26º Salvador, Bahia
previsao diaria
Facebook Instagram
WHATSAPP
Receba notícias no WhatsApp Entre no grupo do MASSA!
Home / Cidades

Dia dos professores -

Professores da EJA vão além da aula e ajudam alunos a recomeçar

Para celebrar o Dia do Professor, o MASSA! detalha a rotina de quem dedica o trabalho aos jovens e adultos que abandonaram os estudos na infância

O EJA funciona majoritariamente no turno da noite, em escolas públicas
O EJA funciona majoritariamente no turno da noite, em escolas públicas |  Foto: Ana Albuquerque / Ag. A TARDE

Ir à escola para aprender a ler e escrever é um direito assegurado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). No entanto, devido a uma série de motivos, durante a infância e adolescência, algumas pessoas não conseguem ter acesso à escola de forma regular, interrompendo a vida escolar logo cedo.

Muitas dessas pessoas vão retornar à sala de aula no futuro por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA), modalidade de ensino na qual os conteúdos ultrapassam o ensino programado e passam a também a ensinar como recomeçar a vida.

Dados do Censo Escolar do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep) de 2024 apontam que a EJA somava cerca de 2,4 milhões de matrículas em todo o país naquele ano. Com diferentes idades, trajetórias de vida e razões para voltarem a estudar, esses estudantes enfrentam uma série de obstáculos. Os dasafios, no entanto, também alcançam os professores dessas turmas, que também precisam se adaptar suas práticas pedagógicas às diferentes realidades em sala de aula.

A Educação a Jovens adultos (EJA) começou a ser moldada a partir da década 1960, como forma de iniciar um processo de reparação educacional diante do número de pessoas analfabetas no país naquele período.

Mas a EJA como conhecemos sófoi consolidade a após a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, que assegurou aos jovens e adultos o Direito Público Subjetivo ao Ensino Fundamental Público e Gratuito.

Atualmente, a Educação de Jovens e Adultos é dividida em etapas que equivalem às fases do ensino regular. São elas:

  • Etapa I, o Ensino Fundamental: Essa etapa compreende do 1° ao 5° ano do ensino fundamental. São necessários ao menos dois anos para concluir essa fase.
  • Etapa II, o Ensino Fundamental II: Corresponde do 6° ao 9° ano do Ensino Fundamental no ensino regular
  • Etapa III – Ensino Médio: Com duração média de 18 meses, a etapa representa a conclusão da educação básica. Nela, o (a) estudante é preparado (a) para o mercado de trabalho e o ingresso na universidade através do vestibular tradicional ou Enem.

A vida do professor de jovens e adultos

Aldemir Júnior é professor de matemática e tem 13 anos de experiência na EJA. Eletrabalha com alunos do 6° e 7° ano na Escola Municipal Hildete Bahia de Souza, no bairro de Pernambués, em Salvador, mas conta que essa não foi a sua primeira escolha profissional. A ideia de que aqueles alunos não teriam conhecimentos básicos para a disiciplina o assustava. "Vou colocar uma equação e ninguém vai saber o que é", pensava.

Aldemir conta que tornar-se professor do EJA não foi uma escolha inicial, mas um desafio que surgiu no início de sua carreira, e que o professor aceitou: "Eu entrei de cabeça”, contou.

No entanto, esse medo inicial foi superado com a ajuda de uma colega da época, de nome Ângela, que o ajudou a entender a "outra realidade" da EJA. "Eu entrei de cabeça", contou.

Aspas

Ela disse 'meu filho, não se preocupe com isso. A realidade da EJA é uma realidade totalmente diferente”

Aldemir Júnior, professor de matemática
Na foto, o professor de matemática Aldemir Junior
Na foto, o professor de matemática Aldemir Junior | Foto: Ana Albuquerque / Ag. A TARDE

“Me identifico com eles”

Diferente de Aldemir, a professora Namara Santos sempre soube que queria a EJA. Há 12 anos trabalhando como professora da educação municipal de Salvador, atualmente ela dá aula na etapa I da EJA, que foca na alfabetização e letramento, e é equivalente ao primeiro ao quarto ano do ensino fundamental convencinal.

“Desde quando eu ingressei na faculdade foi uma modalidade que me instigou”, conta a professora. Ela destaca ainda que se identifica muito com o público, que é, em sua grande maioria, formado por mulheres, mães solo e pessoas negras. “São pessoas pelos mais diversos motivos, inclusive pelas barreiras sociais.", conta.

Aspas

São pessoas que querem vencer justamente essas barreiras, né?

Namara Santos, alfabetizadora
Na foto, a alfabetizadora Namara Santos
Na foto, a alfabetizadora Namara Santos | Foto: Ana Albuquerque / Ag. A TARDE

A professora conta que o machismo está entre as principais razões para as mulheres abandonarem os estudos. "Muitas mulheres eram proibidas a frequentar escola porque os pais achavam que iriam encontrar ou fazer cartas para os namorados", relata.

Somado a esse fator, a necessidade de trabalhar para ajudar nas despesas de casa também contribuía para esse cenário. Namara destaca que as alunas são pessoas que, acima de tudo, desejam superar essas barreiras e vencer, e que isso é o que mais a cativa no trabalho.

Estudantes chegam com bagagem

Ao contrário do ensino regular, que segue um cronograma com conteúdo programático rígido,a EJA exige flexibilidade e foco na realidade do aluno. “É óbvio que vai existir o planejamento, mas a gente vai trabalhar muito mais com a realidade do aluno do que com a preocupação de estar trabalhando o com os objetivos daquele segmento”, afirma o professor Aldemir.

A metodologia do professor adapta o ensino da matemática ao dia a dia dos estudantes, tornando-o relevante e atrativo. “Quando estava ensinando porcentagem pedi que eles touxessam algum cartax com aquele símbolo [%]”, contou.

O professor adapta os exemplos matemáticos às diferentes realidades e experiências dos estudantes em sala de aula:

  • Para pedreiros: ensina perímetro e área utilizando exemplos de construção.
  • Para vendedores de comida: aborda frações, razão e proporção com receitas e porções.
  • Para conceitos como porcentagem e decimal: utiliza encartes de supermercado, descontos, juros de empréstimos e até discussões sobre apostas online.

O objetivo é dar significado à matemática, mostrando como ela é uma ferramenta essencial em suas vidas e trabalhos. “Você trabalha com a realidade do outro. Com o que aquele aluno da EJA está inserido. A aula termina sendo mais atrativa, mais interessante.”

Aldemir tornou-se professor quando tinha 19 anos
Aldemir tornou-se professor quando tinha 19 anos | Foto: Ana Albuquerque / Ag. A TARDE

Já a professora Namara utiliza métodos interdisciplinares (e não infantilizantes), incorporando referências culturais e histórias pessoais para promover a cidadania. Ela explica que, para atender à diversidade de idades, histórias e níveis de conhecimento dos estudantes, ela busca conhecer o aluno.

Aspas

Eles não chegam vazios de conhecimento

Namara Santos

A professora ensina com base no respeito e cidadania, deixando claro que aquelas pessoas jamais devem ser infantilizadas. “Não dá pra pegar uma mesma atividade que você trabalha com uma turma de educação infantil ou do ensino fundamental para trabalhar com o adulto.", afirma.

A alfabetizadora leciona com atividades diversificadas, considerando os diferentes níveis de letramento, desde quem já tem algum conhecimento, até quem não sabe ler nem escrever. Assim como Aldemir, ela também prioriza os interesses dos alunos e desenvolve sua capacidade baseada principalmente no letramento racial.

Professora sempre quis trabalhar com o EJA
Professora sempre quis trabalhar com o EJA | Foto: Ana Albuquerque / Ag. A TARDE

Ela contou que utiliza textos autorais sobre teóricos e personalidades negras, como Milton Santos e Juliano Moreira, para trabalhar interpretação de texto e outros conteúdos de forma interdisciplinar.

Ela relembrou uma atividade passada no Dia da Mulher Negra, celebrado em julho. Na ocasião, ela utilizou exemplos contemporâneos como a jornalista Maju Coutinho. “Aí eu fui sentar e elaborar um trabalho sobre quem foi Maju Coutinho, como ela começou. Fiz um texto informativo [...] Eu utilizei reportagens sobre o meio ambiente e trabalhei ciências, depois peguei a quantidade de matérias para trabalhar matemática.”, contou.

O impacto do trabalho

A educação na EJA promove uma mudança significativa na vida dos estudantes que aprendem com propósito. O retorno aos estudos proporciona um avanço qualitativo imenso na vida dos alunos, preenchendo a memória, carreira e coração dos professores.

Entre tantos rostos e nomes, o professor lembra com muito carinho de algumas histórias marcantes de pessoas que realizaram seus sonhos. “Não tem coisa mais gratificante do que você ver um aluno da EJA que termina aqui, te encontra na rua e diz: ‘professor, concluí meu estudo e agora eu estou pensando em fazer um curso técnico.’ Ou então ‘eu já estou fazendo um curso técnico, ou agora eu estou fazendo uma faculdade'".

Esse foi o caso de uma de sua ex-aluna, de nome Clara, que era cuidadora de idosos, e sonhava em cursar enfermagem. “Ela tinha consciência de que, naquele momento, ela ainda não estava com o conhecimento embasado para fazer um curso de enfermagem. Então ela concluiu o ensino médio, fez um curso técnico de enfermagem e está terminando a graduação", contou professor.

Professor traz a matemática para o dia a dia dos alunos
Professor traz a matemática para o dia a dia dos alunos | Foto: Ana Albuquerque / Ag. A TARDE

O professor cita também casos em que sabe que o aluno utiliza seus ensinamentos no trabalho. Segundo ele, um ex-aluno que era ambulante o contou que usou os conhecimentos de "precificação" para abrir sua própria loja de conserto e venda de celulares. “Ele botou uma lojinha pra consertar celular, vender capa, trocar película e disse ‘Pô, professor, aquela aula que o senhor botou de precificação, eu coloco isso em prática na minha loja e é show de bola”, contou Aldemir, emocionado.

Gratidão pelos professores

O sentimento de gratidão dos alunos com os professores costuma vir para além das palavras. Muitos alunos entregam presentes singelos como forma de agradecimento pelo conhecimento adquirdo. O professor de matemática guarda carinhosamente um desses presentes, entregue por uma aluna que tinha por volta de 60 anos. Dona Maria fez a mão uma luva de cozinha para o professor. “Sempre que ia dar aula, trabalhava: ‘Hoje a gente vai fazer uma receita de bolo ou um risoto, que eu aprendi com Dona Maria.’", conta, relembrando a aula.

Leia Também:

Para Namara, o impacto da EJA para os estudantes é um avanço qualitativo imenso na qualidade de vida dos. Segundo ela, o conhecimento eleva a autoestima e os ajuda nas realizações de conquistas pessoais. “De repente tá ali com um adulto que passou a vida inteira pedindo a alguém para ler. Ou pedindo para que alguém diga assim ‘’Qual é a placa aqui desse ônibus?’ E de repente a pessoa aprende a ler", diz.

Aspas

Isso é uma elevação de autoestima imensurável

Namara Santos

Namara relata também histórias de alunos que persistiram e conseguiram ingressar na faculdade. Uma dessas alunas fez o curso de Hotelaria, e é, para a professora, é um dos grande exemplos de perseverança e foco que ela utiliza em sala de aula. “Ela era aquele tipo de pessoa que, mesmo depois de ter tido dois filhos, após todas as tarefas domésticas, colocava o fone de ouvido e ia ouvindo vídeo-aula pelo celular", contou.

A professora relata que quando a aluna chegou à sala de aula, já possuía um repertório acima da média. “Quando ela chegou lá na escola, eu disse: você deixou de estudar por muito tempo, mas você tem um conhecimento que está além do que está aqui nos registros.”

Namara ressalta a força desses indivíduos que, mesmo em contextos de violência e periferia, desafiam o ceticismo social e acreditam em seus sonhos. “Imagine você viver nesse contexto, e você sai da sua casa todos os dias, à noite, para persistir um sonho, quando uma sociedade está dizendo que para você já basta. [..] que já não tem expectativa pra você”; conta emocionada.

Aspas

É como se eles estivessem numa sala escura e de repente por muito tempo alguém acendesse uma luz.

Namara Santos
Uma das alunas mais antigas que a professora Namara teve, foi uma senhora de 80 anos
Uma das alunas mais antigas que a professora Namara teve, foi uma senhora de 80 anos | Foto: Ana Albuquerque / Ag. A TARDE

Para os dois professores, ver os alunos concluírem e buscarem sonhos maiores é a maior gratificação.

O EJA como campo de felicidade

A Educação de Jovens e Adultos é uma modalidade com muitos obstáculos, tanto para os queensinam quanto para os que aprendem. Uma das alunas da escola Hildete Bahia de Souza, Julieta Rodrigues, de 80 anos, compartilhou sua trajetória de vida, educação interrompida e o recente retorno aos estudos através da EJA.

Nascida em Ipiaú, no interior da Bahia, mudou-se frequentemente com a mãe, descrita como “quase cigana”, por cidades como Itapetinga e Conquista antes de se estabelecer em Salvador por volta dos 11 anos de idade.

Devido a tantas mudanças, sua educação foi pontual, estimando ter estudado até os 15 anos. Após se estabelecer, casou-se aos 21 anos. O momento trouxe um grande marco para sua educação: ao casar, não sabia assinar o próprio nome.

Aspas

Aprendi a assinar meu nome porque ele disse assim: ó, pra casar tem que assinar

Julieta Rodrigues, estudante de 80 anos
Na foto, aluna Julieta Santos, de 80 anos
Na foto, aluna Julieta Santos, de 80 anos | Foto: Ana Albuquerque / Ag. A TARDE

Ela precisou de 2 a 3 meses de aulas com a sua madrinha para aprender a assinar e poder realizar o casamento. Após aprender a assinar, parou de estudar novamente. Teve três filhos e ficou viúva pós a pandemia do Covid. Entre idas e vindas, a senhora voltou a estudar brevemente quando estava grávida do seu filho caçula, por volta de 1975, quando tinha 29 anos. Após o nascimento do filho, interrompeu o estudo outra vez.

Agora, com os filhos adultos e já viúva, a solidão em casa foi um gás para voltar a estudar. Julieta garante que o retorno à EJA a tornou mais ativa e socialmente engajada, preenchendo o vazio sentido após a viuvez. Ela diz que antes assinava seu nome "comendo letra", eagora, com a prática, consegue escrever corretamente. Para ela, a EJA se tornou um lugar onde ela encontra outras pessoas, brinca e se sente parte de uma comunidade, o que é fundamental para ela, que não gosta de morar sozinha.

A luta dos professores pela educação

O professor Aldemir conta que houve uma queda drástica no número de alunos na EJA: de 12 salas cheias para apenas 3 na escola onde ele leciona. Ele atribui essa diminuição à desvalorização da EJA pelas gestõs públicas, sejam municipais ou estaduais . “Há essa dificuldade do governo de fechar uma escola, fechar outra... Não tem uma divulgação, o governo não tem o interesse que essa população que saiu da escola há um tempo regresse", desabafou o professor de matemática.

A equipe da escola precisa criar suas próprias campanhas de incentivo com carro de som, faixas, cestas básicas para alunos que trazem novos matriculados... tudo isso devido à ausência de apoio governamental para trazer esse público. Aldemir e Namara reforçam que a EJA é uma "reparação social" crucial. Sua existência demonstra falhas do governo e do sistema educacional em apoiar os jovens em sua idade regular de aprendizado.

Aldemir pede ”que o governo tenha um olhar mais crítico, implementando políticas de incentivo para que esses jovens, adultos e idosos possam "'voltar a sonhar'", contou. Apesar dos desafios, Aldemir adora lecionar naEJA, e afirma que ensina menos e aprende mais com as histórias e sonhos de cada aluno. E Namara garante: “É o que me fascina”.

*Sob a supervisão da editora Amanda Souza

exclamção leia também