Marceneiros seguram tradição pra botar comida na mesa em Salvador

No dia 19 de março, profissionais destacam importância do ofício para a sociedade

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SERVIÇO DE OURO - 19/03/2026, 07:30 - Jaísa de Almeida

Trabalhar com madeira vai muito além de montar móveis. A rotina de um marceneiro envolve técnica, paciência e um olhar atento aos detalhes que fazem diferença no resultado final. Em Salvador, a profissão segue presente em diversos bairros, principalmente como uma fonte de sustento para muitas famílias por meio da criatividade que dá forma a casas, escritórios e sonhos. Nesta quinta-feira (19), quando se celebra o Dia do Marceneiro, o ofício entre aqueles que vivem do serviço manual ganha destaque no MASSA!.

No bairro Ribeira, a história de Lucas Nery (@lucas7nery) é um exemplo de como a marcenaria atravessa gerações. Filho único, ele cresceu dentro da oficina do pai, na região Marechal Rondon, acompanhando de perto o corre da profissão. A trajetória que, por muito tempo, foi nas ruas como taxista, se modificou com o retorno ao que sempre esteve presente na sua vida — mesmo local onde hoje toca o negócio da família, que já soma mais de 35 anos de história.

“Tô na área, na realidade, desde quando eu nasci. Já nasci no berço de marceneiro. Desde pequeno, acompanhava os funcionários do meu pai e via ele também em casa, sempre envolvido nos projetos. Aí comecei a criar desejo pela profissão. Fiz outras coisas e gostei, mas o DNA chamava para voltar para a marcenaria”, conta em entrevista.


Lucas herdou a marcenaria de seu pai, Renildo Nery
Lucas herdou a marcenaria de seu pai, Renildo Nery | Foto: Shirley Stolze/Ag. A Tarde

A rotina é “pauleira”. Entre prazos apertados, clientes exigentes e a necessidade de se virar nos trinta, Lucas aponta que o trabalho exige jogo de cintura e atenção constante. Mesmo assim, segundo ele, serviço é o que não falta no dia a dia. O que, por outro lado,”pega mesmo” é a dificuldade de encontrar gente disposta a aprender e permanecer na área:

“Hoje a gente sente falta de gente querendo seguir essa carreira — e isso não é só na marcenaria, em vários serviços acontece a mesma coisa. Os jovens estão procurando outros caminhos, e acaba ficando difícil achar mão de obra. Mas, graças a Deus, o serviço sempre aparece, justamente porque falta gente pra fazer.”

Aspas

O DNA chamava para voltar para a marcenaria.

Além do trampo na oficina, o marceneiro também encara a responsa em casa. Pai de uma jovem de 18 anos e na espera de mais um filho, ele vê na profissão uma base firme para sustentar a família e organizar a vida dentro de casa. Para o homem, o trabalho do marceneiro aparece em detalhes que muita gente nem percebe, mas fazem toda a diferença no cotidiano.


Na foto: Lucas Nery, marceneiro
Na foto: Lucas Nery, marceneiro | Foto: Shirley Stolze/Ag. A Tarde

“Vejo a marcenaria como algo que sustenta o lar de verdade. É ela que dá forma aos ambientes, organiza a vida e traz praticidade. Quando a gente entra numa casa montada, com tudo no lugar, tem muito do nosso trabalho ali. É o tipo de serviço que muita gente só percebe quando falta”, analisa.

Entre gestão e bancada, o ofício segue vivo

A realidade do setor também aparece na trajetória da empresária e estudante de arquitetura, Franciane Ramos, que está há 15 anos na área. Ela começou ao lado do marido e hoje comanda a própria empresa, a AF Projetos (@afprojetosmp), acompanhando de perto tanto a parte administrativa quanto o serviço na prática. Mesmo na gestão, ela relata à reportagem que segue colocando a mão na massa no dia a dia.

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“Atualmente minha área é mais supervisionar como está o serviço, ir na casa do cliente, filmar, trabalhar nas redes. Mas eu sou muito ativa ainda na marcenaria, vou lá e pego no batente”, explica.


Mesmo que na aréa administrativa, Fran põe a mão na massa
Mesmo que na aréa administrativa, Fran põe a mão na massa | Foto: Shirley Stolze/Ag. A Tarde

À frente de uma equipe com mais de 15 marceneiros, lá no bairro Itapuã, ela acompanha o crescimento da empresa e reforça a importância do trabalho desenvolvido dentro das oficinas. Para Fran, como é carinhosamente chamada, o resultado final vai além da entrega e interfere diretamente na forma como as pessoas utilizam seus espaços no dia a dia:

“A marcenaria, eu digo que é um ouro na vida das pessoas. Eu acredito muito na marcenaria hoje como algo muito viável para a vida de todos. Clientes que têm um porte mais alto, clientes que têm um porte mais baixo — a gente trabalha em prol disso. A AF Projetos foi criada para realizar sonhos.”


Na foto: Fran e sua equipe
Na foto: Fran e sua equipe | Foto: Shirley Stolze/Ag. A Tarde

Desinteresse dos novinhos

Apesar do crescimento e das oportunidades, um ponto chama atenção de quem está no ramo: a ausência de jovens profissionais. Segundo quem entende da coisa, está cada vez mais difícil encontrar gente que queira aprender o ofício e seguir na profissão, o que impacta diretamente o setor.

Aspas

É difícil encontrar jovens que tenham interesse em aprender.

“Percebo que hoje é difícil encontrar jovens que tenham interesse em aprender. A marcenaria está sendo um pouco esquecida pelos jovens. É uma área muito boa, onde a pessoa tem uma profissão”, diz. Logo, ela é complementada por Lucas: “Atualmente, os jovens não querem mais fazer parte de uma profissão como a marcenaria”, afirma.

Fazer a moeda ainda é possível

Mesmo diante desse cenário, a marcenaria ainda é vista como uma oportunidade concreta de geração de renda. A empreendedora destaca ao MASSA! que o aprendizado do ofício ainda pode abrir portas para homens e mulheres, com possibilidade de crescimento financeiro e de mudança de vida.

“É uma área em que a pessoa consegue agregar valor ao seu trabalho, entende? Se ela aprender e tiver essa oportunidade — tanto homens quanto mulheres podem se dar bem. Eu conheço mulheres que trabalham como marceneiras mesmo. Dá para lucrar bastante”, completa Franciane.

Imagem ilustrativa da imagem Marceneiros seguram tradição pra botar comida na mesa em Salvador
Foto: Shirley Stolze/Ag. A Tarde

No fim das contas, a marcenaria em Salvador é muito mais que um ofício: é a prática, a herança e a criatividade que se vê nos cantos da cidade. Entre serragem, ferramentas e projetos sob medida, o 19 de março reforça a importância de uma profissão que, segundo os trabalhadores ouvidos pela reportagem, segue essencial, mesmo diante dos desafios — capaz de garantir sustento, identidade e manter viva uma prática que atravessa gerações.

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