
Você provavelmente já leu, viu ou ouviu falar da sigla LGBTQIAPN+. Essa sigla existe para dar visibilidade às pessoas que vivem o amor de uma maneira diferente daquilo que ainda hoje é considerado "tradicional". Cada letra tem como objetivo legitimar a existência de grupos diferentes, e a consoante T, por exemplo, representa os transgêneros e travestis, pessoas que se identificam com o gênero diferente daquele com o qual nasceram.
Esse é o caso de Viviane, a personagem vivida pela atriz Gabriela Loran na novela global Três Graças. A farmacêutica é uma mulher trans e passou por um momento delicado ao contar para Leonardo (Pedro Novaes), com quem vivia uma relação amorosa, que havia passado pela transição de gênero. Ao descobrir que a moça por quem se interessou não era cisgênero, Leonardo teve uma reação preconceituosa.
Se já é doloroso acompanhar esse tipo de cena na telinha, imagine para quem convive com o preconceito em sua rotina. A publicitária e head de marketing digital Yoná Andrade, de 25 anos, revelou que já passou por situações semelhantes.
"Muitos rapazes que se aproximam de mim, principalmente em festas ou baladas, presumem que sou uma mulher cis, e isso acaba gerando uma quebra de expectativa. No momento em que afirmo ser uma mulher trans, o flerte muitas vezes se transforma em silêncio ou desaparecimento. A clássica frase 'vou ali pegar uma bebida' e a pessoa nunca mais volta", iniciou.

Mesmo com o receio da reação do outro, Yoná acredita que o melhor caminho é sempre ser sincera em relação à transição.
É necessário falar no primeiro momento. Primeiro por responsabilidade afetiva, segundo por orgulho de ser quem é, sem se curvar ao medo imposto por uma sociedade preconceituosa.
Yoná Andrade
"Sabemos da complexidade de viver em um contexto que invalida nossas existências em diversas instâncias, mas também sabemos que grande parte desse preconceito nasce da ignorância", concluiu.
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Impactos do preconceito
A psicóloga Daniela Santos explica que pessoas trans precisam viver relações onde são reconhecidas por serem quem são e que as experiências afetivas devem ser acompanhadas de segurança emocional. Ainda segundo ela, a objetificação atribuída às mulheres trans pode gerar diversos impactos negativos.
"Se a experiência de objetificação for recorrente, essa mulher [trans] pode ter distorção de imagem, ansiedade e depressão
Daniela Santos, psicóloga

"Culpabilização por ser quem é, além de dificuldade em relações afetivas e sexuais. Com isso, o desgaste emocional se faz presente, o que é nocivo para essas mulheres que muitas vezes já vivem excluídas de muitos ambientes", explicou a profissional.
Aproximação com interesse sexual é uma realidade
Muitas pessoas se aproximam de pessoas trans apenas com interesses sexuais; além disso, redeuzem essas relações a encontros secretos, sempre no "off", sem uma responsabilidade pública com aquele relacionamento.
A sexóloga Raquele Carvalho aponta que essa escolha é, na verdade, uma violência. "É uma forma de violência disfarçada de desejo. Isso provoca impactos importantes na saúde emocional. [...] Sensação de ser usada, descartada ou reduzida a uma experiência sexual", disse.
Quando alguém se interessa pelo corpo trans como objeto exótico ou fantasia sexual, retira da pessoa sua humanidade.
Raquele Carvalho

Raquele também destaca que a sexologia, ciência que estuda sexualidade humana de forma ampla, abrangendo aspectos físicos, emocionais, sociais e culturais, pode ser uma grande aliada para desmistificar pensamentos equivocados sobre as pessoas trans.
Amor é o que interessa
A realidade é que, mesmo em 2026, ainda há muito preconceito e percalços na trajetória desses grupos. Além dos julgamentos diários na sociedade, das dificuldades para encontrar emprego, problemas com a família, e a árdua realidade da violência nas ruas do país que mais mata pessoas trangênero e travestis no mundo, também há uma barreira amorosa imposta para essas pessoas.
No caso da novela Três Graças, além de ser assombrado pelo preconceito, o relacionamento de Viviane e Leonardo vive ainda questões relacionadas às expectativas. E quando a famíia souber? Qual será a reação? E o debate sobre filhos? Isse turbilhão de perguntas pode gerar um impacto muito negativo na relação.
No caso de Yoná Andrade, aquela que mencionamos lá no começo da matéria, a jovem continua acreditando no amor, mas sem deixar que o preconceito a rotule. "Hoje, o amor para mim está diretamente ligado àqueles que apoiaram, apoiam e permanecem comigo na minha trajetória. Àqueles que me abraçam, me acolhem, me respeitam e desejam o meu bem. A essas pessoas, entrego todo o meu amor.
Transfobia é crime, viu bê?
No ano de 2019 Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu pela criminalização da homofobia e da transfobia, que foram enquadrados na Lei de Racismo.
A pena para esses casos é de reclusão de um a três anos, podendo ser aumentada em situação de uso de meios de comunicação ou redes sociais, além de ser inafiançável e imprescritível (não há fiança nem tempo para prescrever).
