
Uma das maiores bandas do mundo, um alimento tradicional da Bahia e um forte pilar da economia do Nordeste. Apesar de parecerem tópicos distintos, essas três coisas estão conectadas pelo feijão-fradinho, grão que integra diariamente o almoço de milhões de brasileiros. Apesar de ser algo comum no cotidiano, esse pequeno ingrediente é responsável por gerar renda, preservar a cultura e garantir a saúde da população.
Sua história com o Brasil é datada desde a chegada dos portugueses. O cultivo do feijão-fradinho foi introduzido no país no século XVI pelos colonizadores, que trouxeram variedades do grão originárias do continente africano. Desde então, ele se tornou um queridinho do país e tem destaque na agricultura baiana.
Segundo dados da Companhia Nacional do Abastecimento (Conab) fornecidos por Maurisrael Moura Rocha, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a Bahia liderou como o maior produtor do alimento na safra de 2025-2026. O Ceará e o Piauí também aparecem entre os estados com maiores cultivos do grão, mostrando a importância e o papel do feijão-fradinho na cultura agrícola do Nordeste.
Ainda na safra 2025-2026, foram produzidas 816.900 toneladas da leguminosa no país. A Bahia foi responsável por 152.700 toneladas desse montante. “A Bahia destaca-se como um dos estados estratégicos tanto na produção, quanto no consumo do grão no país. Ao lado de estados como Mato Grosso e Ceará, ocupa posição de destaque no cenário nacional em área cultivada e volume produzido, reunindo desde a produção familiar em regime de sequeiro até áreas irrigadas e tecnificadas”, detalhou Assis Pinheiro Filho, diretor de Desenvolvimento da Agricultura da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Irrigação, Pesca e Aquicultura da Bahia (Seagri).
Resistência, versatilidade e capacidade de adaptação são as principais características desse tipo de feijão. Por conta disso, sua cultura de plantio é espalhada por diferentes regiões do Brasil.
“O feijão-fradinho apresenta boa resistência ao estresse hídrico, característica que favorece seu cultivo em diferentes condições edafoclimáticas, inclusive em áreas do semiárido baiano. No Oeste da Bahia, a exemplo dos municípios de Barreiras e Luís Eduardo Magalhães, destaca-se a produção empresarial de alta tecnologia, com cultivo mecanizado e sistemas de irrigação”, acrescentou Assis Pinheiro.

Depois de ser colhido, o grão percorre um longo caminho até chegar às mãos dos brasileiros. Alguns de seus destinos são a Feira de São Joaquim e o Mercado da Sete Portas, centros comerciais de Salvador conhecidos pela sua vasta variedade de mercadorias naturais. É nesses lugares em que as baianas de acarajé conseguem a matéria prima para um dos principais símbolos culturais do estado.
Considerado um alimento sagrado dentro das religiões de matriz africana, o acarajé carrega ancestralidade, fé e um legado que veio do outro lado do oceano. A receita é de origem africana e veio para o Brasil durante o período da escravidão. “Você pode fazer um bolinho de feijão, mas não está fazendo o acarajé. O acarajé só é feito com feijão-fradinho. Já ouvi falar de pedidos para fazer acarajé com soja ou feijão de corda, mas não é a mesma coisa”, defendeu Rita Santos, presidente da Associação Nacional das Baianas de Acarajé, Mingau, Receptivo e Similares (Abam).

De acordo com a última pesquisa realizada pela Abam, existem 3.500 baianas de acarajé em Salvador. Porém, segundo Rita, esse número pode chegar até 6 mil se considerados todos os municípios do estado. Além do Brasil, a associação também registrou profissionais em Portugal, França, Espanha, Itália, Austrália, Dinamarca, Noruega, Estados Unidos e Luxemburgo. Ainda que seja um ofício que necessita de muito esforço físico, hoje a vida das baianas de acarajé é um pouco facilitada.
“Hoje está bem mais fácil, porque você pode comprar a massa pronta, chegar em casa, colocar sal, cebola, bater e fritar. Antigamente, elas precisavam levar o feijão para casa, quebrar, colocar de molho, lavar em torno de 4 horas, depois processar esse feijão na pedra, pilão ou no moinho”, explicou Rita.
O acarajé desempenha um importante papel na economia local, gerando empregos e atraindo turistas para a cidade. Mais do que isso, a receita também é uma forma de conservar a memória de quem veio antes de nós. “Não é só religioso, é cultural, a essência de um país. Não importa se estamos na Bahia, Ceará ou no Rio Grande do Sul. Onde estiver o nosso povo preto, o acarajé vai estar como símbolo de resistência”, destacou a presidente da Abam.
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Além de desempenhar um papel religioso, econômico e cultural, o feijão-fradinho também é responsável por levar saúde e nutrição para a população. Além de ser rico em ferro, o alimento também se destaca por sua variedade de proteínas. “A combinação feijão e arroz oferece o que a gente chama de proteínas completas, em que a gente tem uma soma que traz benefícios nutricionais para o corpo. É a chamada comida de verdade”, destacou a doutora em nutrição Lourence Alves.

O arroz com feijão é uma das combinações mais clássicas do cotidiano brasileiro. Entretanto, essa não é a única forma de introduzir o ingrediente no cardápio de cada dia. Formada em gastronomia, Lourence ressalta a gama de pratos que podem ser produzidos utilizando o grão como protagonista. “A gente pode cozinhar ele, amassar e fazer hambúrger ou almôndega. A massa base que o feijão produz te permite uma variedade gigantesca. A gente também tem outras possibilidades de bolinhos, só não chamem de acarajé”, contou.
Sua influência não se resume apenas ao território nacional. A banda americana Black Eyed Peas tem seu nome traduzido para Ervilhas dos Olhos Pretos, que é a forma pela qual o feijão-fradinho é chamado nos Estados Unidos. No último domingo (6), o grupo musical se apresentou no Brasil como uma das atrações do Rock in Rio. Entretanto, a relação com o país é cultivada há muito tempo.
Em 2010, o Black Eyed Peas se apresentou em Salvador, pela única vez, no Parque de Exposições, show que entrou para a memória do público baiano. A crítica de cinema Ana Clara Penalva, 40, foi uma das felizardas que conseguiu aproveitar a passagem do grupo pela Bahia. Na ocasião, ela gastou seu salário inteiro para conseguir um ingresso no camarote. “Na época, eu estava na faculdade e estagiando como call center. Eu não sabia se teria ou não dinheiro para ir. No dia exato que saiu meu dinheiro, eu fui direto para comprar o ingresso. Na época, todos os meus amigos foram para a pista, só que meu salário dava certinho para comprar um camarote”.

