O crescimento das ações brutais de facções criminosas na Bahia, sobretudo em Salvador, acende alerta nas forças de segurança e na população do estado. As motivações desses grupos, no entanto, refletem as influências de outros estados como uma espécie de 'espelho'.
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Atos como o tribunal do crime, taxas ilegais por moradia, exploração de serviços de internet, além de simbologias, controle territorial e tráfico de drogas, tiveram origem no sudoeste do país - especificamente no Rio de Janeiro e São Paulo -, a partir das fundações do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Com a expansão territorial dessas quadrilhas, sub-facções emergiram em outras regiões, como o Nordeste, se espelhando no modelo dos grupos originais. O promotor do Ministério Público da Bahia (MP-BA), Edmundo Reis, explica, com exclusividade ao MASSA!, o contexto por trás da chamada ‘mímica do crime’.
“No Norte e Nordeste, há o espelhamento, a reprodução. Da mesma forma que surgiu a Falange Vermelha no Rio de Janeiro, vi surgir aqui o Comando da Paz no presídio de Salvador. Depois surgiu a Katiara e aí vão aparecendo essas denominações, inclusive no interior”, afirma.
Qual é o grande diferencial do que tinha e do que temos? É que nós temos duas rotas: uma dominada pelo CV, a outra dominada pelo PCC
Edmundo Reis, promotor do MP
Desde suas fundações, as quadrilhas baianas agem em paralelo com às respectivas matrizes: o CV e o PCC, as quais copiam atividades ilícitas e atos violentos. Refletindo o tema para a realidade atual, é possível fazer um paralelo com os assassinatos de três funcionários de uma empresa de internet em Marechal Rondon, bairro do subúrbio de Salvador, ocorrido no último dia 16.
São eles:
➡️ Ricardo Antônio da Silva Souza, de 44 anos;
➡️ Jackson Santos Macedo, de 41 anos;
➡️ Patrick Vinícius dos Santos Horta, de 28 anos.
A cobrança ilegal de empresas de ‘net’ por facções criminosas já havia sido exposta pelo MASSA! meses atrás. Essa prática iniciou no sudeste, com o Comando Vermelho, e consiste em apavorar a população com cobranças de ‘taxas crime’ para aumentar a renda da facção além do tráfico de drogas.
O fato foi destacado pelo promotor do MP: “Hoje, os recursos das facções do tráfico estima-se que é somente 20%. O resto vem de explorações das mais variadas. Como atualmente a gente vê, explorações de internet, moradia, cartéis, venda de armas. Tem um mercado paralelo de tudo."
Mesmo que a prática tenha começado com o CV, outras sub-facções, motivadas pelo sistema de mímica, começaram a reproduzir essas punições, como o Bonde do Maluco (BDM) - grupo de origem baiana e apontado como responsável pelas mortes dos trabalhadores, conforme a linha de investigação da polícia.
BDM: da inspiração a emancipação
Uma das facções mais conhecidas no território baiano nos tempos atuais, o Bonde do Maluco nem sempre teve essa identidade. Conforme explicado por Edmundo Reis, a quadrilha surgiu no presídio baiano como o Comando da Paz, inspirada no Comando Vermelho.
Porém, a partir do rompimento das lideranças de Cláudio Campanha e Genilson Lima, ainda na Penitenciária de Mata Escura, dois novos grupos surgiram em contraste ao anterior.
“Genilson vem para cá e aí começa a formar uma liderança entre os condenados. Cláudio Campanha assume do lado de cá, entre os presos provisórios. A partir disso, eles começam a ter rotas de colisão”, inicia.

O grupo de ‘Perna’ - apelido de Genilson Lima - foi fundado e, após ser prejudicado com a transferência para o Presídio de Serrinha, mudou de nome para ‘Caveira’. Posteriormente, se transformou no Bonde do Maluco (BDM), que toca o terror nos dias atuais.
“Essa guerra por território no estado baiano, por exemplo, dessas sub‑facções menores, não dizem tanto a respeito das maiores, porque elas só brigam entre si e as maiores são do estado em todo, o país inteiro. No caso, o PCC e o CV. Na verdade, essas duas facções maiores colocam as outras para brigar entre si”, informa.

Segundo Edmundo, o fornecimento de armas e drogas é condicionado à capacidade de cada subgrupo de dominar um território.
“O que a facção maior faz? Ela diz: 'Aquela que consolidar maior liderança no território, fica comigo. Eu lhe dou a arma e lhe dou droga, você conquista o território. Se você conquistar o território, aqui é meu parceiro'. Aqui na Bahia, sobretudo em Salvador, é a lógica agressiva do mercado”, aponta.
Facções pelo Brasil: expansão territorial
A expansão das subfacções ligadas ao CV, ao PCC e a outros grupos emancipados, foi ilustrada em um mapa do Brasil, a partir de um recorte mais atualizado divulgado pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
A ilustração mostra a atuação de diversas quadrilhas espalhadas pelo pais e os estados onde estão presentes. O levantamento teve início em 2018 e foi divulgado em 2022. A reportagem do MASSA! buscou dados mais atualizados com um recorte da Bahia, mas não obteve retorno por parte do Fórum Brasileiro de Segurança Pública até a publicação deste conteúdo.
Confira o mapa:
