
Enquanto boa parte da cidade ainda dorme, dezenas de feirantes já estão de pé. Entre 2h e 3h da madrugada, eles iniciam uma rotina com a busca de mercadoria nos centros de abastecimento e a montam as barracas para receber os primeiros clientes às 6h30. É assim que começa o dia de quem trabalha na Feira da Sete Portas, no centro de Salvador.
O local fará 100 anos de fundação em 2030, tendo sido inaugurado em junho de 1930 pelo professor, deputado e advogado Pinto de Aguiar. Desde sua origem, o local foi reconhecido pelo seu preço baixo.
Neste 25 de agosto, dia do Feirante, o Jornal MASSA! foi ao local ouvir quem mantém a Feira das Sete Portas operando até hoje: os feirantes.

Passada de pai para filho, a vida na feira costuma ser um legado de família. É o caso de Airton Nascimento, de 54 anos, que nasceu e cresceu entre as bancas: sua ligação com a Sete Portas vem de berço e dura a vida inteira.
Eu nasci aqui na feira, nesse box aí
Airton Nascimento
Segundo ele, a mãe estava na feira quando sentiu a dor do parto, e foi encaminhada para casa. Ele revelou a profunda conexão de sua família com o Mercado das Sete Portas, que começou em 1944 ainda com seu avô, passando para seu pai, e que hoje segue com ele e o irmão Jair. “Somos da região do município de São Felipe. Meu avô começou aqui em 1944, tendo como primeiro box esse aí", apontando para frente, onde agora é um box desativado, e onde foi o local de seu nascimento.

Para o feirante Eliomar Chagas, a ligação com a feira também começou com a família vinda do recôncavo da Bahia. Seu pai é do município de Maragojipe e estabeleceu-se no mercado vendendo frutas e verduras. “Meu pai passava a semana aqui, mas morava no interior. Todo fim de semana ele voltava pra casa”. Com 52 anos de idade, ele lembra que começou a ajudar o pai trabalho aos 16 anos, quando segundo ele, estava buscando independência financeira. “Eu tava afim de sair, de andar, de ganhar minha grana e fui me estabelecendo”.

Se adaptar é preciso
Com o tempo, os dois feirantes foram ampliando a variedade de produtos que eram vendidos originalmente. Airton conta que no caso dele, foi complicado convencer o pai, que vendia produtos perecíveis como frutas e verduras, em especial banana (terra e prata), a fazer a transição para produtos menos perecíveis e essenciais da culinária baiana, como camarão seco, azeite de dendê, castanhas e feijão. “Em 1995 [a banca] passou para mim e meu irmão. Fizemos uma negociação na época com o meu pai que foi bem dura para ele entender: retirar o produto perecível para um não perecível.” relembrou.
Assim como a barraca de Eliomar, a Feira das Sete Portas também passou por transformações ao longo dos anos. Ele lembra que, há cerca de 25 anos, o local era “cheio de barracas”, e não contava com o estacionamento que hoje ocupa parte do antigo espaço da feira.
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Em uma cidade com tantas feiras, como a Rótula da Feirinha, em Cajazeiras, a Feira da Joana Angélica, no centro da cidade, e a Feira do Japão, na Liberdade, as Sete Portas destaca sua presença pelo preço e tradição. A cliente Irenilda da Cruz, de 50 anos, compra no local desde criança. “Desde pequena eu frequento isso aqui. Houveram muitas mudanças positivas”, lembrou.
Com tantas opções de onde comprar, ela prefere o local pelas boas oportunidades de compra de massa de acarajé e camarão, e além de realizar encomendas no local.
Se a quantidade de estabelecimentos no local mudou, as ferramentas e formas de vender também acompanharam essas transformações. Enquanto relembra a trajetória da família na feira, Airton aponta para um equipamento que, hoje, considera essencial para os feirantes que trabalham com itens da culinária baiana: a máquina de moer feijão. Segundo ele, sua família foi a primeira a introduzir a inovação na feira, substituindo as antigas máquinas. “Era uma máquina terrível! parecida com essa mais grandona”.
De acordo com Airton, o equipamento antigo apenas quebrava o feijão deixando muitas cascas, diferente da máquina atual, que entrega o produto totalmente moído e limpo.

A forma de vender na feira não é a mesma de antes. Se no passado, clientes como Irenilda, moradora do bairro de Sussuarana, precisavam se deslocar até o local para escolher os produtos pessoalmente, agora não mais. Os feirantes fazem entregas a domicílios. Eliomar estima que entre 25% e 30% dos seus clientes utilizam o serviço de entrega.
cerca de 30%, 25% dos meus clientes a gente manda levar em casa
Eliomar Chagas
Airton conta que, para ele, a ideia do serviço de entrega surgiu de forma espontânea durante uma conversa, uma brincadeira entre amigos da escola. “Isso tudo surgiu em um bate-papo entre nossos amigos de escola. Um dos meus amigos de escola estava com uma moto no período e disse: ‘Deixa que eu faço’. Depois tivemos outro papo de novo: ‘Porque você não bota entrega a domicílio?’”, relembra.
O que faz abrir as portas
Unidos por uma rotina que pode ultrapassar 12 horas de trabalho, os feirantes das Sete Portas convivem diariamente com o cansaço, a falta de horários fixos e a necessidade de garantir o próprio sustento. Ainda assim, é na feira que encontram não apenas uma fonte de renda, mas também histórias de família, memórias e um sentimento de pertencimento que ajuda a explicar por que, mesmo diante das dificuldades, continuam abrindo as portas todos os dias.
A jornada de Airton, por exemplo, começa entre 5h e 6h e pode se estender por 13 ou 14 horas, sem horário certo para terminar. Entre viagens, entregas e o trabalho na feira, a rotina é desgastante. Eliomar também madruga: às segundas, quartas e sextas-feiras, acorda às 2h30 para fazer compras; nos outros dias, o despertador toca por volta das 3h30 e 4h. Para Cátia, feirante que diferente dos outros não herdou a profissão, mas atua a mais de 20 anos na feira, os horários também não seguem uma lógica confortável a rotina intensa já faz parte da vida.

Para ela, ser feirante também significa ter que garantir o próprio sustento ou, como ela define, “fazer o próprio salário”. Mesmo diante das dificuldades, ela construiu uma relação com a feira que ultrapassa o trabalho. “Eu gosto de estar aqui. Já criei um laço aqui com o pessoal, me sinto à vontade”, afirma.
A ligação de Cátia com as Sete Portas começou há mais de duas décadas, quando foi ajudar a mãe em uma diária. Ela acabou permanecendo e, casou-se com um feirante e com o passar dos anos, consolidou sua trajetória no local.
A frase “A feira representa tudo para mim” se repete entre os vendedores. O local é, muitas vezes, o responsável por garantir o sustento de suas famílias, criando também um enorme sentimento de gratidão. “Tudo que eu tenho vem através daqui”, conta Eliomar.

Para Airton, no entanto, permanecer na feira também significa dar continuidade a uma história familiar. Com lágrimas nos olhos e a voz embargada, ao ser perguntado sobre o porquê de continuar sendo feirante naquele local, ele lembrou do pai, já falecido, que deu início à ocupação que segue atualmente. “É um legado de família. Eu lembro do meu pai, que era muito amigo, parceiro, uma pessoa formidável”.
As portas da Sete Portas para os feirantes significam muito além de um local de trabalho. Ela educa, ensina a viver e a lidar com os outros e ocupa, para Airton, um lugar que se aproxima do materno: “uma grande mãe”. Entre jornadas exaustivas, dificuldades e memórias construídas ao longo dos anos, é esse vínculo que ajuda a explicar o que faz os feirantes seguirem a profissão.

