
A ida de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aos Estados Unidos, dois dias depois da derrota para Lula (PT) no segundo turno, virou combustível para uma nova guerra política nesta terça-feira (27). De um lado, aliados do senador passaram a acusar o Judiciário de perseguição. Do outro, parlamentares da esquerda cobraram prisão e bloqueio de bens.
Um aliado próximo de Flávio confirmou à Reuters que o senador deixou o Brasil e seguiu para os Estados Unidos. A informação surgiu depois de ele descumprir o prazo determinado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para entregar seus passaportes à Polícia Federal.
A PF cancelou os documentos brasileiros de Flávio após o prazo terminar às 11h. Até então, a corporação não havia localizado registro formal da passagem dele por um posto migratório. O governo argentino também afirmou não ter registro de entrada do senador no país.
A situação chamou ainda mais atenção porque, na segunda-feira (26), Flávio havia garantido publicamente que cumpriria a decisão. “Eu nunca pensei em sair do país. Eu vou entregar os meus passaportes”, afirmou o senador antes de deixar de ser localizado.
Pavanato diz que "Brasil venezuelou"
Um dos aliados a subir o tom foi o deputado federal eleito Lucas Pavanato (PL-SP). Em publicação feita no X, ele relacionou a ordem para entrega dos passaportes à reeleição de Lula e comparou o momento político com 2022.
“2022: Lula ‘vence’ as eleições e seu concorrente é preso. 2026: Lula ‘vence’ as eleições e Moraes manda seu concorrente entregar o passaporte 7 minutos após o resultado. Brasil venezuelou!”, escreveu.
2022: Lula “vence” as eleições e seu concorrente é preso. 2026: Lula “vence” as eleições e Moraes manda seu concorrente entregar o passaporte 7 minutos após o resultado. Brasil venezuelou!
— Lucas Pavanato (@lucaspavanato) October 27, 2026
Horas antes, Pavanato já havia orientado os apoiadores de Flávio a evitarem manifestações não convocadas oficialmente e excessos nas redes. “A nossa liberdade está ameaçada” e “a briga agora é judicial”, escreveu, pedindo cautela à militância.
Nikolas Ferreira se manifesta
Nikolas Ferreira (PL-MG) também reagiu. Em uma primeira publicação, o deputado tratou a saída de Flávio como fato e questionou a segurança de quem faz oposição ao governo. Depois, apagou o post e republicou a mensagem acrescentando a palavra “supostamente”.
“Se um candidato a presidente precisa sair a pé do país, qual a segurança de cidadão comum que se opõe ao atual regime?”, publicou inicialmente. Na nova versão, Nikolas acrescentou que Flávio teria “supostamente” deixado o país.
Na sequência, o deputado aprofundou a acusação de perseguição política. Segundo Nikolas, um governo legitimamente eleito não pode perseguir a oposição, censurar ou reprimir quem não o escolheu. Ele classificou quem adota esse tipo de prática como “ditador inseguro”.
O senador eleito Gustavo Gayer (PL-GO) foi ainda mais direto. Em vídeo publicado nas redes sociais, ele confirmou a ida de Flávio aos Estados Unidos e sustentou que o aliado estaria sendo perseguido por Moraes. Segundo Gayer, o senador estaria sendo usado como uma “peça de barganha” para travar pautas da direita no Senado.
Já o presidente do PL em Minas Gerais, Zé Vitor, afirmou que existe “uma caça aos que pensam diferente”. O deputado pediu uma reorganização das relações institucionais e cobrou do governo reeleito gestos para diminuir a temperatura política no país.
Esquerda pede prisão e Interpol
Do outro lado, a reação veio acompanhada de medidas jurídicas. Lindbergh Farias (PT-RJ), Rogério Correia (PT-MG) e Ana Elisa (PT-MG) anunciaram um pedido de prisão preventiva contra Flávio e solicitaram que, caso a prisão seja decretada, o nome dele seja incluído no alerta vermelho da Interpol.
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“O candidato que se disse honesto, recusou abrir os seus sigilos, fugiu. Aparentemente está foragido”, afirmou Lindbergh.
Rogério Correia também anunciou o protocolo nas redes sociais. “Acabamos de entrar com um pedido de prisão preventiva de Flávio Bolsonaro”, escreveu o deputado, acrescentando que o grupo solicitou o alerta vermelho da Interpol.
A deputada Duda Salabert (PSOL-MG) foi pelo mesmo caminho e ironizou o discurso de segurança pública da família Bolsonaro.
“Flávio Bolsonaro não aceita o resultado das urnas e, pelo visto, também não aceita ordem judicial”, escreveu. Duda completou dizendo que a família que defende “lei e ordem” parece acreditar que “a lei é só para os outros”.
Erika Hilton (PSOL-SP) anunciou uma ofensiva diferente. A deputada afirmou que vai pedir à Procuradoria-Geral da República (PGR) e ao STF o bloqueio dos bens e das contas bancárias de Flávio e da esposa, Fernanda Bolsonaro.
“Frente às notícias de fuga de Flávio Bolsonaro, estou pedindo o bloqueio de seus bens”, escreveu Erika. Ela também classificou o ex-candidato como “traidor da pátria” e afirmou que Flávio não deveria ter acesso a dinheiro público.
Até aliados de Lula criticaram Moraes
Nos bastidores, porém, a decisão de Moraes não recebeu apenas elogios entre governistas. Ministros de Lula ouvidos reservadamente pelo Metrópoles avaliaram que a ordem de entrega dos passaportes foi precipitada e pode acabar fortalecendo a narrativa de perseguição construída pelo bolsonarismo.
Um integrante do governo resumiu o receio em quatro palavras: “Passa de criminoso para perseguido”. Senadores aliados de Lula também teriam classificado a medida como inadequada para o momento político, justamente pelo risco de ampliar a tensão após uma eleição apertada.
A ordem contra Flávio foi tomada em uma investigação na qual o senador e o advogado Willer Tomaz são investigados por suspeita de lavagem de dinheiro. Ambos negam irregularidades. Moraes também havia proibido Flávio de deixar o território nacional e de manter contato com Tomaz.

