
Antigamente, era comum ouvir frases extremamente machistas, como “mulher minha tem que ficar dentro de casa” ou “você não ajuda nas contas”. No entanto, cada vez mais mulheres têm quebrado esse paradigma do patriarcado e assumido um papel de protagonismo, tanto na organização da casa quanto nas finanças da família. Uma pesquisa da Serasa mostrou que mais da metade das mulheres são responsáveis pela organização financeira do lar.
De acordo com o estudo, 34% delas são as únicas responsáveis por levar o sustento para casa. Porém, esse cenário também traz um problema: na maioria dos casos, essas mulheres acumulam dupla ou até tripla jornada, dividindo o tempo entre trabalho, tarefas domésticas e cuidados com a família, o que gera uma grande sobrecarga.
Em entrevista ao Portal MASSA!, a especialista em educação financeira da Serasa, Aline Vieira, explicou como essa pressão impacta diretamente na vida financeira das mulheres.
“Isso pode dificultar, por exemplo, o acompanhamento do orçamento, a busca por melhores condições de crédito ou até mesmo a negociação de dívidas. Então, quando a rotina acaba sendo muito pressionada, as decisões financeiras acabam sendo tomadas de forma mais imediata, sem tanto planejamento, o que pode levar a ciclos de endividamento ao longo do tempo”, explicou Aline.

Jogadas ao léu
Em muitos casos, as mulheres são ensinadas desde cedo a depender de um homem. No início de muitos relacionamentos, o cenário pode parecer ideal, com o marido sustentando a casa enquanto a mulher fica responsável pelos afazeres domésticos. No entanto, poucas pessoas estão preparadas para um término abrupto, sendo lançadas ao mundo sem tempo para se estruturar financeiramente.
Esse foi o caso de Maria Auxiliadora, de 65 anos, que há 15 anos se viu obrigada a recomeçar do zero após não aguentar mais as infidelidades do ex-marido.
“Eu passei muitos anos dedicada à casa e à família, acreditando que aquilo seria para sempre. Quando o casamento acabou, me vi perdida, sem saber por onde começar e sem nenhuma estrutura financeira. Foi como se eu tivesse que aprender a viver de novo, mas dessa vez sozinha”, disse Maria.
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Mesmo diante das dificuldades, Maria conseguiu retornar ao mercado de trabalho. Hoje, ela desfruta da aposentadoria, tem casa própria e ainda consegue aproveitar o tempo para viajar e visitar os netos.
Infelizmente, essa não é a realidade de muitas mulheres, que acabam enfrentando dificuldades financeiras. Segundo dados do Serasa, mais de 40 milhões de brasileiras estão inadimplentes atualmente.
Desigualdade corre solta
Aline Vieira explica que outro fator que contribui para a falta de autonomia financeira feminina é a desigualdade de gênero no mercado de trabalho. Segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego, divulgados em 2025, as mulheres recebem cerca de 21% a menos que os homens no setor privado.
“Esses fatores impactam diretamente a renda ao longo da vida e, consequentemente, a capacidade de organização financeira, de poupar, investir e construir estabilidade. Quando a renda é menor ou mais instável, o planejamento financeiro tende a ficar mais desafiador, o que pode limitar a autonomia econômica de muitas mulheres”, explicou a especialista.

Voz ativa em casa
Mesmo com as dificuldades impostas pela sociedade, a pesquisa da Serasa também aponta avanços. Segundo o levantamento, 85% das mulheres entrevistadas perceberam um aumento na participação feminina nas decisões financeiras da casa.
Aline Vieira explicou o que pode estar por trás dessa mudança. “Nos últimos anos, vimos uma combinação de fatores que ampliou o protagonismo financeiro de muitas mulheres. Um deles é a maior participação feminina no mercado de trabalho e também o aumento do número de lares chefiados por mulheres. Além disso, muitas famílias passaram por momentos de instabilidade econômica, o que exigiu mais planejamento e organização do orçamento doméstico. Nesse contexto, as mulheres acabam assumindo naturalmente esse papel de gestão financeira da casa, acompanhando os gastos e priorizando as contas”, detalhou.
