
Falar que alguém é “de esquerda” ou “de direita” virou rotina nas eleições, nas redes sociais e até nas conversas de família. O curioso é que essas duas expressões, hoje carregadas de significados políticos, nasceram praticamente de forma literal: por causa do lado em que deputados se sentavam em uma sala. O MASSA! explica te mostra tudo nessa matéria.
Apesar de ser o centro do debate das eleições do Brasil em 2026, a história começa na França de 1789, em plena Revolução Francesa. Durante as discussões da Assembleia Nacional sobre os poderes que permaneceriam com o rei Luís XVI, os parlamentares foram se agrupando conforme suas posições.
Os que defendiam mudanças mais profundas e maior poder para a representação popular ficaram à esquerda da presidência da Assembleia, que eram os Jacobinos.
Do outro lado, à direita, concentraram-se representantes mais favoráveis à manutenção da autoridade monárquica e da ordem tradicional, os Girondinos. A divisão física acabou virando linguagem política.
Mais de dois séculos depois, esquerda e direita continuam vivas no vocabulário político. Só que tem um detalhe importante: o significado dessas palavras mudou bastante desde 1789 e continua variando conforme o país e a época.
Estudos sobre partidos brasileiros, por exemplo, destacam que não existe uma fórmula universal capaz de encaixar todas as posições políticas do mundo em dois blocos perfeitamente definidos.
Tudo começou com uma revolução
A Revolução Francesa abalou a estrutura política e social da França no fim do século XVIII. O país ainda carregava instituições do chamado Antigo Regime, marcado pela monarquia e por privilégios jurídicos ligados à nobreza e ao clero. Em 1789, uma crise política, fiscal e social abriu caminho para um processo revolucionário que acabaria alterando profundamente a França e influenciando outros países. Foi dentro desse caldeirão que nasceu a divisão.
Naquele primeiro momento, a discussão não era sobre temas como privatização, imposto de renda, SUS ou legislação trabalhista, que sequer faziam parte da realidade política à época. A disputa envolvia principalmente quem deveria ter autoridade para governar, quais poderes o monarca deveria conservar e até onde deveriam ir as mudanças provocadas pela Revolução.
Aos poucos, a localização no plenário virou identificação política. “Esquerda” passou a ficar associada aos grupos que defendiam transformações na ordem existente, enquanto “direita” ficou ligada aos setores que buscavam preservar mais elementos das instituições tradicionais.

Mas o que é ser de esquerda?
Não existe apenas uma esquerda. Social-democratas, socialistas, comunistas e outras correntes têm diferenças importantes entre si. Mesmo assim, há alguns elementos históricos que ajudam a entender por que elas acabaram sendo colocadas do mesmo lado do espectro político.
Ao longo do século XIX, com a industrialização, o crescimento das cidades e a organização dos trabalhadores, a esquerda passou a incorporar cada vez mais pautas relacionadas à igualdade econômica e social, direitos dos trabalhadores e redução das diferenças entre classes. O crescimento do socialismo e, posteriormente, do comunismo mudou profundamente aquilo que “ser de esquerda” representava em comparação com a esquerda original da Revolução Francesa.
Uma das definições mais conhecidas foi desenvolvida pelo filósofo e cientista político italiano Norberto Bobbio. Para ele, um dos principais elementos capazes de diferenciar esquerda e direita é a maneira como cada campo encara as desigualdades. A esquerda tende a considerar que uma parcela maior das desigualdades existentes é produzida socialmente e pode ser reduzida por ação política.
Na prática contemporânea, correntes de esquerda costumam dar maior peso a políticas redistributivas, proteção trabalhista, serviços públicos e atuação estatal na redução de desigualdades. Isso, porém, não significa que toda pessoa ou partido de esquerda defenda estatização da economia ou o fim da propriedade privada. Uma social-democracia parlamentar, por exemplo, é bastante diferente de uma corrente comunista revolucionária.

E o que é ser de direita?
A direita também está longe de ser um bloco único. Há conservadores, liberais econômicos, nacionalistas e outras correntes que podem discordar bastante entre si.
Historicamente, a direita nasceu ligada à defesa de instituições tradicionais diante das transformações da Revolução Francesa. Com as mudanças políticas dos séculos XIX e XX, o significado também se transformou.
À medida que socialistas e movimentos operários ganharam espaço pela esquerda, posições favoráveis à propriedade privada, ao capitalismo e a uma atuação mais limitada do Estado na economia passaram a ser mais frequentemente associadas à direita.
Na leitura de Bobbio, a diferença não significa simplesmente que a direita “quer desigualdade”. O ponto é outro: correntes à direita tendem a aceitar maior grau de diferenças econômicas e sociais como consequência da liberdade individual, das escolhas, do mérito, do mercado ou de outras diferenças entre as pessoas, enquanto a esquerda costuma defender maior intervenção para reduzi-las. Essa é uma das formas acadêmicas de interpretar a divisão, mas não é a única.
No debate atual, partes da direita também costumam defender mais fortemente livre iniciativa, propriedade privada e redução da interferência econômica estatal. Correntes conservadoras acrescentam maior preocupação com tradição, autoridade ou preservação de determinadas instituições sociais. Mas alguém pode, por exemplo, ser liberal na economia e ter posições diferentes nos costumes.
Os significados foram mudando
E aqui está uma pegadinha histórica importante: um político considerado de esquerda em 1790 não necessariamente teria posições consideradas de esquerda em 2026.
A própria esquerda da Revolução Francesa defendia elementos que hoje poderiam aparecer em movimentos de diferentes posições ideológicas. Um estudo publicado pela Oxford Academic aponta, por exemplo, que integrantes da esquerda revolucionária francesa defendiam direitos individuais, propriedade e uma economia de mercado, ao mesmo tempo em que combatiam a autoridade política baseada no nascimento aristocrático e reivindicavam soberania popular.
No século XIX, liberalismo e conservadorismo ocuparam grande parte dessa disputa. Com o avanço do movimento operário e do marxismo, socialismo e comunismo passaram a ocupar a esquerda, enquanto a defesa do capitalismo ganhou identificação maior com a direita.
No século XX, a ascensão da social-democracia e do Estado de bem-estar social acrescentou novas divisões sobre impostos, serviços públicos e intervenção econômica.
Ou seja: esquerda e direita são posições relativas dentro de cada contexto histórico.
E quando essa divisão chegou ao Brasil?
No Brasil do século XIX já existiam Partido Liberal e Partido Conservador, principalmente durante o Império. Os liberais defendiam, entre outras pautas, maior autonomia para as províncias e mudanças na estrutura política, enquanto os conservadores davam maior peso à centralização do poder imperial.
Mas é preciso evitar transportar automaticamente a divisão atual para aquela época. Os dois partidos pertenciam a uma sociedade monárquica, escravista e com participação eleitoral muito restrita. Portanto, chamar simplesmente o Liberal imperial de “esquerda” e o Conservador de “direita”, no sentido usado dos dias atuais, apagaria diferenças históricas importantes.
Leia Também:
Uma esquerda brasileira mais próxima do significado desenvolvido no século XX começou a ganhar organização com o movimento operário, inicialmente muito influenciado pelos anarquistas, e depois com a chegada mais forte das ideias marxistas. Em 1922, foi fundado o Partido Comunista do Brasil, o PCB, com o objetivo declarado de realizar uma transformação socialista da sociedade.

Década de 1930 teve choque ideológico pesado
A década de 1930 trouxe uma divisão política mais facilmente reconhecível dentro da lógica internacional de esquerda e direita.
De um lado surgiu a Ação Integralista Brasileira (AIB), fundada por Plínio Salgado em 1932 e definida pelo Atlas Histórico da FGV como um movimento de inspiração fascista, inserido no crescimento das correntes autoritárias de direita daquele período.
Do outro apareceu, em 1935, a Aliança Nacional Libertadora (ANL). A frente reunia comunistas, socialistas e outros grupos e defendia, entre suas bandeiras, o combate ao fascismo, ao imperialismo e ao latifúndio. A FGV registra que partidos de esquerda, sindicatos e outras organizações participaram de sua formação.
Foi um dos momentos em que a divisão ideológica brasileira apareceu de maneira bastante explícita.

Dos partidos de 1945 à ditadura
Com a redemocratização de 1945, surgiu um novo sistema partidário, com legendas como PSD, UDN e PTB, além do PCB, que chegou a recuperar a legalidade naquele período. A UDN nasceu reunindo grupos heterogêneos de oposição a Getúlio Vargas, enquanto PSD e PTB mantiveram relações mais próximas com o varguismo.
Esse sistema foi desmontado após o golpe de 1964. Em outubro de 1965, o AI-2 extinguiu os partidos políticos existentes. Surgiram então apenas duas grandes agremiações permitidas pelo regime: a Arena, que apoiava o governo militar, e o MDB, que funcionava como frente de oposição. O próprio caráter amplo desses dois partidos torna simplista tratá-los apenas como duas siglas ideologicamente homogêneas.

O bipartidarismo terminou em 1979, abrindo caminho novamente para várias legendas.
A esquerda e a direita na Nova República
Nesse processo nasceu, em 1980, o Partido dos Trabalhadores (PT), ligado inicialmente ao movimento sindical, a organizações sociais, intelectuais, grupos de esquerda e setores das comunidades eclesiais de base. Também surgiram ou foram reorganizados partidos como PDT, PMDB, PTB e PDS.
Com a redemocratização e a Constituição de 1988, o sistema multipartidário se consolidou e as identificações de esquerda, centro e direita continuaram sendo usadas para entender as diferenças entre partidos, embora pesquisadores ressaltem que os limites nem sempre são tão claros quanto parecem.
Um estudo sobre os programas das eleições presidenciais brasileiras entre 1994 e 2018 encontrou conteúdos associados tanto à esquerda quanto à direita convivendo nas plataformas partidárias, ainda que permanecessem diferenças ideológicas entre as candidaturas. O trabalho também identificou um forte crescimento da polarização na eleição de 2018.

Afinal, dá para resumir?
Em uma explicação básica, a esquerda historicamente atribui maior prioridade à redução das desigualdades sociais e econômicas e aceita maior atuação coletiva ou estatal para alcançar esse objetivo. A direita tende a atribuir maior peso à propriedade privada, autonomia individual, mercado e/ou preservação de instituições e tradições, aceitando maior espaço para diferenças produzidas pelas escolhas e relações sociais. Essas características variam conforme a corrente e não formam um pacote obrigatório.
Também não é correto usar “esquerda” como sinônimo automático de comunismo, nem “direita” como sinônimo de fascismo. Comunismo é uma corrente específica da esquerda; fascismo pertence historicamente à extrema direita, enquanto há inúmeras correntes democráticas de esquerda, centro-esquerda, centro-direita e direita. A posição no eixo ideológico também não define, sozinha, se um movimento é democrático ou autoritário.

