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Transtorno - 04/08/2026, 08:00

A dor que a internet não vê: a realidade de quem tem TOC

Banalização do significado do transtorno, além de espalhar desinformação, atrapalha a vida de quem convive de verdade com a doença

Entenda como é a vida de quem convive com o Transtorno Obsessivo-Compulsivo
Entenda como é a vida de quem convive com o Transtorno Obsessivo-Compulsivo |  Foto: Denisse Salazar / Ag. A TARDE

Você está vivendo o seu cotidiano normalmente quando, de repente, sem que possa controlar, a sua mente é tomada por pensamentos estranhos que ficam surgindo em loop. Você não consegue parar de pensar naquilo e, na tentativa de se livrar, precisa fazer algo para combater aquele incômodo. Até consegue, mas momentaneamente. Aquele pensamento vai voltar. E vai voltar de novo. Parece irreal à primeira vista, mas essa é a realidade de quem vive com o Transtorno Obsessivo-Compulsivo, o TOC.

O transtorno afeta milhões de pessoas no mundo, mas a maioria de quem convive com ele demora entre 10 e 14 anos para receber um diagnóstico e começar o tratamento, segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria. O motivo? Uma mistura de vergonha, medo de julgamento e, não raro, a banalização do próprio transtorno.

Na internet, ao longo dos últimos anos, o termo TOC passou a ser associado a pessoas com manias de limpeza e critérios de organização rigorosos. A verdade é que essas pessoas podem, sim, ter um diagnóstico de TOC, mas o que muita gente não entende é o que o transtorno vai muito além disso. Não é sobre querer ter um ambiente organizado, é sobre sofrer verdadeiramente num lugar que está em desordem. Não é sobre gostar de tudo limpinho, mas sobre passar horas do dia lavando as próprias mãos para combater aquele pensamento de sujeira.

Esse comportamento é mecânico e pode se repetir em diversos cenários, não apenas nesses mais conhecidos. A médica psiquiatra Mariana Fontes (CRM-BA 30.833 | RQE 20.119) explica como acontece. "Os pensamentos intrusivos aparecem e a pessoa desenvolve um comportamento compulsivo para combatê-lo", diz. Ela dá o exemplo de alguém que começa a ter pensamentos negativos com números pares. Para combater, desenvolve uma compulsão para evitar tudo que seja par: pula degraus de escadas, pisando apenas nos ímpares; ao usar elevador, não pode descer em um andar de número par. "Esse pensamento se repete várias vezes ao longo do dia. Imagine quanto tempo a pessoa perde nesses detalhes", diz.

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Isso gera um sofrimento, um impacto, um prejuízo. Ocupa mais de uma hora na vida da pessoa na soma de todos os momentos que aquilo aconteceu no dia.

Mariana Fontes, médica psiquiatra
Mariana Fontes é médica psiquiatra formada pela Universidade Federal da Bahia
Mariana Fontes é médica psiquiatra formada pela Universidade Federal da Bahia | Foto: Shirley Stolze / Ag. A TARDE

O tempo gasto para combater esses pensamentos obsessivos consome boa parte do dia. Para detalhar o passo a passo desse ciclo que a psiquiatra explica, o MASSA! preparou um infográfico. Veja a seguir:

Infográfico: Entenda o Ciclo do TOC. Ilustração detalha a mecânica do transtorno, dividida entre os pensamentos intrusivos (obsessões) e as ações repetitivas de alívio temporário (compulsões), evidenciando o desgaste rotineiro e a perda de tempo provocados pelo loop mental.
Infográfico: Entenda o Ciclo do TOC. Ilustração detalha a mecânica do transtorno, dividida entre os pensamentos intrusivos (obsessões) e as ações repetitivas de alívio temporário (compulsões), evidenciando o desgaste rotineiro e a perda de tempo provocados pelo loop mental. | Foto: Ilustração / Inteligência Artificial (IA)

Mariana destaca ainda que o Transtorno Obsessivo-Compulsivo tem uma prevalência menor na sociedade em relação aos transtornos mentais mais conhecidos, como ansiedade e depressão. "Fica meio de escanteio, né?", fala sobre a discussão da doença. "Quando se fala de filmes, por exemplo, o que se mostra é aquela coisa super estereotipada de quem lava as mãos toda hora. De fato não tem retratações mais realistas", diz.

Essa falta de visibilidade, no entanto, esbarra em um contraste impressionante quando se olha para as estatísticas de saúde, o que demonstra que a discussão sobre TOC deve estar cada vez mais latente. No Brasil, a busca por ajuda na rede pública vem deixando um rastro numérico nítido. Dados levantados pelo MASSA! junto ao Sistema Único de Saúde (SUS) mostram que os atendimentos relacionados ao Transtorno Obsessivo-Compulsivo saltaramde 1.986 em 2020 para 6.417 em 2025, uma alta impressionante de mais de 220% em cinco anos.

*Gráfico: Evolução dos atendimentos de TOC no SUS (2020–2026). Entre 2020 e 2025, os registros cresceram 223%. *Nota: Os dados referem-se ao número total de procedimentos/atendimentos registrados na rede pública, e não ao número individual de pacientes (um mesmo paciente pode contabilizar múltiplos atendimentos no ano). *Dados de 2026 são parciais (até julho)
*Gráfico: Evolução dos atendimentos de TOC no SUS (2020–2026). Entre 2020 e 2025, os registros cresceram 223%. *Nota: Os dados referem-se ao número total de procedimentos/atendimentos registrados na rede pública, e não ao número individual de pacientes (um mesmo paciente pode contabilizar múltiplos atendimentos no ano). *Dados de 2026 são parciais (até julho) | Foto: Ilustração / Inteligência Artificial (IA)

Quem vive na pele

Helena* é uma mulher de 32 anos, profissional da saúde e moradora de Salvador, e convive com o transtorno há oito anos. Quando percebeu que algo não ia bem, ela nem cogitou que pudesse ter TOC, justamente porque o que sentia não tinha nada a ver com o que via ser retratado. "O tipo de TOC que eu manifesto não é o que é mais veiculado na mídia", conta. "Acho que é uma oportunidade de que outras pessoas possam entender como funciona", disse sobre a reportagem.

Diferente do mito da "mania de organização", o TOC se manifesta por gatilhos aleatórios e pensamentos obsessivos que geram um sofrimento avassalador. No caso de Helena*, os pensamentos se manifestam em coisas do tipo: se for exposta ao sol, ela vai pasar mal. A partir daí, a mente entra em um ciclo contínuo de combate à intrusão desse pensamento. O resultado? Uma compulsão que gera evitação. Por isso, ela evita se expor ao sol.

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Se eu pudesse escolher, não teria TOC. É algo exaustivo e angustiante.

Helena*, pessoa com TOC
Helena concedeu entrevista à reportagem do MASSA!, mas escolheu não se identificar. "Não tenho vergonha, mas não é algo que fico falando".
Helena concedeu entrevista à reportagem do MASSA!, mas escolheu não se identificar. "Não tenho vergonha, mas não é algo que fico falando". | Foto: Denisse Salazar / Ag. A TARDE

"Quando o TOC vem em alta, sinto uma angústia muito grande, uma vontade de chorar, de gritar. Você entra naquela luta diária para combater o pensamento".

Os impactos desse ciclo se alastram por todas as áreas da vida. Nos momentos de crise exacerbada, como após a perda do pai, o transtorno reduziu drasticamente sua rotina social e abalou planos profissionais. "Eu evito certos lugares, não consigo sair para todo lugar com meus amigos. E na questão profissional, cheguei a ponderar oportunidades de doutorado no exterior por medo de estar longe e não ter um suporte se as crises apertarem. Se deixar, você fica só no seu mundinho para tentar ter tudo sob controle", relata.

Outro obstáculo enfrentado por quem recebe o diagnóstico é a sensação de isolamento. Como as manifestações do TOC variam imensamente de pessoa para pessoa, encontrar pares torna-se uma tarefa bem difícil.

Helena* sentiu na pele o peso dessa falta de trocas. Foi apenas recentemente que soube de um conhecido que também tinha o transtorno, mas que evitava falar abertamente sobre o assunto. "Minha irmã contou a um amigo próximo sobre o que eu estava vivendo, e ele revelou que essa outra pessoa também tinha o diagnóstico. Mas eram manifestações totalmente diferentes", relata.

Para ela, a ausência de espaços de convivência e a baixa visibilidade de relatos reais contribuem para uma sensação dolorosa de inadequação. "É algo de que sinto muita falta. Eu acho que se eu conhecesse mais pessoas com TOC, me sentiria menos estranha".

O TOC que Helena manifesta é de evitações. Tudo o que aparece por meio de pensamento intrusivo, ela evita fazer, o que gera diversas limitações.
O TOC que Helena manifesta é de evitações. Tudo o que aparece por meio de pensamento intrusivo, ela evita fazer, o que gera diversas limitações. | Foto: Denisse Salazar / Ag. A TARDE

Hoje, Helena escolhe encarar o diagnóstico sem o peso da vergonha, e luta diariamente, por meio de tratamento, pela sua qualidade de vida. "Não vou dizer que é um conto de fadas, há dias muito difíceis. Mas o processo não é uma curva ascendente contínua: os baixos também fazem parte da trajetória. Com medicação, psicoterapia e rede de apoio, é possível se reestruturar, tocar a vida pessoal e profissional e seguir em frente. Dá para viver com o TOC", garante.

*Nome fictício, escolhido pela fonte, que preferiu não se identificar.

O TOC que a internet inventou

"Ai, tenho TOC com isso". Quem nunca ouviu (ou disse) essa frase? Nas redes sociais, o termo virou sinônimo de capricho, organização e perfeccionismo. Quem gosta de casa arrumada tem TOC. Quem alinha os objetos da mesa tem TOC. Quem dobra roupa com cuidado tem TOC. O problema é que isso não é TOC.

Como explica Antônio Geraldo da Silva (CRM-DF 5875 | RQE 2275), médico psiquiatra e presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, essa banalização tem consequências graves para quem realmente sofre com o transtorno.

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Quem realmente sofre costuma esconder sintomas muito mais graves por vergonha, atrasando o diagnóstico.

Antônio Geraldo, médico psiquiatra e presidente da ABP
Antônio Geraldo da Silva é presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria
Antônio Geraldo da Silva é presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria | Foto: Arquivo pessoal

O médico dá um exemplo concreto do que diferencia um comportamento comum de um quadro de TOC. "Há pessoas com alguns sintomas obsessivos: verificam uma ou duas vezes se desligaram o fogão, se fecharam o carro, deitam para dormir e lembram de conferir a tranca da porta. É algo que causa uma certa preocupação, então o indivíduo vai lá, confere, e depois segue sua rotina. No caso do TOC, não, é muito mais grave".

Grave a ponto de paralisar. "Estamos falando de uma pessoa que, enquanto dirige, de repente tem a sensação de que atropelou alguém e se obriga a parar o carro, olhar para trás, refazer o percurso mais de uma vez", descreve o presidente da ABP.

A desinformação e a banalização do termo não são apenas incômodos conceituais: elas atrapalham diretamente a vida e a recuperação de quem convive com o diagnóstico. Para Helena, a falta de compreensão de pessoas próximas pode retroalimentar o ciclo da doença. "Se a família embarca nos meus pensamentos intrusivos e nas minhas evitações, isso não me ajuda, só piora. O entendimento é fundamental", explica. É na irmã que ela encontra a principal rede de apoio nos momentos de crise: "Ela consegue compreender o que é e como se manifesta, e me ajuda muito a sair das evitações".

Um dado que não existe e o que isso revela

Quem pesquisa sobre TOC na internet esbarra rápido em uma estatística: a de que o transtorno afeta entre 2% e 3% da população mundial. O número circula em sites, matérias e até em materiais de divulgação científica como se fosse oficial, e é atribuído à OMS. O problema é que ele não tem origem.

Ao checar a informação diretamente com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), escritório regional da Organização Mundial da Saúde (OMS), a reportagem do MASSA! esbarrou em uma resposta direta: os números não são deles.

"As porcentagens que você menciona sobre Transtorno Obsessivo-Compulsivo não são estimativas da OPAS nem da OMS. Não temos uma estimativa oficial de população afetada especificamente pelo TOC", informou a organização, em resposta enviada à reportagem.

A OMS monitora o TOC dentro do conjunto mais amplo dos transtornos de ansiedade, e é aí que os dados oficiais existem. Em 2015, a estimativa era de que mais de 58 milhões de pessoas nas Américas viviam com algum transtorno de ansiedade. A prevalência regional chegava a 7,7% entre mulheres e 3,6% entre homens. O TOC está dentro desse universo, mas não aparece isolado em nenhuma estimativa oficial das organizações.

A ausência do dado não é um detalhe menor. Ela revela algo sobre como o TOC ainda é tratado no campo da saúde pública global: como parte de um bloco maior de transtornos, sem a especificidade que permitiria dimensionar com precisão o seu impacto. Para quem vive com o transtorno (e para quem trabalha para diagnosticá-lo e tratá-lo), essa invisibilidade nos números é mais um obstáculo.

O peso do silêncio

O Brasil é o segundo país das Américas com maior carga de transtornos mentais, segundo dados da Organização Pan-Americana da Saúde. E entre 76% e 85% das pessoas com transtornos mentais em países de baixa e média renda não recebem tratamento adequado, dado que inclui o Brasil. No caso do TOC, esse abismo entre sofrer e ser tratado tem um nome: estigma.

"Com frequência, deve-se ao paciente sentir vergonha de falar a respeito e ter medo de ser julgado", explica o presidente da ABP.

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Há casos em que realmente não falam sobre isso com ninguém.

Antônio Geraldo
O TOC que Helena manifesta é de evitações. Tudo o que aparece por meio de pensamento intrusivo, ela evita fazer, o que gera diversas limitações.
O TOC que Helena manifesta é de evitações. Tudo o que aparece por meio de pensamento intrusivo, ela evita fazer, o que gera diversas limitações. | Foto: Denisse Salazar / Ag. A TARDE

Helena teve uma trajetória diferente da maioria. Com histórico familiar de transtornos mentais (uma tia com transtorno bipolar que precisou interromper a graduação) sua família estava mais sensível aos sinais. "Diferente de muitos ambientes, aqui na minha família, no mínimo sinal a mãe já fica logo preocupada", conta. "Então, nesse sentido, para mim foi tranquilo".

Mas o diagnóstico, mesmo quando chegou, trouxe uma mistura de alívio e angústia. "Alívio por entender o que eu tenho e poder trabalhar nisso. Porém me causa muita angústia ainda, porque fico com muito receio de ser limitada pela minha condição", admite. "Hoje me causa muita tristeza não conseguir ir ao sol. Não conseguir ir a uma praia, coisas que eu gostava de fazer. É como se eu estivesse perdendo coisas que eu poderia fazer", diz.

Outro desafio é fazer as pessoas ao redor entenderem o que ela tem. "Minha mãe fala que eu tenho ansiedade. Eu vejo que ela não consegue fazer muita assimilação de que é TOC, porque fica muito no imaginário de que eu teria que ficar toda hora lavando as mãos", conta Helena. A percepção limitada do transtorno, mesmo dentro de casa, é um reflexo direto do que é mostrado, e do que não é mostrado, sobre o TOC.

Tem tratamento, inclusive no SUS

Apesar do sofrimento, o TOC tem tratamento eficaz. Antônio Geraldo explica que a psiquiatria é primordial nesse processo: é o médico psiquiatra quem avalia o quadro, descarta outras condições e, quando necessário, prescreve medicação. Aliada à medicação, a Terapia Cognitivo-Comportamental, a TCC, é a abordagem psicoterápica mais indicada para o TOC.

O presidente da ABP reforça que buscar ajuda é o primeiro passo, e que a psiquiatria não deve ser encarada de forma diferente de qualquer outra especialidade médica. "É como sentir uma dor no coração e buscar um cardiologista. Por que com a mente seria diferente?", defende.

Para quem depende do SUS, a porta de entrada para esse cuidado passa prioritariamente pelos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). No entanto, o desafio do acesso esbarra na capacidade da rede instalada. O Brasil conta hoje com 3.120 CAPS espalhados pelo país, o que equivale a uma média aproximada de 1 CAPS para cada 68 mil habitantes. Na Bahia, onde estão distribuídas 285 unidades (cerca de 9,1% do total nacional), a proporção é de aproximadamente 1 CAPS para cada 50 mil habitantes.

Entender o TOC para além dos estereótipos da internet é o primeiro passo para quebrar o ciclo do isolamento. Encarar a condição sem a sombra da vergonha abre espaço não apenas para o diagnóstico precoce, mas para a construção de uma vida com autonomia e sentido. O transtorno impõe desafios diários e exige persistência, mas com a combinação correta de acompanhamento médico, psicoterapia e uma rede de apoio consciente, é possível transformar a angústia do loop em caminho de recuperação.

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