série especial

Histórias como essas mostram como os projetos de ressocialização dentro dos presídios podem ser importantes para reabilitar detentos que cumprem pena e se arrependem dos seus atos. O tempo atrás das grades se transforma em um momento de reflexão, mudança e, acima de tudo, esperança de fazer tudo diferente.

Este é o quinto capítulo da série Ressocialização: a luta contra a invisibilidade. No próximo dia 12 de setembro, o quinto episódio abordará mais um projeto social que também transforma vidas e oferece novas oportunidades.

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