
Se você fosse jogador de futebol largaria a carreira profissional com apenas um ano? Foi exatamente isso que Alan Sena decidiu fazer. Em vez de seguir nos gramados, ele escolheu outro caminho: transformar vidas através do esporte. Hoje, o Projeto Seninha atende cerca de 600 crianças e adolescentes, em situação de vulnerabilidade social, em diversos bairros de Feira de Santana, unindo futebol, educação e ações sociais.
Fundado há 13 anos, o projeto funciona de segunda a sábado e já virou referência para muitos jovens que vivem cercados pela violência e pelo risco de entrar no mundo do crime.
Em entrevista ao MASSA!, que acompanhou uma das atividades no campinho de terra do George Américo, Alan Sena contou como tudo começou. Após atuar durante um ano pelo Astro FC, clube de Feira, ele decidiu abandonar o futebol profissional e passou a trabalhar de carteira assinada. Mesmo longe dos campos, sentia que seu propósito continuava ligado ao esporte.
“Eu sou um ex-atleta de futebol profissional e, por gostar tanto de futebol, ser apaixonado pelo esporte, eu vi que o esporte, além de ter mudado a minha vida, eu poderia também fazer algo por alguém. E vi que, na comunidade, as crianças ficavam no contraturno escolar, um pouco, como a gente diz na linguagem, voando, boiando, sem outra atividade. E decidi iniciar o projeto com o intuito de ocupar a mente dessa criança”, explicou Sena.

Outro fator decisivo para a criação do projeto foi uma experiência vivida dentro da própria família. Alan contou que conviver com a dependência química do irmão fez ele enxergar ainda mais a importância de oferecer oportunidades para crianças e adolescentes.
Meu irmão foi dependente químico e também, por conviver com um dependente químico há anos dentro de uma casa, eu vi que eu poderia, através de um projeto social, direcionar as crianças ao caminho do bem
Alan Sena, fundador do Projeto Seninha
Muito além da bola
Quem olha de fora pode pensar que o Projeto Seninha se resume apenas ao futebol. Mas a iniciativa vai muito além das quatro linhas. Para participar das atividades, por exemplo, as crianças precisam estar matriculadas na escola. O próprio Alan faz visitas frequentes às unidades de ensino e acompanha de perto a realidade das famílias.
Além dos treinos, o projeto também realiza ações sociais nos bairros Parque Getúlio Vargas, George Américo, Conder, Feira V, Conceição, Rocinha e Aviário. Na última Páscoa, foram distribuídas 300 caixas de chocolate e 100 ovos para a criançada. Em todos os treinos também há distribuição de lanche.
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“Fazemos entrega de peixes, entrega de cestas básicas, temos um trabalho muito forte aqui, que é a entrega de kit escolar para as crianças. Nós incentivamos as crianças a irem à escola. Por incrível que pareça, o projeto aqui é 100% gratuito, mas a criança tem que estar inserida no ambiente escolar para participar. Nós não cobramos nada, somente ela estar na escola. Inclusive, esse professor que vos fala visita a escola. Semana que vem será a semana de visita à escola dos meninos, para saber, para estar próximo e junto à família”, destacou.
Salvando vidas
Ao longo desses 13 anos, Alan viu muitos jovens mudarem completamente de vida graças ao projeto. Um dos casos mais marcantes, segundo ele, foi o de um adolescente que acabou entrando no mundo das drogas, mas conseguiu recomeçar através do esporte.
“Hoje ele já é um homem, mas chegou comigo na época, era adolescente. Ele acabou se envolvendo com a dependência química. Graças a Deus, através dos parceiros, amigos e da família também, nós acompanhamos e conseguimos resgatar ele de onde ele estava. Estava no meio das drogas, nós conseguimos resgatar por meio do esporte, da oportunidade, onde muitas pessoas não acreditavam mais. Algumas pessoas até da família chegavam para mim e falavam: ‘não tem mais jeito, é um caso perdido’. Mas nós acreditamos, porque um dia também alguém acreditou em mim. Nós insistimos, colocamos em competições. Eu fui na própria escola, porque a família já não acreditava mais. Conversei com professores, diretores e coordenadores, pedi um voto de confiança e graças a Deus hoje ele está casado, constituiu uma família”, contou, emocionado.
Sonhos dentro de campo
Um dos exemplos que ainda seguem dentro do Projeto Seninha é o jovem Luís Chaves, de 17 anos. O garoto vem se destacando no futebol e atualmente atua no Magé City, clube formador do Rio de Janeiro.
“O professor Alan abriu as portas para mim, em 2021, se não me engano. Graças a Deus conseguiu mudar muita coisa. Abriu portas para mim em clubes, já joguei grandes jogos também, já viajei para fora da Bahia e só tenho o que agradecer mesmo”, disse.
Luís também destacou a importância do projeto para centenas de jovens da comunidade. “Eu vejo o projeto como uma abertura de portas, para que a gente possa sair do meio das ruas, estar aqui podendo nos divertir, longe das drogas, longe dos perigos. Isso aqui é tipo uma escola, ele nos ensina muito”.

Os sonhos também brilham nos olhos da nova geração. Arthur, de 10 anos, sonha em jogar no Real Madrid. Já Davi, de 11, quer defender o Flamengo no futuro. Entre um treino e outro, os dois não escondem a admiração pelo projeto.
“Ele [Sena] é muito bom. Ele deu um futuro bom para a gente. O treinador da gente é muito bom”, disse Arthur, nervoso durante a primeira entrevista diante das câmeras.

Mães lado a lado
Além das crianças, o projeto também conquistou as famílias. Muitas mães ajudam diretamente na organização das atividades e acompanham de perto a rotina dos filhos.
É o caso de Eliomar, mãe de João Lucas, que contou as mudanças que percebeu no garoto após a entrada no projeto.
“Antes do projeto era quieto, não brincava direito. Então, a partir do momento que ele chegou no projeto, hoje é outra criança. Então, em nome de Deus, das mães, agradeço todo mundo do projeto”.

Nem tudo são flores
Apesar do impacto positivo, manter o Projeto Seninha de pé não é tarefa fácil. Alan revelou que a principal dificuldade é financeira e que a iniciativa sobrevive graças à ajuda de parceiros e doações.
“A gente sabe que não é fácil trabalhar no terceiro setor no Brasil, ainda mais em Feira de Santana, que é onde eu trabalho. Viver de doações não é fácil. Hoje nós saímos de 12 crianças, que iniciamos em 2013, para 600 famílias que acreditam no projeto. Muitas vezes, o básico é o alimento. Vira e mexe estamos fazendo campanhas para arrecadar alimentos, porque sabemos da importância do alimento na mesa dessa criança e desse adolescente. Além disso, existem necessidades simples, como um desodorante e um sabonete”, explicou.
Quem quiser ajudar o Projeto Seninha pode entrar em contato através do Instagram @projetoseninha ou pelos números (75) 98173-2009 e (75) 98226-5447.
