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MASSA! explica: entenda como funciona o voto para 2 senadores

Em 2026, eleitor terá dois votos para o Senado; entenda a regra, os riscos do voto útil e o que o caso de 2018 ensina sobre a segunda escolha

Em 2018, 63 milhões de votos foram anulados para o Senado
Em 2018, 63 milhões de votos foram anulados para o Senado |  Foto: Saulo Cruz/Agência Senado

Quem for votar nas eleições de 2026 terá uma tarefa diferente da encontrada em 2022: na hora de escolher os senadores, serão dois votos, e não apenas um.

Isso acontece porque duas das três cadeiras de cada estado estarão em disputa neste ano. Ao todo, 54 vagas serão preenchidas em todo o país. O mandato de senador é de oito anos e, por isso, a renovação do Senado acontece de forma alternada: em uma eleição são renovadas duas cadeiras por estado e, na seguinte, apenas uma.

Na prática, porém, a segunda escolha pode causar confusão — principalmente quando o eleitor tenta fazer uma conta política para impedir que determinado candidato seja eleito.

É aí que aparece o chamado “voto útil” ou “voto estratégico”: em vez de escolher necessariamente o nome de sua preferência, o eleitor decide votar em outro candidato por acreditar que ele teria condições de impedir a vitória de um adversário.

O problema é que, numa eleição de duas vagas, essa estratégia pode produzir um resultado diferente do planejado. O MASSA! explica como isso funciona na prática.

Como funciona o voto para senador?

Em 4 de outubro, o eleitor vai chegar à parte do Senado e votar duas vezes.

Primeiro, escolhe um candidato. Depois de confirmar, a urna apresentará novamente a opção para senador, quando será necessário escolher outro candidato.

Os dois votos têm o mesmo peso. Não existe um “primeiro senador” e um “segundo senador” no resultado final. Os dois candidatos mais votados no estado são eleitos.

Também não existe voto de legenda para senador. O eleitor precisa escolher uma pessoa e digitar o número correspondente ao candidato.

E atenção: se a pessoa votar no mesmo candidato nas duas oportunidades, o primeiro voto é válido e o segundo é anulado.

Um exemplo simples

Imagine que quatro candidatos estejam disputando duas vagas:

Candidato A — 1 milhão de votos

Candidato B — 900 mil

Candidato C — 850 mil

Candidato D — 500 mil

A e B seriam eleitos.

Não importa quem recebeu mais votos na primeira ou na segunda escolha de cada eleitor. O que conta é o total de votos válidos recebidos por cada candidato.

Por isso, cada uma das duas escolhas pode fazer diferença.

Seu voto pode mudar a configuração de cadeiras no Senado
Seu voto pode mudar a configuração de cadeiras no Senado | Foto: Reprodução/Senado Federal

Em 2018, cerca de 63 milhões de votos para o Senado ficaram pelo caminho

A última vez que os brasileiros precisaram escolher dois senadores na mesma eleição foi em 2018. E os números daquele pleito mostram que uma parcela significativa do eleitorado teve dificuldade para lidar com a segunda escolha.

Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), cerca de 63 milhões de votos para o Senado ficaram em branco, foram anulados ou não foram completados. O fenômeno ficou conhecido como “voto incompleto”.

É importante fazer uma ressalva: isso não significa que 63 milhões de pessoas simplesmente erraram a votação ou desconheciam a necessidade de escolher dois candidatos. Os dados não permitem separar quantos casos foram resultado de confusão na urna e quantos foram escolhas conscientes de votar em branco, anular ou não preencher uma das opções.

Ainda assim, o número chama atenção porque mostra o tamanho do impacto que a segunda escolha pode ter.

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Um eleitor pode, por exemplo, escolher conscientemente um candidato no primeiro voto e decidir não indicar ninguém no segundo. Nesse caso, o primeiro voto continua válido.

Também é possível votar em branco ou anular apenas o segundo voto sem comprometer as demais escolhas feitas na urna.

Por outro lado, quem repete o mesmo candidato nas duas oportunidades terá apenas o primeiro voto validado. O segundo será anulado.

Por que tanta gente pode se confundir?

Um dos motivos é que a eleição para duas vagas acontece somente a cada oito anos.

Em 2018, os eleitores escolheram dois senadores. Em 2022, apenas uma cadeira por estado estava em disputa. Agora, em 2026, o eleitor volta a ter dois votos para o Senado.

Ou seja, quem não acompanhou a eleição de 2018 ou não se lembra da dinâmica pode chegar à urna sem estar acostumado com a segunda votação.

A ordem também merece atenção. Em 2026, depois dos votos para deputado federal e deputado estadual ou distrital, o eleitor escolherá o primeiro senador e, em seguida, o segundo senador, antes dos votos para governador e presidente.

Onde entra o chamado ‘voto útil’?

Agora vem uma diferença importante.

Imagine que um eleitor tenha dois candidatos de sua preferência: A e B.

Mas ele acredita que o candidato C pode tirar a vaga de B.

Esse eleitor pode pensar:

“Vou votar em A e, no segundo voto, escolher C para tentar impedir B de ser eleito”.

O voto em A continua contando para A.

Mas o segundo voto, que poderia ter sido destinado a B, passa a contar para C.

Se muitos eleitores fizerem a mesma escolha, C pode crescer justamente às custas de votos que originalmente iriam para B.

Isso não significa que toda estratégia desse tipo necessariamente terá esse efeito. O ponto é matemático: o voto que deixa de ser dado a um candidato passa a ser contabilizado para outro, se for um voto válido.

Por isso, numa eleição com duas vagas, tentar impedir um nome também pode fortalecer outro.

Voto útil pode sair como um ‘tiro na culatra’
Voto útil pode sair como um ‘tiro na culatra’ | Foto: Tânia Rego/Agência Brasil

O caso de São Paulo em 2018

Um dos exemplos mais conhecidos aconteceu justamente na última eleição em que os brasileiros escolheram dois senadores.

Em São Paulo, Eduardo Suplicy (PT) liderava pesquisas durante boa parte da campanha. Na reta final, a disputa envolveu também Mara Gabrilli (PSDB) e Major Olímpio (PSL).

Um levantamento divulgado pela Folha de S.Paulo na véspera da eleição mostrava Suplicy com 19%, Mara Gabrilli com 18% e Major Olímpio com 16%, em situação de empate técnico.

Nas urnas, porém, o resultado foi:

Major Olímpio: 25,81%

Mara Gabrilli: 18,59%

Eduardo Suplicy: 13,32%

Com isso, Olímpio e Mara foram eleitos, enquanto Suplicy ficou em terceiro.

Análises publicadas depois da eleição apontaram o chamado voto estratégico como um dos elementos que ajudam a explicar a movimentação. O cientista político Emerson Urizzi Cervi, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), afirmou em análise da BBC que parte do eleitorado de esquerda teria utilizado o voto em Mara Gabrilli como uma forma de tentar impedir a eleição de Major Olímpio.

O resultado mostra justamente o risco dessa estratégia: o candidato que parte daquele eleitorado pretendia barrar acabou eleito, enquanto Suplicy, que aparecia na liderança anteriormente, ficou fora das duas vagas.

Isso não permite afirmar que o voto útil foi a única causa da mudança. Pesquisas têm margem de erro, podem não capturar mudanças de última hora e não conseguem identificar individualmente a decisão tomada por cada eleitor.

Mas o episódio é um exemplo concreto de como uma movimentação estratégica pode ter efeitos diferentes dos imaginados.

Outro exemplo aconteceu no Paraná

O Paraná também passou por uma situação semelhante nas eleições de 2018.

Naquele estado, Roberto Requião e Beto Richa estavam entre os nomes mais conhecidos da disputa pelas duas vagas. Segundo a análise, houve movimentações de voto estratégico envolvendo os dois candidatos.

No resultado final, nenhum dos dois foi eleito. As duas vagas ficaram com Oriovisto Guimarães e Flávio Arns.

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