
Quando o assunto é sexo, prazer e intimidade, curiosidade nunca falta. Mas será que vale experimentar de tudo? No meio dessas perguntas, um procedimento que até pouco tempo circulava só entre consultórios médicos começou a chamar atenção também fora do ambiente clínico: o botox anal. A técnica, apesar do nome curioso e de muita gente associar logo ao desempenho sexual, não surgiu com esse objetivo.
O procedimento consiste na aplicação de toxina botulínica na região do bumbum, principalmente nos esfíncteres — as chamadas “pregas”. A ideia é “destravar” a musculatura que fica tensa o tempo todo. Quem explica é a coloproctologista Lívia Zollinger, que reforça que o tratamento é feito principalmente por motivos de saúde.
“Na prática, isso diminui a dor anal, os espasmos musculares da região e melhora a circulação local, facilitando o processo de cicatrização de algumas doenças orificiais”, diz em entrevista ao MASSA!.

De acordo com a especialista, a técnica é indicada, principalmente, para tratar problemas que causam dor persistente e desconforto no dia a dia. São situações em que o corpo entra em um ciclo complicado: sente dor, contrai mais, e o mal-estar só piora.
“As grandes indicações são: a fissura anal, a dor anal crônica, a anodispareunia (dor durante a relação sexual), a contração excessiva do esfíncter interno do ânus, prisão de ventre decorrente da ausência do relaxamento muscular adequado, entre outros”, detalha.
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E é justamente aí que o tema encosta no sexo. Quando a dor dá uma trégua, o temor também afrouxa. E quando o medo sai de cena, a experiência íntima pode mudar. Ainda assim, Lívia reforça que isso não significa satisfação garantida nem transformação automática na cama:
“Não existe uma indicação clara do botox anal para fins sexuais, mas o que muitos pacientes relatam é a redução da dor e maior relaxamento durante o ato, o que pode influenciar na experiência sexual de cada um.”

Já do ponto de vista da sexologia, o buraco é um pouco mais embaixo. Prazer não é só músculo relaxado. Medo, tensão, ansiedade e experiências ruins anteriores costumam fazer o corpo se contrair. Fora isso, as emoções, os desejos e os limites também entram nessa equação — e cada pessoa responde de um jeito.
A sexóloga Cris Arcuri explica à reportagem que o relaxamento pode ajudar algumas pessoas, mas alerta que tesão não vem só do físico: “A redução de dor, tensão ou medo nessa área pode melhorar a experiência sexual de algumas pessoas.”
Apesar disso, a profissional faz um alerta importante que muita gente ignora quando vê o assunto bombar nas redes. Relaxar demais pode causar efeitos colaterais, como dificuldade para segurar gases e fezes, ainda que temporariamente. Não é algo simples nem isento de risco.
“É importante salientar que o relaxamento excessivo pode levar à incontinência fecal temporária (perda de controle sobre gases e fezes), o que é um efeito colateral bem desagradável e pode ser também desagradável durante o ato sexual”, conta Cris ao MASSA!.

Não é para todo mundo!
E não para por aí: nem todo mundo pode passar pelo procedimento. Zollinger relembra ainda que existem contraindicações que devem sim ser respeitadas e seguidas à risca.
“O botox anal não deve ser realizado em algumas situações: pacientes com incontinência fecal prévia, gestantes, pacientes com alguma infecção ativa na região anal e os portadores de doenças neuromusculares”, destaca.
Outro ponto levantado pelos especialistas é a expectativa fora da realidade. O procedimento ajuda no conforto físico, mas não cria sensibilidade nova nem garante orgasmo. Confundir essas coisas pode gerar frustração depois do procedimento.

“É fundamental separar o que é conforto físico do que é satisfação psicológica ou orgástica. O botox apenas ‘desliga’ a tensão excessiva. Se a pessoa espera que o procedimento aumente a sensibilidade nervosa ou gere uma sensação de euforia, ela pode se frustrar”, sugere.
No fim das contas, o botox anal pode ajudar, sim, dar uma “folga para o bumbum” e aliviar dores que atrapalham a vida — inclusive a sexual. Mas transformar isso em promessa de prazer é furada. Como mostra o MASSA!, o procedimento pede responsabilidade, acompanhamento médico e zero ilusão. A moda passa, mas o corpo cobra.
*Sob a supervisão da editora Amanda Souza
