
Muito antes de se tornar um dos pilares do cristianismo, a Páscoa tem origem na tradição judaica. A chamada Pessach é uma das festas mais importantes do judaísmo e celebra a libertação do povo hebreu da escravidão no Egito, conforme descrito no livro do Êxodo.
O termo Pessach significa “passagem”, em referência ao momento em que, segundo a tradição bíblica, o anjo da morte teria “passado por cima” das casas dos hebreus durante a última praga do Egito, poupando seus primogênitos. A partir desse episódio, inicia-se a jornada rumo à liberdade, liderada por Moisés.
A celebração é marcada pelo Seder, uma refeição ritual repleta de simbolismos. Entre os elementos presentes estão o pão sem fermento (matzá), que remete à pressa na fuga do Egito, e as ervas amargas, que recordam o sofrimento vivido durante a escravidão. Cada item da refeição tem um significado específico, reforçando a memória coletiva e a identidade do povo judeu.
Páscoa passou por ressignificação
Com o surgimento do cristianismo, a Páscoa passou por uma ressignificação. Para os cristãos, a morte e ressurreição de Jesus Cristo ocorreram justamente durante a celebração da Pessach judaica, o que estabeleceu uma conexão simbólica entre as duas tradições.
Nesse contexto, Jesus é interpretado como o “Cordeiro de Deus”, cujo sacrifício representa a redenção da humanidade. Assim, a ideia de libertação, presente na Páscoa judaica, é reinterpretada como libertação espiritual no cristianismo.

A Semana Santa se tornou um dos períodos mais importantes do calendário cristão, mobiliza milhões de fiéis em todo o mundo em torno da memória da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo, e passa longe de apenas comer peixe e comida baiana. No entanto, apesar de sua forte associação com o cristianismo, o significado da Páscoa atravessa diferentes religiões e tradições, sendo interpretado de maneiras diversas, ora como celebração, ora como reflexão simbólica, ou mesmo como um período sem centralidade litúrgica.
Igreja Adventista do Sétimo Dia
Na Igreja Adventista do Sétimo Dia, por exemplo, o período é marcado por uma forte ênfase espiritual e social. De acordo com o pastor Manoel Conceição, responsável por liderar ações da igreja em Salvador e região metropolitana, a Páscoa representa um convite à contemplação do sacrifício de Cristo e, sobretudo, à celebração da ressurreição.
“A ressurreição de Jesus é o que sustenta a nossa fé. Como diz o apóstolo Paulo, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé. Por isso, esse é um momento de reflexão, mas também de esperança”, destaca.
Além dos cultos e programações especiais realizadas em igrejas, escolas e espaços públicos, a comunidade adventista também reforça o compromisso social durante o período. Um dos exemplos é o Mutirão de Páscoa, ação solidária que arrecada e distribui alimentos para famílias em situação de vulnerabilidade. Em Salvador, a iniciativa chega a mobilizar a entrega de 30 a 40 toneladas de alimentos a cada edição.

Além da realização anual da Semana do Calvário, promovida pela igreja em todo o Brasil. Trata-se de uma semana especial de oração, com cultos realizados diariamente, voltados à reflexão sobre os últimos momentos de Cristo e o significado do sacrifício na cruz. A programação inclui mensagens temáticas, momentos de louvor e cerimônias como a Santa Ceia, considerada um dos rituais mais simbólicos da fé cristã.
Igreja católica
Na Igreja Católica, a Páscoa é considerada o centro da fé cristã e a principal celebração do calendário litúrgico. Segundo o padre Lucas Almeida, coordenador da Comissão Arquidiocesana de Liturgia (CAL) da Arquidiocese de São Salvador da Bahia, a data representa a vivência atual da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo.
“A Igreja vive hoje aquele evento de salvação realizado por Jesus Cristo por amor a todos, sua entrega na cruz e sua ressurreição”, afirma. Dessa forma, mais do que recordar um fato histórico, os fiéis são convidados a experimentar esse mistério no presente, renovando a fé a partir do amor e da entrega de Cristo.

A preparação para esse momento acontece durante a Quaresma, período marcado por práticas como oração, jejum e penitência. De acordo com o sacerdote, esses exercícios espirituais têm como objetivo promover uma transformação interior, conduzindo o fiel a uma vida mais próxima dos ensinamentos de Jesus. “A penitência, a oração e a caridade ajudam o homem a se tornar novo em Cristo”, destaca. A culminância desse processo ocorre na Semana Santa, especialmente no Tríduo Pascal, que inclui celebrações como a Última Ceia, a Paixão de Cristo e a Vigília Pascal, reforçando a mensagem central da Páscoa: a vitória da vida sobre a morte e a renovação da esperança.
Espiritismo
Enquanto isso, no espiritismo, a Páscoa não é celebrada como uma data litúrgica. Ainda assim, o período não passa despercebido. Segundo a palestrante espírita Tânia Menezes, a data é compreendida a partir de um simbolismo profundo ligado à transformação moral do indivíduo.
“A Páscoa representa a libertação. Não apenas no sentido histórico, como no caso do povo judeu, mas uma libertação interior, do egoísmo, do orgulho e das imperfeições humanas”, explica.

Na visão espírita, a ressurreição de Jesus reforça a ideia da continuidade da vida após a morte, sendo considerada uma demonstração de sua autoridade moral e espiritual. Apesar de não haver celebrações específicas, muitos adeptos utilizam o período para intensificar reflexões sobre a conduta pessoal e os ensinamentos de Cristo.
Candomblé
Já no candomblé, a Páscoa não integra o calendário religioso. A yalorixá Jamily de Oxum explica que a religião segue uma lógica própria de organização, baseada em ciclos, rituais e orientações das lideranças espirituais de cada terreiro.
“As datas no candomblé estão ligadas aos ciclos da vida, como iniciações e obrigações. Cada casa tem sua dinâmica, e o mais importante é o respeito aos ensinamentos ancestrais”, afirma.
Apesar disso, há uma convivência respeitosa com o calendário cristão. Durante a Quaresma, muitos terreiros reduzem ou suspendem atividades, em consideração ao significado do período para outras religiões. A prática evidencia o diálogo inter-religioso e o respeito mútuo entre diferentes tradições de fé.
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Elementos comuns
A análise das diferentes religiões revela que, embora nem todas celebrem a Páscoa da mesma forma, o período carrega elementos comuns, como reflexão, renovação e transformação. Seja na lembrança histórica da libertação do povo judeu, na celebração da ressurreição de Cristo ou na busca por evolução espiritual, a data convida os fiéis a revisitar valores e fortalecer a fé.
Em uma sociedade marcada pela diversidade religiosa, compreender essas diferentes perspectivas contribui para o respeito e o diálogo entre crenças, evidenciando que, mesmo com práticas distintas, muitos caminhos convergem para princípios semelhantes.
*Sob a supervisão do editor Anderson Orrico
