
O episódio envolvendo os participantes Pedro e Jordana, dentro do Big Brother Brasil 2026, reacendeu, em todo o país, um debate urgente e necessário: o assédio sexual e a dificuldade histórica enfrentada pelas vítimas para serem ouvidas, acolhidas e respeitadas. A situação, exibida em rede nacional e amplamente repercutida nas redes sociais, provocou indignação do público, manifestações de especialistas e posicionamentos de autoridades, reforçando que assédio não é brincadeira, mal-entendido ou entretenimento, mas crime previsto em lei.
O caso ocorreu em um ambiente monitorado por câmeras 24 horas, o que, para especialistas, evidencia ainda mais a naturalização de comportamentos violentos contra mulheres, mesmo sob vigilância constante. Para além do reality show, o episódio escancara uma realidade cotidiana vivida por milhares de mulheres em espaços públicos, ambientes de trabalho e até dentro de casa.
De acordo com a psicóloga clínica Carla Freitas, especialista em avaliação psicológica e neuropsicóloga em formação, os impactos emocionais do assédio sexual podem ser profundos e duradouros. Segundo ela, muitas vítimas demoram a compreender que sofreram uma violência, entrando inicialmente em um processo de negação como mecanismo de proteção.
“A vítima pode levar um tempo para compreender que, de fato, sofreu uma violência. Nesse processo, é comum entrar em contato com sentimentos como culpa, raiva e repulsa de si mesma. Após o abuso, o cérebro pode permanecer em estado de alerta constante, fazendo com que situações cotidianas se tornem gatilhos de ansiedade”, explica.
A psicóloga destaca ainda que o trauma não depende necessariamente de contato físico. “Mesmo quando ocorre apenas de forma verbal ou virtual, o assédio ativa o sistema límbico, responsável pelas respostas emocionais, gerando medo intenso e sensação de ameaça”, afirma.
Entre os sentimentos mais recorrentes após situações de assédio estão vergonha, confusão mental, tristeza profunda, medo e isolamento social. Em alguns casos, surgem sinais de alerta como alterações no sono, automutilação, choro frequente e queda no rendimento acadêmico ou profissional.
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Além das manifestações mais evidentes, Carla Freitas chama atenção para sinais sutis que muitas vezes passam despercebidos, como irritabilidade, dificuldade de concentração, hipervigilância, evitação de lugares ou pessoas e mudanças repentinas de comportamento.
“No caso de crianças, esses sinais precisam ser observados ainda mais de perto. Muitas vezes, são interpretados apenas como estresse ou cansaço, o que atrasa o reconhecimento da violência e o acesso ao cuidado psicológico”, alerta.
Para a vereadora Ireuda Silva, o episódio do BBB evidencia o quanto práticas de assédio e importunação sexual ainda são naturalizadas na sociedade brasileira. “Há casos que acontecem diante de outras pessoas e até publicamente, em programas de TV. Isso mostra o quanto ainda precisamos lutar para que todos entendam que essas práticas são crimes. O enfrentamento do assédio deve ser um compromisso coletivo”, afirma.
Na mesma linha, a superintendente de Prevenção e Enfrentamento à Violência contra a Mulher da Secretaria de Políticas para Mulheres da Bahia (SPM-BA), Camila Batista, ressalta que o local do ocorrido no reality simboliza espaços reais de violência vividos por mulheres diariamente.
“O canto da despensa, com porta e tranca, representa na vida real as esquinas escuras, locais desprotegidos e, muitas vezes, a própria casa. Essas condutas não podem ser normalizadas”, destaca.
Camila lembra que o Código Penal prevê o crime de importunação sexual, com pena de um a cinco anos de prisão, quando há ato de caráter sexual sem consentimento, como tentativa de beijo forçada.
O advogado criminalista Antonio Correia Filho explica que o assédio sexual, previsto no artigo 216-A do Código Penal, se caracteriza quando há constrangimento com o objetivo de obter vantagem sexual, valendo-se de uma relação hierárquica.
Já a importunação sexual ocorre sem necessidade de vínculo de poder, quando o autor pratica atos libidinosos sem consentimento da vítima. O estupro, por sua vez, envolve violência ou grave ameaça. “A ausência de consentimento pode ser demonstrada por gestos, medo, resistência ou desconforto, não apenas pela palavra ‘não’”, esclarece.
Na Bahia, mulheres vítimas de assédio podem buscar ajuda por meio do Ligue 180, canal nacional de atendimento 24 horas. Além disso, a SPM-BA mantém espaços de acolhimento nas estações de metrô de Pirajá e da Rodoviária, além da Casa da Mulher Brasileira, que funciona 24 horas por dia com atendimento psicológico, social e jurídico.
A gravidade do tema é confirmada por números oficiais. Apenas nos primeiros meses de 2025, a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos registrou 284 denúncias de crimes sexuais na Bahia. A Defensoria Pública da Bahia registrou aumento superior a 50% nos atendimentos a mulheres vítimas de violência, indicando maior busca por ajuda e rompimento do silêncio.
O caso do BBB 2026 mostra que o assédio sexual está longe de ser um episódio isolado. A ampla repercussão reforça a necessidade de educação, políticas públicas permanentes, responsabilização dos agressores e, sobretudo, acolhimento às vítimas.
Como reforçam especialistas e autoridades, transformar indignação momentânea em mudança estrutural é o caminho para combater uma cultura que ainda relativiza a violência contra a mulher.
*Sob a supervisão do editor Anderson Orrico
