Mães atípicas encontram no mar um respiro para filhos PCDs

Projeto garante inclusão para crianças e adolescentes em praias na capital baiana

Home / Cidades

Diversão sem barreiras - 04/02/2026, 08:00 - Jaísa de Almeida- Atualizado em 04/02/2026, 08:14

“A médica disse que ela está ficando com depressão, depressiva e tudo. Deve ser também por causa da idade. Aí tem aquela fase mais complicada e muitas coisas que são difíceis para mim”. O relato é de Lídia Maria, mãe de Suelen, jovem de 21 anos com síndrome de Down, uma das participantes do projeto Mar Sem Barreiras, realizado em janeiro, na Praia da Preguiça, no bairro do Comércio, no Centro de Salvador.

A ação reúne crianças e adolescentes com deficiência para o banho de mar assistido, acompanhado por salva-vidas e voluntários. Para muitas famílias, a experiência foge do cotidiano, seja pela falta de estrutura adequada nas praias, seja pelo custo de atividades adaptadas, que quase sempre pesa no bolso.

Cheia de orgulho da cria, Lídia conta ao MASSA! como a filha reagiu ao pisar na areia e entrar no água. Segundo ela, Suelen enfrentou um período sensível, e a participação no projeto surgiu como uma oportunidade de transformar a rotina e aliviar o clima dentro e fora de casa:

“Ela tá adorando, porque ela tá na água. Tá gostando. Ela, quando falou praia, já aí já amor, né? Ela já queria ir logo. Ela já queria vir aqui. E aí tá sendo ótimo para mim também, melhor ainda, né? Porque ela tá feliz, eu tô feliz.”

Na foto: Lídia e Suelen
Na foto: Lídia e Suelen | Foto: José Simões/Ag. A TARDE

Diversão gratuita em meio à grana curta

Além do bem-estar emocional, outro desafio é a grana que é necessário desembolsar para participar de experiências adaptadas, o que pode limitar a participação das crianças. Lídia reforça que iniciativas gratuitas ou de baixo custo permitem que mais famílias aproveitem o lazer com mais frequência.

“É muito importante para eles, principalmente de forma gratuita, porque, para a gente conseguir, é muito caro. Essas coisas são caras demais. Uma oportunidade dessas é muito boa”, ressalta.

Leia Também:

Outra dessas histórias é a de José Leandro Alves, de 16 anos. Deficiente visual e morador do bairro de Sussuarana Nova, ele se deslocou até a Praia da Preguiça para participar do banho de mar assistido. O rapaz revela que sentir a água e remar na prancha virou um dos pontos altos do seu dia:

“Para mim, é maravilhosa essa experiência porque eu estou conhecendo outras formas de estar no mar. Então, pra mim, está sendo maravilhoso, eu quero aproveitar bastante remando na prancha.”

Lazer que vai além das telas

Lúcia e José Leonardo bateram ponto na Praia da Preguiça
Lúcia e José Leonardo bateram ponto na Praia da Preguiça | Foto: José Simões/Ag. A TARDE

A mãe do adolescente, Lúcia Flávia, entende que cada fase da vida do filho apresenta novos desafios. Para ela, oportunidades de lazer fora do ambiente doméstico permitem que crianças como José Leandro fiquem mais tempo fora da internet, para experimentar o “offline” na vida real.

“Hoje em dia tem muita essa coisa de telas, de internet, e as crianças não têm tanto tempo assim e nem atividades que possam desenvolver seu lado cultural e de lazer. As pessoas acham que a pessoa que tem deficiência não pode fazer certos tipos de esportes, estar em outros locais, viajar, passear, e isso não é verdade.”, explica.

Na visão de Lúcia, a limitação de locais acessíveis na cidade, incluindo pistas táteis, banheiros adaptados e profissionais capacitados para acompanhamento de crianças com limitações visuais ou motoras, são obstáculos para o desenvolvimento das pessoas. Com isso, a busca por oportunidades externas esbarra na falta de disponibilidade desses recursos.

Imagem ilustrativa da imagem Mães atípicas encontram no mar um respiro para filhos PCDs
Foto: José Simões/Ag. A TARDE

“São poucos os locais que a gente vai, são poucos os locais que têm acessibilidade. Mas a gente não permite que essa porta seja fechada e eu acredito que é muito importante correr atrás, lutar e levar nossos filhos onde for possível”, cita.

Um dos guias da prática aquática, o coordenador da Salvamar, Kailani Dantas, explica ao MASSA! que o projeto Mar sem Barreiras oferece acesso a experiências externas para famílias que não teriam condições de realizá-las sozinhas, apenas como forma de ajudar a proporcionar diversão para as famílias:

Na foto: Kailani, coordenador da Salvamar
Na foto: Kailani, coordenador da Salvamar | Foto: José Simões/Ag. A TARDE

“A ideia é circular por várias praias de Salvador, levando a possibilidade de banho de mar assistido para quem normalmente não teria acesso. Não é sobre promoção, é sobre abrir espaço para essas experiências.”

No fim das contas, o que fica é a sensação de que o mar pode ser muito mais que água e areia: pode ser alegria, liberdade e inclusão.

exclamção leia também