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Patrimônio ainda invisível - - Jaísa de Almeida

Benzedeiras unem peso emocional de acolher com luta por ancestralidade

Profissionais de diferentes idades esclareceram fatos à reportagem

As mãos que seguram galhos de arruda, folhas de guiné ou alecrim carregam muito mais do que plantas medicinais. Ao longo de gerações, elas também guardaram orações, ensinamentos e experiências transmitidos pela convivência entre mães, avós e filhas, formando um conhecimento que resiste ao tempo e permanece presente em diferentes regiões do país. Em muitas comunidades, as benzedeiras são procuradas por pessoas que buscam aliviar dores físicas, emocionais e espirituais por meio da fé, da escuta e da tradição.

Em um cenário marcado pelos avanços da medicina ocidental e da tecnologia, o benzimento ocupa um lugar de confiança para quem acredita na força dos saberes populares. Os atendimentos reúnem rezas, banhos preparados com ervas, chás e rituais que atravessaram décadas sem perder espaço na memória coletiva. Para muitos brasileiros, em especial os baianos, recorrer a uma benzedeira representa também encontrar alguém disposto a ouvir histórias de sofrimento, perdas, conflitos familiares e angústias que, nem sempre, encontram acolhimento em outros espaços.

A rotina dessas mulheres, entretanto, revela uma questão pouco discutida. Enquanto oferecem conforto a pessoas que chegam fragilizadas, elas próprias convivem diariamente com relatos de dor, adoecimento, luto e vulnerabilidade emocional. O contato permanente com essas experiências faz surgir uma pergunta: quem oferece apoio àquelas que dedicam a vida a cuidar dos outros?

A resposta, no entanto, não é simples e passa por uma tradição que acompanha a formação cultural brasileira. O benzimento reúne práticas construídas a partir do encontro entre conhecimentos indígenas, africanos e europeus, adaptados às realidades de cada região ao longo dos séculos. Em comum, essas diferentes influências compartilham a crença de que o cuidado pode envolver o corpo, a mente e a dimensão espiritual, sempre sustentado pela fé de quem benze e pela confiança daqueles que procuram ajuda.

Nas casas onde o benzimento continua sendo praticado, o conhecimento não costuma estar registrado em livros ou manuais. Ele vive na oralidade, na observação da natureza e na experiência acumulada ao longo dos anos. Cada folha escolhida, cada oração e cada gesto carregam significados construídos por sucessivas gerações, transformando o corpo da benzedeira em um arquivo desses saberes tradicionais e as plantas ocupam um lugar fundamental nesse processo.

O uso de folhas é importante durante o benzimento
O uso de folhas é importante durante o benzimento | Foto: Ana Albuquerque/Ag, A TARDE

Além das propriedades conhecidas pela medicina popular, elas fazem parte de rituais cercados por simbolismos que envolvem a escolha das espécies, a forma de preparo e os cuidados após o atendimento. O uso desses elementos naturais acompanha uma prática que busca tratar males como quebranto, mau-olhado, espinhela caída e vento caído.

Muito embora esses conhecimentos tenham sido preservados principalmente pela tradição oral, eles também passaram a despertar o interesse da comunidade científica. Desde a década de 1970, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a medicina tradicional como um conjunto de práticas e experiências desenvolvidas por diferentes culturas para promover a saúde, prevenir enfermidades e contribuir para o tratamento de doenças físicas e mentais. O Brasil, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), é considerado país referência na incorporação das medicinas tradicionais, complementares e integrativas ao sistema público de saúde.

Apesar desse reconhecimento internacional, a realidade enfrentada por muitas benzedeiras ainda é marcada pela invisibilidade. A preocupação com esse cenário motivou a pesquisa da doutora em Ecologia Humana e Gestão Socioambiental pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Nayara Gomes. Ao investigar as práticas de benzimento em comunidades da Chapada Diamantina, a pesquisadora buscou compreender a permanência desse conhecimento, bem como a sua importância para a identidade cultural brasileira em um período de rápidas transformações sociais.

O benzimento é uma prática milenar
O benzimento é uma prática milenar | Foto: Ana Albuquerque/Ag, A TARDE

Em conversa com o MASSA!, Nayara chama atenção para a necessidade de preservar esses saberes como parte da história do país, sobretudo no Nordeste. Segundo ela, o desaparecimento gradual das práticas tradicionais compromete uma herança construída ao longo de séculos e reduz a diversidade de formas de cuidado presentes na sociedade brasileira:

"O saber de um povo é inseparável de sua cultura; sem essa conexão, torna-se como uma árvore sem raízes, fadada a enfraquecer e desaparecer. O benzimento, enquanto prática ancestral de cura, representa uma insurgência contra a homogeneização dos sistemas de saúde e a marginalização dos saberes tradicionais."

Dra. Nayara estuda a prática do benzimento
Dra. Nayara estuda a prática do benzimento | Foto: Arquivo pessoal

A pesquisadora afirma que o processo de desvalorização do benzimento acompanha mudanças culturais que privilegiam determinados modelos de conhecimento em detrimento de outros, contribuindo para o esquecimento de práticas ancestrais ainda presentes em diferentes comunidades.

“O apagamento do benzimento está diretamente ligado ao processo de homogeneização cultural imposto por uma visão eurocêntrica da medicina e da espiritualidade. O desprezo por essas práticas contribui para a perda de conhecimentos tradicionais, empobrecendo o repertório cultural do país e limitando as opções de cuidado disponíveis à população”, reflete.

Sua tese, intitulada "Tecendo olhares sobre a religiosidade nas práticas de benzimento em comunidades do Parque Nacional da Chapada Diamantina", reuniu entrevistas com 28 praticantes nos municípios de Andaraí, Lençóis e Mucugê. Os dados mostram que 71,43% dos entrevistados eram mulheres, enquanto 28,57% eram homens, resultado que reforça o protagonismo feminino observado em outras pesquisas realizadas no Nordeste.

De mãe para filha

Os números ajudam a explicar por que tantas comunidades associam o benzimento à figura das mulheres. São elas que, na maioria das vezes, preservam os rituais, conhecem as plantas, transmitem as orações e acalentam aqueles que sofrem. Entre essas guardiãs da tradição estão histórias como a de Maria da Conceição Figueiredo, carinhosamente chamada de dona Rinha. Nascida e criada no bairro de Itapuã, ela relata ao MASSA! que recebeu da própria mãe a responsabilidade de continuar um legado construído ao longo de gerações.

Dona Rinha herdou os dons da mãe
Dona Rinha herdou os dons da mãe | Foto: Ana Albuquerque/Ag. A TARDE

Pouco antes de morrer, a matriarca escolheu a filha para ocupar seu lugar, convencida de que ela reunia as condições necessárias para seguir acolhendo as pessoas que recorriam à família em busca de ajuda espiritual: “Ela me chamou um dia e falou assim: ‘Olha, já está perto de eu fazer minha viagem, então vou escolher você para seguir com o meu trabalho’. Ela dizia que eu tinha muita força, que tinha certeza de que ia deixar o trabalho em boas mãos”, diz à reportagem.

A decisão mudou os rumos da vida de dona Rinha. Para assumir a missão, ela abriu mão de outros projetos e passou a dedicar boa parte da rotina ao atendimento de pessoas que chegam à sua casa em busca de acolhimento. O compromisso, segundo ela, vai além da realização das rezas. Cada atendimento exige tempo para ouvir, compreender o problema de quem procura ajuda e identificar quais cuidados podem ser oferecidos.

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Ao mesmo tempo em que mantém viva uma tradição ancestral, dona Rinha também convive com situações que refletem mudanças na forma como parte da sociedade enxerga o benzimento. Segundo ela, ainda é comum encontrar pessoas que associam a prática a interpretações equivocadas ou a confundem com manifestações religiosas que nada têm relação com o que é feito. A desinformação, afirma, continua alimentando preconceitos que acompanham quem dedica a vida a esse tipo de cuidado:

“Eu não dou muito valor para essas coisas, mas algumas pessoas pensam que benzer e rezar é macumba. Não tem nada a ver. Eu já falei várias vezes que a Palavra de Deus não faz mal nenhum. Vocês vão ver, não tem nada a ver com macumba. Eu, inclusive, rezo para mãe de santo, evangélico, católico."

Quem benze também sente

A declaração revela uma característica comum entre muitos praticantes do benzimento. A fé que orienta o atendimento não estabelece barreiras entre religiões. Pessoas de diferentes crenças procuram as benzedeiras em busca de conforto, e o acolhimento acontece sem distinção. O vínculo é construído pela confiança, independentemente da tradição religiosa de quem chega à porta.

Esse contato permanente com histórias de sofrimento, no entanto, também exige um cuidado voltado para quem benze. A cada atendimento, ela escuta relatos que deixam marcas emocionais. Aprender a lidar com esse volume de experiências tornou-se uma necessidade para continuar exercendo a prática sem comprometer a própria saúde.

Dona Rinha conta que, ao longo dos anos, desenvolveu maneiras de estabelecer limites entre o sofrimento das pessoas atendidas e a própria vida. A oração, presente em todos os atendimentos, também funciona como um instrumento de proteção para evitar que a dor do outro se transforme em adoecimento.

Aspas

Eu sei separar, não absorvo muito para mim, senão eu vou adoecer, porque é cada caso que vem aqui. Eu recebo com muito carinho, vejo a necessidade, vejo o lado emocional da pessoa, mas sempre oro para me proteger, oro muito.

conta.

Entre as praticantes que buscam conciliar a tradição com novas formas de compreender o cuidado está Mona Soares. Farmacêutica e moradora do bairro de Brotas, em Salvador, ela representa uma geração mais jovem de benzedeiras e conta que ainda existe a ideia de que essa prática estaria ligada apenas às pessoas mais velhas.

Benzedeira Mona
Benzedeira Mona | Foto: Ana Albuquerque/Ag. A TARDE

O interesse pelo benzimento, como descreve, surgiu a partir da sensibilidade espiritual e da curiosidade em compreender o uso das ervas nos processos de cura. Porém foi a formação como farmacêutica ampliou esse interesse e levou Mona a estudar diferentes plantas utilizadas nos rituais. Mais tarde, decidiu fazer um curso específico sobre benzimento, experiência que marcou o início dos atendimentos.

“Eu estudava o uso das ervas no benzimento, aí eu fiz um curso sobre benzer. Eu comecei a benzer pessoas da minha família, principalmente os filhos das minhas amigas. Quando ficava doente, elas pediam: ‘Mona, benze meu filho, tá doente, não sei o quê’”, relata.

O futuro dessa tradição preocupa

O contato com outras benzedeiras também fez Mona perceber que a continuidade dessa tradição enfrenta desafios cada vez maiores. Ao longo dos anos, ela acompanhou a morte de mulheres que dedicaram décadas ao benzimento sem conseguir transmitir esse conhecimento para os próprios filhos. Em muitos casos, os descendentes preferiram seguir outros caminhos profissionais e não demonstraram interesse em assumir a responsabilidade de manter os rituais.

A situação acendeu um alerta sobre a preservação desse patrimônio imaterial. Para Mona, o benzimento dificilmente desaparecerá completamente, mas poderá se tornar cada vez mais raro caso novas gerações deixem de aprender e praticar os conhecimentos transmitidos pelos mais velhos.

Aspas

Eu sempre penso: ‘Nossa, e se isso acabar?’. Mas, como é ancestral, não vai acabar. Porém, vai se tornar cada vez mais raro, se as pessoas não forem fazendo. Vai haver um abandono.

complementa.

A preocupação manifestada pela farmacêutica encontra respaldo nas pesquisas sobre o tema. Em sua tese, a Dra. Nayara aponta que a urbanização, a negação dos jovens, as mudanças nas formas de religiosidade e o enfraquecimento dos vínculos comunitários contribuem para reduzir a transmissão desses saberes. Quando uma benzedeira morre sem deixar sucessores, parte desse conhecimento também corre o risco de desaparecer.

E a possibilidade de ver esse conhecimento se tornar cada vez mais raro também influencia a forma como a benzedeira Mona encara o próprio trabalho. O compromisso, segundo explica ao MASSA!, não está ligado à promessa de curas ou soluções imediatas, mas à construção de um espaço em que as pessoas possam encontrar naquele momento uma oportunidade de reorganizar os próprios sentimentos.

“Eu sinto como uma missão de vida, algo bom. Eu me sinto bem quando termino de benzer, porque eu sempre digo assim: olha, eu não garanto cura, eu não garanto que você vai passar no concurso, eu não posso garantir nada disso. Mas uma coisa eu posso garantir: você vai sair melhor do que entrou.”, aponta.

Mona também é farmaceutica
Mona também é farmaceutica | Foto: Ana Albuquerque/Ag. A TARDE

A experiência relatada por Mona se alinha à compreensão de que o cuidado oferecido pelas benzedeiras ultrapassa o tratamento de enfermidades populares e envolve uma escuta atenta, mas também apresenta desafios. Mona conta que, assim como dona Rinha, aprendeu a estabelecer limites por meio da espiritualidade. Antes de iniciar cada atendimento, ela recorre às orações e reconhece que não tem controle sobre tudo o que acontece. Aceitar a própria condição humana, segundo diz, tornou-se uma forma de preservar o equilíbrio emocional para continuar exercendo a prática.

“Eu confio também muito em quem me guia. Eu sempre peço licença, eu sempre peço que os meus guias mexam só naquilo que for para o bem daquela pessoa. E aceitar que eu estou na condição humana. Eu não sou perfeita, posso cometer erros como qualquer profissional de saúde, seja da parte espiritual, seja da parte física. Mas, como eu tento fazer o meu melhor, eu entrego o resto nas mãos de Deus.”

Patrimônio ainda invisível

Histórias como as de dona Rinha e Mona mostram que, apesar de permanecer presente no cotidiano, o benzimento ainda encontra dificuldades para ocupar espaços formais de reconhecimento. A prática segue sendo mantida pela experiência, pela oralidade e pela relação de confiança construída com quem procura ajuda. Apesar disto, a atuação desenvolvida por elas permanece, em grande parte, invisível para as políticas públicas voltadas à saúde e à preservação do patrimônio cultural.

Pessoas de diferentes crenças procuram as benzedeiras em busca de conforto
Pessoas de diferentes crenças procuram as benzedeiras em busca de conforto | Foto: Ana Albuquerque/Ag. A TARDE

Atualmente não há um levantamento oficial que indique quantas benzedeiras existem na Bahia ou em Salvador, nem como esse conhecimento está distribuído pelo estado. Os registros disponíveis partem, principalmente, de pesquisas realizadas em comunidades específicas, como estudos acadêmicos voltados para determinados grupos de praticantes. A ausência de um mapeamento mais amplo impede dimensionar a presença dessas mulheres e homens que seguem exercendo o benzimento, mas também mostra como esses saberes tradicionais ainda têm pouco espaço nos registros institucionais.

Sem dados consolidados, ainda permanece uma lacuna no reconhecimento de quem mantém esses ensinamentos vivos. Sendo assim, a pergunta que conduziu esta reportagem, portanto, permanece em aberto: se essas mulheres dedicam a vida a cuidar das dores da comunidade, quem está atento às dores de quem cuida?

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