
Sair para beber, ir ao cinema ou até mesmo pedir um lanche no fim de semana já parece um date ultrapassado para quem pratica esportes. Os amantes da cultura "wellness", que significa bem-estar, têm optado por correr cinco quilômetros como uma opção muito mais romântica.
O termo "fitsexuais" define indivíduos cujo desejo sexual é despertado prioritariamente pela estética da alta, performance e por corpos que ostentam músculos definidos. Um físico esculpido funciona como símbolo de status, disciplina e poder, condicionado por algoritmos de redes sociais que associam beleza extrema ao sucesso sexual.
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Um relacionamento pode começar muito além dos aplicativos de namoro, já que espaços de esporte como academias, crossfits e centros de treinamento têm atraído cada vez mais quem pratica atividade física e, também, quem está solteiro.
Preferência ou exigência?
Segundo a sexóloga Raquele Carvalho, o termo é relativamente novo e não deve ser confundido com orientação sexual ou diagnóstico. A expressão é usada para falar de pessoas que têm uma atração acentuada por corpos definidos, musculosos ou pelo próprio estilo de vida fitness.
A preferência, segundo ela, não representa necessariamente um problema. O ponto de atenção aparece quando o padrão se torna rígido a ponto de determinar quem pode ou não despertar desejo.
“É diferente eu dizer ‘me sinto mais atraída por pessoas com determinado tipo de corpo’ e dizer ‘só consigo desejar ou me relacionar com alguém se ela tiver esse tipo de corpo’”, explica.

Raquele também chama atenção para outro ponto: a atração por corpos fitness não deve ser automaticamente classificada como fetiche.
“Nem toda preferência é um fetiche”, afirma. Para a especialista, o principal é observar se esse padrão começa a limitar relacionamentos, desejo ou gerar sofrimento.
O custo da "foto perfeita"
A busca pelo chamado couple goals (casal objetivo) nas redes sociais tem transformado parceiros em objetos de decoração. Segundo Raquele, existe o mito de que quem tem uma rotina fitness intensa possui automaticamente uma vida sexual impecável, e não é bem assim.
Corpo desejado não significa, necessariamente, corpo disponível para o prazer
Sexóloga Raquele Carvalho
"O problema é achar que, quanto mais treino, quanto mais músculo e quanto menor o percentual de gordura, melhor vai ser a vida sexual. A resposta sexual depende de fatores físicos, hormonais, emocionais e relacionais", explica.
Quando a busca pelo corpo perfeito envolve treino excessivo, dietas muito restritivas, pouca disponibilidade de energia para o organismo ou uso inadequado de anabolizantes, o efeito pode ser o contrário do esperado.
De acordo com a sexóloga, existem estudos que mostram alterações hormonais e na função reprodutiva relacionadas à baixa disponibilidade energética.
No caso dos anabolizantes, há possíveis repercussões sobre libido, ereção e função reprodutiva, dependendo da substância, da forma de uso e também após a interrupção.
"A gente chega a um paradoxo. A pessoa pode estar buscando um corpo que socialmente é considerado extremamente desejável, mas essa mesma busca, levada ao extremo, pode prejudicar a própria experiência sexual", afirma.
Intimidade com a câmera desligada
A exposição constante de uma rotina saudável nas redes sociais também pode interferir na maneira como os casais enxergam a própria relação. Para Raquele, existe uma diferença entre compartilhar momentos e sentir a necessidade de provar que o relacionamento corresponde a uma imagem idealizada.
“As redes potencializam isso, porque a gente não só vive o corpo hoje, a gente exibe esse corpo e recebe validação sobre ele: curtida, comentário, elogio, número de seguidores. E isso também pode acontecer com o casal”, pontua.
Treinar junto ou publicar fotos do relacionamento, portanto, não é necessariamente um problema. A questão aparece quando a imagem do casal fitness passa a ser mais importante do que a relação construída longe das câmeras:
A intimidade precisa também de vulnerabilidade. Tem dia que a gente não está bonito, não está disposto, não está performando
Sexóloga Raquele Carvalho
Segundo ela, quando a preocupação com aparência e desempenho também chega ao sexo, pode ficar mais difícil estar presente na experiência. “Se até na intimidade eu estou preocupada com a minha imagem, com a aparência do meu corpo ou com a performance que preciso entregar, fica mais difícil estar presente”, afirma.
E quando o corpo muda?
De acordo com a lembra a sexóloga, o corpo vai mudar e com isso vão chegar envelhecimento, ganho ou perda de peso, doenças, lesões, alterações hormonais e até gravidez. Por isso, períodos sem treinar fazem parte da vida.
"Se toda atração e toda relação foram construídas em torno de uma única versão daquele corpo, qualquer mudança pode virar uma ameaça. Isso não significa que a atração física não importa. Importa. A questão é ela ser o único elemento que sustenta o desejo, porque o desejo também passa pelo cheiro, pelo toque, pela voz, pela admiração, pela intimidade, pelas fantasias, pela cumplicidade, pela história que aquele casal construiu", explica.
A questão não é retirar o corpo do desejo, é não reduzir o desejo somente ao corpo
Sexóloga Raquele Carvalho
Sinais de alerta
A atração por corpos fitness, por si só, não significa a existência de um problema de saúde mental. Raquele ressalta que gostar de determinado padrão físico não causa dismorfia corporal, condição específica que precisa ser avaliada por um profissional habilitado.
Ainda assim, alguns comportamentos podem indicar que a relação com o corpo e o desejo está causando sofrimento. Entre eles estão:
➡️ acreditar que só merece ser desejada se estiver com determinado corpo;
➡️ comparação corporal constante;
➡️ sofrimento intenso ao ganhar peso ou perder definição;
➡️ o sexo deixar de ser espaço de prazer e virar lugar de cobrança e performance;
➡️ um padrão físico tão rígido que a pessoa não reconhece como desejável ninguém fora dele.
Casal fitness: pressão ou sintonia?
Se, para algumas pessoas, o universo fitness pode estabelecer padrões de aparência e comportamento, para outras a atividade física funciona como um ponto de conexão dentro do relacionamento.
A personal trainer e educadora física, Lavínia Martinez, e o médico Gabriel Luiz, de 26 anos, estão juntos desde 2021. Os dois são atletas e afirmam que o esporte esteve presente desde o início da relação.
Lavínia praticavaa capoeira, enquanto Gabriel era atleta de arremesso de peso. A identificação com a atividade física foi um dos fatores que aproximaram os dois. O primeiro encontro, inclusive, aconteceu em uma academia.
“Foi um dos fatores que fez com que a gente se aproximasse tanto em tão pouco tempo. Essa paixão pelo esporte vem movendo essa relação”, lembra Gabriel.

Para o casal, compartilhar hábitos também facilita a convivência. A rotina de treinos, corridas e competições exige adaptações dos dois, principalmente quando envolve horários que fogem da rotina convencional.
“Não adianta uma pessoa querer acordar às 6 horas da manhã para fazer uma corrida e a outra estar dormindo, não precisar da companhia do outro. Isso impacta demais”, diz Lavínia.
Gabriel também considera importante que os parceiros apoiem os objetivos individuais. “Um casal precisa ter objetivos congruentes. Não adianta eu querer correr uma maratona, como foi neste primeiro ciclo de 2026, e ela não me incentivar”, afirma.
A preparação para as provas também faz parte da rotina compartilhada. Em períodos de treinamento mais intenso, os dois adaptam horários e hábitos para acompanhar os compromissos esportivos.
“A gente tem que ceder. Às 7 horas da noite de uma sexta-feira, a gente tem que estar dormindo, porque sábado tem o longão. Ele acorda às 4h30 da manhã e eu acordo junto, para apoiar, ali ao lado, de bicicleta”, conta Lavínia.

Apesar da rotina voltada ao esporte, os dois afirmam que nunca houve cobrança relacionada à aparência física. Segundo Lavínia, as mudanças corporais foram percebidas como consequência de um estilo de vida compartilhado.
“Eu estou me sentindo bem com meu corpo, ele está se sentindo bem com o corpo dele, então a gente está sempre em sintonia, um elogiando o outro, um feliz com a transformação do outro. Isso vem impactando sim”, afirma.
Gabriel reforça que a aparência não foi estabelecida como uma exigência dentro da relação. “Nunca foi uma cobrança. Acaba sendo uma consequência do estilo de vida que ambos criaram. Você volta sua atenção para aquilo que é compatível com o seu estilo de vida”, completa.
Quem decide quem é desejável?
A discussão sobre a atração por corpos fitness também passa pelos padrões de beleza construídos socialmente. Para Raquele, existe uma diferença entre ter uma preferência individual e considerar que determinado tipo de corpo merece mais desejo do que outros.
Esse padrão pode fazer com que pessoas que não se encaixam na estética valorizada passem a se perceber como menos atraentes ou menos confiantes para viver a própria sexualidade.
“O desejo também é atravessado pela cultura. A gente aprende ao longo da vida quais corpos são apresentados como bonitos, sensuais e desejáveis”, afirma.
Isso não significa que as preferências individuais sejam falsas. A reflexão proposta pela sexóloga é sobre quanto dessas escolhas nasce de uma vontade própria e quanto é influenciado pelo que a sociedade apresenta como desejável.
"Quanto do que eu desejo é uma preferência minha e quanto também foi ensinado para mim como aquilo que eu deveria desejar?”, conclui.

