
A cadeira de presidente da Câmara Municipal de Salvador ainda não tem novo dono, mas um nome disparou na frente na corrida para comandar a Casa no biênio 2027-2028: Alexandre Aleluia (Novo).
O vereador conseguiu reunir nesta sexta-feira (23) uma maioria que, se permanecer unida até a eleição, praticamente pavimenta seu caminho para substituir Carlos Muniz (PSDB) no comando do Legislativo soteropolitano.
A articulação começou o dia com 23 dos 43 vereadores declarando apoio a Aleluia. Horas depois, Roberta Caires (Republicanos) e Daniel Alves (PSDB) também anunciaram adesão ao grupo, levando a conta pública a 25 parlamentares.
Ou seja: mais da metade da Câmara já está, publicamente, fechada com ele.
Por que Aleluia virou o favorito?
O apoio não veio apenas do partido do vereador. A articulação reúne nomes de União Brasil, PP, PSDB, Cidadania, PL, DC, PRD, PDT, Republicanos e do próprio Novo, mostrando uma capacidade de Aleluia de juntar grupos diferentes dentro da Casa.
A força é tamanha que o líder do União Brasil, Cláudio Tinoco, afirmou que a expectativa é superar a marca de 30 vereadores. Aleluia também recebeu um convite para voltar ao União Brasil, partido pelo qual começou sua trajetória eleitoral quando a sigla ainda se chamava DEM.
O movimento tem peso porque o União Brasil é justamente o partido do prefeito Bruno Reis. Aleluia afirmou que o gestor respeitaria a decisão tomada pela maioria dos vereadores da base governista.
Muniz encontra pedras no caminho
Outro fator que ajuda Aleluia é a situação complicada do atual presidente, Carlos Muniz.
Muniz está à frente da Câmara desde 2023 e gostaria de permanecer no posto por mais um biênio. O problema é que o Ministério Público da Bahia recomendou que ele não dispute novamente, sob o entendimento de que uma nova recondução violaria o limite de mandatos consecutivos.
A discussão também chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF). O PDT entrou com uma ação para tentar permitir uma nova candidatura de Muniz, argumentando que seu primeiro período no cargo não deveria contar como mandato porque ele assumiu após a saída de Geraldo Júnior.
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O ministro Gilmar Mendes rejeitou a tese em decisão provisória e negou a liminar. O caso será analisado pelo plenário virtual do STF entre os dias 6 e 13 de novembro.
Com Muniz travado judicialmente e Aleluia formando uma maioria antecipada, o caminho ficou bem mais aberto.
Quem é Alexandre Aleluia?
Alexandre Aleluia tem 43 anos, é empresário e bacharel em Direito. Filho do ex-deputado federal José Carlos Aleluia, começou a exercer mandato na Câmara de Salvador em 2017, após ser eleito pelo DEM nas eleições de 2016. Antes disso, presidiu a Juventude do partido na Bahia.
Foi reeleito pelo DEM em 2020 e, mais tarde, acompanhou Jair Bolsonaro no PL. Em 2024, conquistou mais um mandato, desta vez com 9.788 votos.
A relação com o bolsonarismo, no entanto, mudou de tom. Aleluia deixou o PL e se filiou ao Novo em abril de 2026. Ao explicar a mudança, declarou que buscava “outros rumos” na política e afirmou não guardar mágoas da antiga legenda.
Pouco depois, também tratou de se distanciar do rótulo de bolsonarista. Disse se considerar de “direita conservadora”, afirmou que defende ideias e não políticos, mas reconheceu ter defendido o governo de Jair Bolsonaro.
Atualmente, Aleluia preside a Comissão de Constituição, Justiça e Redação Final (CCJ), considerada a comissão mais importante da Câmara por analisar previamente a constitucionalidade e a legalidade das propostas que passam pela Casa.
Conservador e colecionador de polêmicas
Se hoje Aleluia tenta construir uma candidatura capaz de reunir vários partidos, sua carreira na Câmara foi marcada por posições ideológicas firmes e algumas boas confusões.
Logo no início do primeiro mandato, em 2017, apresentou o projeto “Escola Sem Partido” em Salvador. A proposta provocou fortes debates entre vereadores, professores e movimentos ligados à educação.
No mesmo ano, apresentou um projeto contra o que chama de “ideologia de gênero”, proibindo determinados materiais e eventos voltados para crianças e adolescentes na rede municipal. A proposta enfrentou reação da esquerda e de movimentos de direitos humanos e acabou rejeitada pela Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher em 2021.
Máscaras durante a pandemia
Aleluia também entrou em uma discussão pesada durante a pandemia da Covid-19.
Em outubro de 2021, quando o uso de máscaras ainda era uma das principais medidas adotadas contra a transmissão do vírus, o vereador apresentou uma proposta para deixar nas mãos dos pais a decisão sobre o uso do equipamento por alunos nas escolas de Salvador.
O texto previa inclusive multa de R$ 10 mil para escolas particulares que desrespeitassem a escolha dos responsáveis pela criança.
Aborto também colocou Aleluia no centro do debate
Outra proposta que deu o que falar foi o chamado Estatuto do Nascituro, apresentado por Aleluia e discutido na Câmara em 2023.
Entre os pontos do projeto estava a obrigação de servidores municipais denunciarem situações envolvendo gestantes que demonstrassem intenção de realizar um aborto. A proposta foi duramente criticada por parlamentares de oposição, que acusaram o texto de ampliar a criminalização das mulheres.
No mesmo período, outro projeto de Aleluia, o Estatuto Municipal de Direito dos Pais, também provocou reação. Críticos classificaram a proposta como uma nova versão do “Escola Sem Partido”.
As pautas ajudaram a consolidar Aleluia como um dos principais nomes da ala conservadora da política de Salvador.
Treta com Muniz antecipou disputa
A briga pela presidência da Câmara, inclusive, deixou os bastidores e foi parar no meio do salão.
Em setembro, Aleluia e Carlos Muniz protagonizaram um bate-boca durante uma reunião do Colégio de Líderes. O desentendimento começou em meio a discussões sobre a votação de projetos e emendas.
Segundo relatos, o encontro teve troca de acusações e até tapa na mesa. Aleluia também teria usado o Regimento Interno para se contrapor a uma movimentação relacionada à permanência de Muniz na presidência.
A partir dali, uma disputa que acontecia principalmente nos corredores ficou escancarada.
Já ganhou? Por ora, não
Pelo Regimento Interno, a escolha da nova Mesa Diretora deve ocorrer na última reunião ordinária de dezembro. A própria Câmara explica que a Mesa é eleita pelos vereadores para mandato de dois anos.
Além disso, a oposição ainda não fechou posição. O grupo, que reúne dez vereadores, marcou uma reunião para segunda-feira (26) e não descarta lançar candidatura própria.
Mesmo assim, com pelo menos 25 apoios já anunciados e conversas para aumentar ainda mais esse número, Alexandre Aleluia chega à reta decisiva como o nome a ser batido.

