Saúde é um direito básico, mas para a população transexual, cruzar a porta de um posto ou de um hospital ainda significa enfrentar um ambiente despreparado e até hostil. Seja para receber atendimento ou vestir um jaleco para trabalhar, pessoas transexuais enfrentam diferentes desafios, que vão desde situações de constrangimento até dificuldades relacionadas ao reconhecimento de sua identidade.
Para entender essas experiências e também as barreiras encontradas por esse público, a reportagem do MASSA! conversou com um profissional trans da enfermagem e um paciente que são usuários da rede pública e privada de saúde dentro e fora da Bahia.
Natan Camargo, de 31 anos, homem trans e técnico de enfermagem, na área da saúde desde 2015, e atuando como técnico desde 2025, trabalha atualmente em um serviço de Home Care da rede privada, em São Paulo. Apesar de gostar da profissão, Natan afirma que sua identidade de gênero ainda interfere na forma como é enxergado no ambiente profissional.
“É desafiador. Eu amo a área da saúde e tenho certeza de que escolhi uma profissão que faz sentido para mim, mas, ao mesmo tempo, ser um homem trans dentro desse ambiente traz obstáculos que muitas vezes não deveriam existir”, relata.
Segundo Natan, existe uma expectativa de que homens na enfermagem estejam ligados à força física, o que pode influenciar até mesmo as oportunidades profissionais. Ele afirma que já foi desclassificado em processos seletivos após informar que é um homem trans:
“Eu quero ser reconhecido pelo conhecimento técnico, pelo cuidado, pela responsabilidade e pela capacidade de atender um paciente. Mas muitas vezes sinto que existe uma cobrança para que eu prove que sou ‘homem o suficiente’ através da força."

Ele ainda falou sobre o receio de entrar em um serviço de saúde e ser obrigado a explicar a própria identidade antes de falar sobre o motivo da consulta.
“Eu sei o que é entrar em um ambiente de saúde carregando o medo de não ser respeitado. Um profissional capacitado não precisa saber tudo sobre a vida de uma pessoa trans. Ele precisa, antes de tudo, saber atender aquela pessoa com respeito, sem transformar sua identidade em motivo de constrangimento", acrescenta.
Paciente relata experiências em unidades de saúde
Fernando Lucca, de 31, utiliza a rede pública de saúde em São Paulo e costuma ser atendido no CSEB Butantã a cada três meses. Atualmente, ele afirma se sentir acolhido no local onde realiza seus acompanhamentos. Em outros momentos, porém, principalmente na rede privada, passou por situações de desrespeito.
“É sempre desafiador. Principalmente para uma pessoa trans que ainda não é hormonizada ou para aquelas que estão no início da transição e buscam iniciar a hormonização”, explica.

Para Fernando, as dificuldades podem surgir desde a chegada ao serviço até a consulta. Ele pontua a falta de conhecimento sobre questões básicas relacionadas à população trans:
“Acredito que, de maneira geral, ainda existe muito despreparo. É possível perceber que muitos profissionais não sabem como lidar adequadamente com pessoas trans, desde a recepção até o atendimento médico. Muitas vezes, falta conhecimento básico sobre identidade de gênero, nome social e, principalmente, sobre as particularidades da saúde da população trans."
Para mudar esse cenário, Fernando Lucca defende maior presença de pessoas trans nas próprias equipes de saúde, além da preparação dos profissionais. “Ter pessoas trans inseridas nesses espaços agrega muito, porque permite que nossas experiências e necessidades estejam presentes justamente nos ambientes onde precisamos ser atendidos”.
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Ausência de dados dificulta dimensionar cenário na Bahia
Procurada pela reportagem para informar o número de profissionais trans que atuam na área da saúde na Bahia, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) informou que não possui dados sistematizados sobre esse público.
Segundo a entidade, a ausência de informações oficiais sobre a população trans é atravessada pela transfobia institucional e por dificuldades históricas de reconhecimento e registro adequado nos sistemas de informação.
A ANTRA ainda afirmou que dados desse tipo deveriam ser produzidos e disponibilizados pelos próprios órgãos públicos para subsidiar políticas públicas.
A Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab) e a Secretaria Municipal da Saúde de Salvador (SMS) foram procuradas para informar o número de profissionais trans atuando no estado e no município. Não houve retorno até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto e a matéria será atualizada assim que houver um posicionamento oficial.
Pesquisa aponta preconceito no atendimento à população trans na saúde
Uma pesquisa realizada pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), em 2023, revelou as dificuldades enfrentadas pela população trans para acessar serviços de saúde no Brasil. Entre as 1.100 pessoas trans e travestis ouvidas em todos os estados do país, 62% afirmaram já ter evitado buscar atendimento médico por medo de preconceito.
Além disso, 36% disseram ter sido recusadas em atendimentos por serem trans, e 78% avaliaram que o Sistema Único de Saúde (SUS) não oferece assistência adequada à população trans. Outros 94% relataram já ter sofrido violência ou discriminação durante atendimentos de saúde.
As dificuldades de acesso à saúde também são observadas na rede privada, e não apenas no SUS. A mesma pesquisa apontou que 31% das pessoas LGBTQIA+ estão na pior faixa de acesso aos serviços de saúde no país. Entre as pessoas que não fazem parte desse grupo, o percentual é de 18%. As informações foram divulgadas no site da Central Única dos Trabalhadores (CUT).

Para chegar a esses resultados, a equipe responsável pelo segundo levantamento analisou as respostas de 6.693 pessoas de todo o Brasil, que preencheram anonimamente um questionário on-line. Desse total, 1.332 participantes se identificaram como LGBTQIA+.