De olho no altar: aplicativos de namoro para evangélicos viram febre

Saiba se é pecado, se funciona e conheça histórias reais de quem já usou

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É bênção? - 04/04/2026, 10:00 - Dara Medeiros

Entre orações e os algoritmos dos aplicativos de relacionamento cristãos, muitos evangélicos do Brasil estão usufruindo da tecnologia para achar o seu par ideal. Enquanto os varões e varoas mais tradicionais acreditam que a prática pode ser uma interferência mundana negativa, outros testemunham que se conectaram com a pessoa certa e receberam uma bênção divina para além das telas.

Um dos aplicativos mais populares é o Amor em Cristo, que foi lançado em 2003 e tem como objetivo criar uma comunidade evangélica virtual que permita que homens e mulheres com propósitos de vida e fé semelhantes se conheçam e construam um relacionamento sério. Práticas como adultério ou relações com pessoas do mesmo sexo, que são consideradas pecado pelo cristianismo, não são permitidas.

Foi nesse cenário que a neuropsicopedagoga Cássia Zimmermann encontrou Rosino Almeida, em 2011, e deu início a uma história de amor que continua sendo escrita dia após dia, ao longo dos últimos 15 anos. Quando o primeiro contato aconteceu, no chat do Amor em Cristo, o casal não imaginava que chegaria tão longe, formaria uma família e teria dois filhos: o Salomão e a Serena. A trajetória deles foi desafiadora, mas tudo fluiu para que uma aliança se concretizasse.

Cássia e Rosino se conheceram através do aplicativo Amor em Cristo e formaram família
Cássia e Rosino se conheceram através do aplicativo Amor em Cristo e formaram família | Foto: Arquivo pessoal

O amor de Cássia e Rosino

Na época que deram início ao período de conversas, tanto Cássia Zimmermann quanto Rosino Almeida tinham dúvidas e receios sobre o amor, pois guardavam algumas frustrações de relações anteriores, mas ambos carregavam a esperança de que viveriam o melhor de Deus na área sentimental.

Em entrevista ao MASSA!, a neuropsicopedagoga contou que havia encerrado um noivado e não queria se relacionar com muitos homens depois disso. Para ela, que desejava seguir as orientações da Bíblia Sagrada, o ideal seria firmar o próximo compromisso com a pessoa que seria o seu futuro marido, evitando um desgaste emocional e até mesmo espiritual. Cássia fez um propósito de jejum e oração para alcançar o seu objetivo.

A mulher, que se descreve como serva de Deus, é do tipo que leva a sério o versículo que diz que “a fé sem obras é morta”. Mesmo crendo que seu caminho cruzaria com o do grande amor da sua vida, ela não quis esperar sem tomar atitudes que facilitassem o processo e decidiu dar uma chance para o aplicativo de relacionamento evangélico. Entre outros perfis, ela se agradou com o de Rosino e aceitou evoluir a conversa para o Facebook.

Os medos e desafios antes do primeiro encontro

Como medida de segurança, a terapeuta olhou o perfil do pretendente de cabo a rabo para garantir que não estava sendo levada para o mal caminho: “Fui stalkear e eu vi que tinha mais coisas assim de família, de igreja, que realmente não tinha nada do que estava contrário do que eu buscava”.

Com cerca de um mês se conhecendo virtualmente, Rosino Almeida propôs que eles se encontrassem pessoalmente pela primeira vez. Inicialmente, ele queria levá-la para tomar sorvete em um dos pontos mais românticos de Brasília, à beira de um lago, mas uma amiga de Cássia não aprovava a ideia dela sair com um rapaz da internet e colocou um pouco de medo. Foi então que ela preferiu ir ao shopping.

“Eu liguei para a minha amiga imediatamente e falei: ‘Olha, aconteceu isso, conheci esse rapaz’. Ela disse: ‘Você é louca, você não vai de jeito nenhum, porque ele pode te matar’. E nesse tempo não tinha nem WhatsApp, a gente falava muito por SMS, Orkut, MSN e Messenger, mas decidi dar uma chance”, relembrou.

Outro detalhe é que, além da preocupação, a amiga de Cássia não achou Rosino bonito. “Quando eu mostrei a foto dele pra ela, ela pegou e falou bem assim: ‘Amiga, deixa eu te falar uma coisa, ele é desgraçado de feio’. Menina, mas eu ri tanto e falei que não tem nada a ver e ainda brinquei que os feinhos é que são bons. Hoje falo isso porque ele me permite, não tem problema nenhum que a gente brinque, somos bem resolvidos e eu também não sou nenhuma Barbie”, disse ela, aos risos.

Rosino e Cássia estão juntos há 15 anos e são pais do Salomão e da Serena
Rosino e Cássia estão juntos há 15 anos e são pais do Salomão e da Serena | Foto: Arquivo pessoal

Para a terapeuta e palestrante, um dos motivos de muitas mulheres da igreja ainda estarem solteiras ou em um relacionamento frustrado é o fato de se apegarem mais à aparência do que ao caráter de um homem.

“Às vezes o que o Senhor tem pra gente vai muito além da aparência. Então a pessoa deixa de ficar com uma pessoa de caráter, uma pessoa bacana, um homem que vai te valorizar, por conta da aparência. Esse não foi o meu caso”, pontuou.

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Arriscar valeu a pena, porque eles se deram super bem e conversaram por horas durante o encontro. Os dois seguiram a passos lentos, consolidando uma relação amigável, até que os sinais de que poderiam dar certo juntos como um casal começaram a aparecer. Cássia deu um toque de que estava disponível para ter algo sério, durante uma conversa, e então Rosino não perdeu tempo e a pediu em namoro.

O espaço virtual não impede o trabalhar de Deus

Crendo no princípio de onipresença e onipotência, Cássia Zimmermann defende que não há impedimentos para que Deus também atue no espaço virtual. Foi justamente com o rapaz que conheceu no app de relacionamento que ela viu o cumprimento de várias promessas divinas para a vida dela.

Psicopedagoga acredita que Deus estava trabalhando na vida dela mesmo no ambiente virtual
Psicopedagoga acredita que Deus estava trabalhando na vida dela mesmo no ambiente virtual | Foto: Reprodução

As orações com pedidos por confirmação de um relacionamento, que são muito comuns no meio cristão, pareciam estar sendo atendidas. Os sentimentos que Rosino Almeida ainda tinha por uma ex desapareceram, a angústia de ter um noivado frustrado deram lugar para a paz de Cássia, e a lista com as características da pessoa ideal, que ambos tinham feito antes mesmo de se conhecerem, foi preenchida uma pelo outro.

“Nessa lista tinha dez tópicos do que ele queria e do que ele orava para ter na mulher que fosse a esposa dele. Um dia ele achou essa listinha, olhou e me viu nessa lista, batia exatamente igual e ele viu que era uma confirmação de Deus”, falou.

Segundo a neuropedagoga, o segredo é alinhar as próprias escolhas com a vontade de Deus e sempre se basear no que a Bíblia diz: “Eu carregava dois versículos que me guiavam. Um fala que quando vier o que é perfeito, o imperfeito desaparecerá, e o outro diz que as bênçãos do Senhor não trazem dores e ainda trazem prosperidade. Eu estava me sentindo bem, não tinha peso”.

Nem tudo são flores na vida do crente

Uma mulher evangélica de Salvador, que é da igreja desde a infância e preferiu não ser identificada na reportagem, teve uma experiência completamente diferente nos aplicativos de namoro cristãos. Para ela, não apareciam muitas opções interessantes de possíveis parceiros e isso trouxe frustração.

Algumas pessoas se frustram nos aplicativos de relacionamento cristãos
Algumas pessoas se frustram nos aplicativos de relacionamento cristãos | Foto: Imagem gerada por IA

“O motivo que me levou a usar o aplicativo foi querer encontrar pessoas da mesma crença religiosa que eu, e essa era a proposta do Amor em Cristo, mas a minha experiência não foi positiva, porque tinha pessoas com idades um pouco avançadas, com um estilo de vida um pouco diferente do meu, que eram mais velhas, mais pacatas, ou então de congregações mais tradicionais. Eu sou de uma congregação mais renovada, então eu vi que isso seria um empecilho”, explicou.

A mulher não vê problema em procurar por uma boa dessa forma, mas acredita que os aplicativos para o público geral, que também permitem pessoas de outras religiões, acabaram ganhando força por causa da escassez de “varões” mais jovens nesses apps, pelo menos na capital baiana.

“Eu acho que algumas pessoas que são evangélicas têm se decepcionado com essas plataformas ditas cristãs e têm usado as tradicionais, como o Tinder”, opinou.

É pecado usar aplicativo de namoro evangélico?

Saiba se é pecado usar aplicativos de relacionamento sendo evangélico
Saiba se é pecado usar aplicativos de relacionamento sendo evangélico | Foto: Reprodução

Apesar da fama dos aplicativos de namoro evangélicos, muitas pessoas ainda ficam com dúvida se a prática é pecado. Para o pastor Gerson Pires, líder do Ministério Profético Sol da Justiça, no Subúrbio Ferroviário de Salvador, não há pecado nessa questão, mas ele indica cautela para os fiéis e prefere que os relacionamentos sejam construídos no mundo real.

“Como pastor evangélico e até por experiência do que eu já vi algumas pessoas passarem, eu acho que é um pouco complicado, porque mesmo quando as pessoas se conhecem, passam um tempo entre namoro e noivado, ainda correm o risco de ter as suas lutas e as suas decepções pensando que se conhecem. Imagine em alguns casos que as pessoas não se conhecem e aí vão assumir um compromisso mais sério”, declarou.

Pastor Gerson Pires
Pastor Gerson Pires | Foto: Reprodução/Instagram @borapastor

O direcionamento do pastor é que, caso alguém busque um relacionamento por meio online, opte por conhecer bastante o parceiro antes de assumir um namoro e, de preferência, tenha contato pessoalmente.

“Se for gente que se conheceu assim e vai ter o primeiro contato, vamos buscar se conhecer, não vamos logo assumir um relacionamento sério, sair por um tempo, começar a amadurecer. Só que em alguns casos acontece que a pessoa mal se conhece, já vai assumindo compromisso e se complica. Já vi casos de darem certo, mas já vi vários outros casos de darem errado”, finalizou.

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