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Entenda como o cinema desenhou a história e a política do Brasil

Muita gente pode não relacionar o cinema aos grandes acontecimentos políticos e históricos do Brasil

Essas reconstruções também contribuem para apresentar discussões sobre a realidade brasileira
Essas reconstruções também contribuem para apresentar discussões sobre a realidade brasileira |  Foto: Reprodução/Globoplay

Muita gente pode não relacionar o cinema aos grandes acontecimentos políticos e históricos do Brasil. Mas a história da sétima arte no país começou ainda no século XIX, com a primeira sessão pública realizada em 8 de julho de 1896, em uma sala alugada do "Jornal do Commercio", no Rio de Janeiro. Na época, o presidente da República era Prudente de Morais, o primeiro civil a ocupar o cargo após a Proclamação da República.

No ano seguinte, em 1º de maio de 1897, a cidade de Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro, recebeu uma exibição de "A Chegada do Trem em Petrópolis", filme atribuído ao imigrante italiano Vittorio Di Maio. A obra é associada aos primeiros registros cinematográficos realizados no país e teria retratado o desembarque do presidente Prudente de Morais na estação ferroviária da cidade.

No ano seguinte, em 1º de maio de 1897, a cidade de Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro, recebeu uma exibição de "A Chegada do Trem em Petrópolis"
No ano seguinte, em 1º de maio de 1897, a cidade de Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro, recebeu uma exibição de "A Chegada do Trem em Petrópolis" | Foto: Reprodução/Câmara Municipal de São Paulo

Ainda em 1897, no dia 31 de julho, foi inaugurado o Salão de Novidades Paris, no Rio de Janeiro, considerado uma das primeiras salas fixas de cinema do Brasil. Naquele período, o acesso às exibições ainda era restrito, principalmente pelo preço dos ingressos, que limitava a presença de parte da população.

Com o passar dos anos, as produções audiovisuais passaram a registrar acontecimentos históricos, retratar conflitos sociais e apresentar diferentes interpretações sobre a realidade brasileira. Entre histórias de ficção, documentários e produções inspiradas em fatos reais, o cinema também se tornou um espaço de crítica, protesto e reflexão política.

Qual a relação do cinema com a política?

Em entrevista ao MASSA!, a cineasta Day Sena destacou o papel do audiovisual na preservação da memória política brasileira
Em entrevista ao MASSA!, a cineasta Day Sena destacou o papel do audiovisual na preservação da memória política brasileira | Foto: Foto: Divulgação/ Day Sena

Em entrevista ao MASSA!, a cineasta Day Sena destacou o papel do audiovisual na preservação da memória política brasileira e na reflexão sobre acontecimentos que marcaram a sociedade.

“É fundamental o papel das cineastas, dos cineastas, na preservação da memória política brasileira. É uma história, é um recurso, uma ferramenta da história ser contada e de alguns aspectos da história que não são benéficos para a sociedade não serem repetidos”, afirmou.

A cineasta também citou produções brasileiras que abordam desigualdades sociais, relações de poder e possibilidades de transformação. Entre os exemplos, estão "O Som ao Redor", de Kleber Mendonça Filho, e "Que Horas Ela Volta?", de Anna Muylaert.

Ao comentar sobre a importância dessas obras, Day Sena ressaltou que o cinema permite revisitar períodos anteriores e refletir sobre questões que permanecem presentes na sociedade.

“Não se pode esquecer algumas coisas pelas quais a sociedade brasileira passou. Então, por exemplo, O Som ao Redor, de Cláudio Mendonça, trata disso, traz um momento ali, nos anos 90, dimensionado nesse lugar, nos anos 90, final dos anos 80, essa relação social entre as classes, a desigualdade social ali escancarada e mantida por uma burguesia”, disse.

Cinema brasileiro e transformação social

Além das desigualdades, as produções nacionais também abordam mudanças nas relações sociais e as possibilidades de ascensão por meio da educação. Para a cineasta, filmes como "Que Horas Ela Volta?" ajudam a discutir essas transformações.

“Você traz essa realidade também, Que Horas Ela Volta, mas você traz dentro de um outro contexto, da possibilidade de ascensão de classe social, a parte da educação, dessa mudança dentro de um núcleo familiar que não previa essa possibilidade de mudança”, afirmou Day Sena.

Day Sena também citou "Bacurau", que retrata a resistência de uma comunidade diante de ameaças externas. Segundo ela, a produção apresenta a mobilização coletiva como uma forma de enfrentamento.

“E você vem para Bacurau também, trazendo essa luta pela permanência, pela resistência de uma comunidade ali que se junta e que fala, não, vamos brigar, vamos lutar”, destacou.

A cineasta ainda ressaltou a presença de realizadores negros e realizadoras negras na produção audiovisual contemporânea, com obras que abordam ancestralidade, memória e resistência.

“O cinema brasileiro se preocupa sempre em trazer uma reflexão dentro do ponto de vista social, político, de memória, sim. Acho que isso é uma característica do cinema brasileiro. E hoje a gente está destacando, por exemplo, cineastas negros, cineastas negras que retratam a memória, a ancestralidade e a resistência”, disse.

Para ela, essa diversidade de perspectivas contribui para ampliar o alcance das produções brasileiras e levar diferentes realidades para além das fronteiras do país.

Cinema também pode ser ferramenta de propaganda política

Em entrevista ao MASSA!, o historiador e professor Carlos Lima explicou que o cinema também pode ser utilizado para construir representações sobre o país e influenciar a maneira como determinados períodos históricos são compreendidos.

Segundo o historiador, enquanto algumas produções buscam analisar criticamente a realidade, outras são utilizadas para promover imagens favoráveis a governos e regimes políticos.

“Ele busca de alguma maneira trazer representações acerca do Brasil, e essas representações elas são constituídas de maneira bem diversa, muitas vezes são representações que buscam fazer crítica a um determinado período, a um determinado evento, analisar o retrato do país”, explicou Carlos.

Imagem ilustrativa da imagem Entenda como o cinema desenhou a história e a política do Brasil
Foto: Rafaela Maynard

O historiador também chamou a atenção para o chamado cinema ufanista, que apresenta uma visão exaltada da nação e pode funcionar como instrumento de propaganda política, especialmente em regimes autoritários.

“Então a gente não pode deixar de falar desse cinema ufanista que serve como peça publicitária para principalmente ditaduras, né? Então, toda ditadura, todo governo autocrático, eles têm ao longo do século XX o cinema como um dos suportes para construir imagens desse país”, afirmou Carlos.

Cinema Novo e a representação do Brasil

Ao falar sobre a história do cinema nacional, o historiador destacou a importância do Cinema Novo e de cineastas que buscaram retratar as desigualdades e os conflitos sociais brasileiros, especialmente a partir das décadas de 1960 e 1970.

Na Bahia, nomes como Glauber Rocha, Roberto Pires e Olney São Paulo contribuíram para a construção de um cinema que abordava questões relacionadas ao Nordeste, ao sertão e às relações de poder.

“Esses cineastas, eles, de alguma maneira, refletiram sobre o Brasil, sobre o Nordeste, sobre o Sertão, sobre o mandonismo, sobre a violência, sobre a política dos coronéis. Então em qualquer obra desses autores, nós vamos ver essa busca de um cinema crítico, essa busca por tentar entender o Brasil sob a ótica da classe trabalhadora, dos subalternizados, de sujeitos que estavam alheios ao poder”, destacou.

O historiador também ressaltou que, mesmo durante a ditadura militar, cineastas encontraram maneiras de produzir obras críticas, utilizando recursos narrativos e figuras de linguagem para abordar temas políticos e sociais.

“Então, mesmo com a repressão, eles conseguiram produzir, óbvio que utilizando recursos do cinema, por incluir essas sete artes, conseguem relacionar metáforas, figuras de linguagem, que de alguma maneira subverteu”, afirmou.

A partir da retomada do cinema brasileiro, na década de 1990, novas produções também passaram a revisitar acontecimentos históricos e discutir questões como a ditadura militar, as desigualdades sociais e as consequências do período pós-abolição.

Tecnologia ajuda a reconstruir períodos históricos

O historiador citou como exemplo o filme "O Agente Secreto", ambientado em 1977, durante a ditadura militar brasileira
O historiador citou como exemplo o filme "O Agente Secreto", ambientado em 1977, durante a ditadura militar brasileira | Foto: Divulgação/Globoplay

Além da narrativa e da interpretação dos acontecimentos, os recursos tecnológicos também ampliam as possibilidades de representação histórica no cinema. Em entrevista ao MASSA!, o historiador Jaime Nascimento comentou como os avanços tecnológicos e a inteligência artificial podem contribuir para reconstruir cenários e apresentar ao público elementos de épocas que já não existem.

O historiador Jaime Nascimento comentou como os avanços tecnológicos e a inteligência artificial podem contribuir para reconstruir cenários e apresentar ao público elementos de épocas que já não existem.
O historiador Jaime Nascimento comentou como os avanços tecnológicos e a inteligência artificial podem contribuir para reconstruir cenários e apresentar ao público elementos de épocas que já não existem. | Foto: Divulgação/Jaime Nascimento

O historiador citou como exemplo o filme "O Agente Secreto", ambientado em 1977, durante a ditadura militar brasileira. Segundo ele, os recursos audiovisuais ajudam a recriar detalhes de uma época e permitem que o espectador visualize os cenários sem depender apenas da imaginação.

“O cinema, do ponto de vista material, de financiamento, de recursos financeiros, ele tem muito mais possibilidade de retratar a coisa, eu não estou dizendo verdade, mas aquele assunto é retratado com mais fidelidade de elementos, da roupa, do guarda-roupa da época. […] Você reconstrói toda uma época a partir dos recursos, agora com a questão das novas tecnologias, da inteligência artificial, você consegue reconstruir toda uma época que já não existe”, explicou.

Para Jaime Nascimento, essas reconstruções também contribuem para apresentar discussões sobre a realidade brasileira, como a censura e a perseguição política durante o regime militar.

“Da mesma forma que Ainda Estou Aqui, O Agente Secreto vai discutir a realidade brasileira, do ponto de vista do que era a censura e a perseguição no período da ditadura militar, civil-militar, que se instaurou em março de 64 e durou até março de 85”, afirmou o professor.

Assim, as obras cinematográficas são utilizadas como forma de entretenimento, mas também como uma ferramenta para demonstrar retratos da sociedade, atuando como canal de informação e mantendo viva parte da história.

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