
Surgida na Europa medieval, entre os séculos XII e XIV, a alfaiataria atravessou gerações e chegou aos dias atuais como uma atividade ligada ao trabalho sob medida e à confecção de peças de vestuário. Neste domingo (6), quando é celebrado no Brasil o Dia do Alfaiate, a profissão encontra em Salvador um cenário marcado pela resistência de trabalhadores que ainda vivem do ofício, mas também pela dificuldade de formar novos profissionais.
Na capital baiana, máquinas de costura continuam funcionando em ateliês e pequenos estabelecimentos espalhados por diferentes bairros. Por trás delas estão trabalhadores que aprenderam a profissão com familiares, em cursos ou dentro de fábricas e oficinas. O problema é que essa transmissão de conhecimento não tem acompanhado o mesmo ritmo das transformações no mercado de roupas.
A preocupação não está relacionada apenas à quantidade de clientes. Para os profissionais ouvidos pelo MASSA!, uma das principais questões para o futuro da atividade é encontrar pessoas interessadas em aprender. Sem novos trabalhadores para assumir o lugar daqueles que estão há décadas no setor, técnicas e conhecimentos acumulados ao longo de gerações podem deixar de ser repassados.

O próprio nome da profissão carrega uma história antiga. Em português, “alfaiate” deriva do termo árabe al-khayyát. O trabalho envolve etapas como tirar medidas, cortar tecidos, construir a modelagem, montar a peça e realizar ajustes para que a roupa tenha o caimento adequado ao corpo, especialmente peças sociais, como ternos, paletós e calças.
Os números em Salvador
Segundo informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2022, Salvador reunia cerca de 7.141 alfaiates, modistas, chapeleiros e peleteiros. O levantamento registrava ainda 69 trabalhadores qualificados da preparação da confecção de roupas e 1.229 costureiros, bordadeiros e profissionais de atividades semelhantes.
Em 2026, não há um levantamento atualizado que mostre quantos alfaiates continuam trabalhando na capital baiana. Por isso, não é possível afirmar, apenas a partir dos números disponíveis, que a profissão esteja perto de desaparecer.
Os relatos de quem permanece no setor, entretanto, ajudam a identificar alguns dos obstáculos encontrados atualmente. Entre eles estão:
▶️ A redução da procura por determinadas peças formais;
▶️ A associação da profissão a gerações mais antigas;
▶️ O desconhecimento do público sobre o trabalho realizado.
O trabalho por trás da roupa
Cheyenne O'Reilly há aproximadamente dez anos mantém um ateliê no bairro do Comércio, em Salvador. Nascida no Rio de Janeiro, ela se mudou para a Bahia ainda criança, aos 5 anos, e cresceu em Camaçari, na Região Metropolitana (RMS).

A aproximação com a área aconteceu décadas atrás, durante um curso de modista realizado no estado de Minas Gerais. A formação incluía conhecimentos de alfaiataria, mas, naquele momento, Cheyenne não pretendia transformar aquilo em profissão.
“Fiz um curso de modista em Minas Gerais há mais de 30 anos. Nesse curso tinha alfaiataria. Naquela época, falei: 'Eu nunca vou trabalhar com isso' e, há 15 anos, eu mudei de ideia. Tô atuando como alfaiate há mais ou menos uns 10 anos como alfaiate aqui em Salvador.”, explica para a reportagem.
O trabalho ganhou espaço na rotina dela depois de uma máquina de costura que pertencia à mãe ser incorporada à atividade. Desde então, Cheyenne passou a atuar com peças que exigem medidas individuais e conhecimento técnico para chegar ao resultado esperado.

Para ela, parte da dificuldade está em fazer o cliente entender que a alfaiataria não se resume à costura. A diferença entre as atividades, segundo a profissional, ainda é pouco conhecida por parte do público.
“A principal barreira é o desconhecimento. Depois do desconhecimento vem o preconceito. Porque, por exemplo, quando eu falo assim: "Ah, eu sou alfaiate", me respondem: "Ah, aquele negócio com costura, né? Você é costureira". E não é isso. A alfaiataria, ela é a primeira escola, é a mãe da alta costura.”

A presença feminina também rompe com uma associação histórica da profissão aos homens. Cheyenne trabalha em um segmento no qual, durante muito tempo, a figura do alfaiate esteve relacionada quase exclusivamente ao público masculino.
Ela explica que o trabalho sob medida envolve uma série de características que diferenciam esse tipo de produção de roupas fabricadas em escala. O preço final, por exemplo, considera fatores como material, construção da peça e tempo dedicado ao serviço.
“Sabe por que é tão diferente o preço? Porque existe a questão do sob medida, do excelente caimento, do tipo de material, que é totalmente diferente. Então, a costura sob medida tem essa característica da exclusividade, do feito para você, todas as curvinhas do seu corpo, respeitando, deixando você mais bonita, valorizando seu perfil”, detalha.
Menos roupa social
A transformação no modo de se vestir também chegou aos ateliês. Peças formais, que durante muito tempo fizeram parte da rotina de trabalho de muitos consumidores, passaram a disputar espaço com roupas mais casuais.
Essa mudança afeta diretamente profissionais especializados em determinados tipos de vestuário. Em bairros onde a procura por roupas sociais é menor, manter um estabelecimento voltado para esse público pode se tornar uma tarefa ainda mais difícil.
É o caso de Silvano França, que trabalha como alfaiate há 22 anos e mantém seu ateliê no bairro do Cabula. A história dele com a profissão começou em um momento de dificuldade financeira e desemprego.

Quando o primeiro filho nasceu, Silvano ficou sem trabalho. Foi a irmã quem ensinou os primeiros pontos da costura. A partir daí, ele começou produzindo peças íntimas e passou por diferentes fábricas antes de avançar para outras áreas da confecção.
“Escolhi essa profissão devido à dificuldade. Eu fiquei algum tempo desempregado quando o meu primeiro filho nasceu. E minha irmã que me ensinou a costurar. E aí eu comecei costurando peça íntima, depois fui tendo oportunidades e interesse de aprender mais. Trabalhei em muitas fábricas inicialmente.”
A experiência adquirida ao longo dos anos permitiu que ele montasse os próprios negócios. Ao lado da esposa, Adriana, criou há 13 anos uma loja voltada para produtos da área da saúde, incluindo jalecos, roupas cirúrgicas e fardas para clínicas.

A boutique chamada de Luzzinande, também administrada pelo casal, está perto de completar quatro anos. Mesmo com diferentes frentes de atuação, Silvano afirma que a procura por roupas sociais continua sendo um dos pontos mais complicados do negócio.
“Muita dificuldade. O estilo de roupa que eu vendo é mais formal, mais social e é muito difícil. Já pensei em desistir várias vezes, embora as roupas sejam de muito bom gosto, mas hoje eu acho que as pessoas querem se vestir de forma diferente do que eu proponho”
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A mudança no consumo, no entanto, é apenas uma parte da preocupação. Para Silvano, a idade dos profissionais que permanecem na área também revela um problema para o futuro.
Onde estão os jovens?
A renovação da mão de obra aparece como um dos principais desafios apontados pelos profissionais. O aprendizado da alfaiataria costuma acontecer por meio da prática e pode levar anos até que o trabalhador domine todas as etapas da produção.
Silvano observa que a atividade passou a ser associada a pessoas mais velhas. Essa percepção, segundo ele, contribui para afastar jovens que poderiam aprender o ofício e construir uma trajetória profissional no segmento.
“Na verdade, a alfaiataria é uma profissão que está ficando cada dia mais rara, mais difícil de encontrar pessoas que se identifiquem com a área, porque ela é vista como uma profissão de velho. A alfaiataria hoje é vista como uma profissão de pessoas mais idosas.”

O envelhecimento da categoria, por si só, não significa que a profissão esteja destinada a desaparecer. Mas a ausência de novos aprendizes pode reduzir gradualmente o número de pessoas capacitadas para executar determinadas técnicas.
Nesse ponto, a família de Silvano representa uma exceção ao cenário descrito por ele. Pai de sete filhos, o alfaiate tem quase todos os descendentes trabalhando em seu ateliê no Cabula.
Um deles é Marcos França, filho mais velho. Ele conta que começou a aprender observando o pai trabalhar e decidiu se aproximar da atividade para ajudá-lo, especialmente durante os períodos em que Silvano permanecia no ateliê até a madrugada.

Atualmente, Marcos soma nove anos de experiência com costura. Para ele, a profissão oferece possibilidades de trabalho, embora ainda exista pouca adesão entre pessoas mais jovens.
“É o nosso legado. A gente cresceu com isso. Eu mesmo tenho 9 anos de costura e é uma profissão que abre muitas oportunidades, mas atualmente há uma grande diferença, porque é uma profissão assim que os jovens não se interessam muito. Dificilmente você vê um jovem trabalhando dentro disso.”
Profissão passada adiante
A experiência de Marcos mostra como a transmissão familiar pode funcionar como uma das portas de entrada para a atividade. Nesse caso, o aprendizado não começou em uma sala de aula, mas no próprio espaço de trabalho.
Esse modelo, contudo, não alcança todos os interessados e não resolve sozinho a dificuldade de renovação apontada pelos profissionais. Para ampliar a entrada de novos trabalhadores, o conhecimento da atividade precisa chegar também a pessoas que não possuem familiares no setor.

Silvano considera que ensinar os filhos foi uma maneira de transformar a própria experiência profissional em uma possibilidade para a família. Depois de ter encontrado na alfaiataria uma saída para o desemprego, ele passou a enxergar o ofício como uma alternativa de trabalho para os descendentes.
“A importância de manter viva é porque é uma profissão tão antiga, é como se fosse assim uma raridade, né? Eu, por exemplo, jamais imaginaria que eu ia ser um alfaiate. Mas, diante da dificuldade que eu enfrentei, foi uma profissão que me salvou. Depois que eu aprendi a costurar, eu nunca mais fiquei desempregado. E eu passo isso para os meus filhos. É uma forma de empreender.”, comenta.
A continuidade também é um objetivo de Marcos. Mesmo diante da dificuldade de atrair novos trabalhadores, ele pretende manter o conhecimento circulando dentro da família e repassá-lo caso as próximas gerações demonstrem interesse.
“A gente tem que dar continuidade, avançar, crescer, a tendência é sempre crescer. Um dia, meus futuros filhos, netos, podem querer aprender e, se tiver como ensinar, eu vou fazer”, complementa.
O futuro da alfaiataria
O cenário atual de Salvador não permite cravar que a alfaiataria esteja perto de ser extinta. Não existem dados recentes que indiquem quantos profissionais deixaram a atividade nos últimos anos nem uma projeção capaz de apontar quando isso poderia ocorrer.
O que existe são sinais de transformação. A procura por roupas formais mudou, a produção industrial ampliou a oferta de peças prontas e a profissão passou a disputar espaço com novas formas de consumir a moda.
Ao mesmo tempo, ateliês continuam funcionando e profissionais seguem encontrando clientes interessados em roupas ajustadas às próprias medidas, como acontece nos bairros do Comércio e do Cabula.
Então, o que é possível notar até aqui é que, na capital baiana, a alfaiataria não desapareceu. Ela mudou de tamanho, de público e de espaço no mercado. O futuro, porém, passa por uma pergunta que ainda não tem resposta: haverá novos alfaiates para ocupar essas máquinas quando os atuais aposentarem suas agulhas?

