A gravação e vazamento de conteúdo íntimo amador ganharam uma grande repercussão nas redes sociais durante os dias de Carnaval nos circuitos de Salvador. Um dos principais debates foi a prática do ato sexual em local público, algo que tem se tornado recorrente nos últimos meses.
Diante da discussão, o MASSA! conversou com a psicóloga especialista em sexualidade humana e terapeuta sexual, Fernanda Santiago, que explicou os fatores por trás dos comportamentos libidinosos em ambientes públicos na sociedade.
Referente às vítimas que tiveram a intimidade vazada, uma pesquisa chamada “Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil”, realizada pelo Datafolha a pedido do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, indica que cerca de 1,5 milhão de brasileiras tiveram vídeos ou fotos intimas vazadas na web entre 2024 e 2025.
Mas o que explica o ato de fazer sexo em público ou de viralizar conteúdo íntimo por meio de vazamento? Veja a seguir.
Por que algumas pessoas fazem sexo em público?
Segundo a doutora, a decisão de um casal praticar sexo em local público, mesmo tendo opção de privacidade, vai além de apenas desejo sexual. Pode estar ligado a diferentes motivações psicológicas, como validação, fetiche e busca por adrenalina.
Confira as explicações da psicóloga:
➡️ Busca por adrenalina
O risco de ser visto ativa o sistema de excitação fisiológica. A adrenalina pode intensificar a resposta sexual, o que amplia a excitação. Para algumas pessoas, o perigo funciona como amplificador do prazer;
➡️ Transgressão
O proibido tem força erótica. Romper regras sociais pode gerar sensação de poder, liberdade ou afirmação da própria autonomia. Isso é muito comum em contextos como Carnaval, onde há uma flexibilização simbólica das normas;
➡️ Fetiche por ser visto (voyeurismo/exibicionismo consensual)
Existe sim um fetiche específico relacionado à possibilidade de ser observado durante o ato. A ideia de “público” pode fazer parte central do estímulo sexual;
➡️ Validação e desejo de ser desejado
Em tempos de redes sociais, a visibilidade virou moeda de valor simbólico. Algumas pessoas associam exposição à validação, reconhecimento ou poder. A sexualidade pode ser usada como instrumento de autoafirmação.
A especialista ressalta que, quando a excitação passa a depender da possibilidade de exposição, cria-se um sentimento de expectativa por ser visto (a), então a audiência passa a fazer parte do estímulo sexual.
“Isso pode ser apenas uma expressão da sexualidade contemporânea, mas pode também indicar: necessidade intensa de validação externa; busca por reforço dopaminérgico (likes, visualizações); dificuldade em separar intimidade de performance”, indica.

E quanto a quem assiste?
Além da gravação, o compartilhamento e o número de visualizações também chamam a atenção. Para Fernanda Santiago, quem consome esse tipo de conteúdo vazado pode ser estimulado por um prazer inconsciente associado à invasão de privacidade.
Embora o compartilhamento de vídeos íntimos sem consentimento seja crime, a doutora destaca que existem três fatores principais que motivam a procura pelos vídeos vazados. Confira:
➡️ Curiosidade pelo “real”
Há uma fantasia coletiva de que o conteúdo vazado é mais autêntico do que a pornografia produzida;
➡️ Fetiche pelo proibido
O caráter ilícito ou não autorizado intensifica o estímulo. O cérebro responde fortemente ao que é percebido como transgressor;
➡️ Escalada de estímulo
Pessoas que consomem pornografia com frequência podem desenvolver habituação: precisam de estímulos cada vez mais intensos ou diferenciados. O “vazado” pode funcionar como novo pico de excitação.
Qual a diferença entre pornô tradicional e conteúdo amador?
Diferente dos vídeos pornográficos tradicionais, o conteúdo amador, especialmente os que são flagrados sem consentimento, desperta diferentes interesses.
Enquanto o pornô convencional é caracterizado por fantasia encenada, distanciamento emocional e menor sensação de realidade, a gravação amadora pode trazer a sensação de proximidade, ilusão de reciprocidade e erotização da “pessoa comum”.
Nesse cenário, a curiosidade aliada ao proibido determinam para o alto consumo. Porém, a psicóloga aponta que o hábito pode se tornar alarmante quando há perda de controle, impacto na vida afetiva, dessensibilização sexual e substituição da intimidade real pelo consumo compulsivo.