27º Salvador, Bahia
previsao diaria
Facebook Instagram
WHATSAPP
Receba notícias no WhatsApp Entre no grupo do MASSA!
Home / Cidades

Comidas de Rua em Salvador - 07/04/2026, 10:00 - Dara Medeiros

Da música ao mingau: pianista encontra sustento nas ruas de Salvador

Luciano Neves começou a empreender em meio aos desafios da pandemia

Luciano Neves, do Mingau do Lu, empreende nas ruas de Salvador
Luciano Neves, do Mingau do Lu, empreende nas ruas de Salvador |  Foto: José Simões/Ag. A TARDE

A Covid-19 trouxe impactos para diversas áreas da vida das pessoas ao redor do mundo, e em Salvador não foi diferente. Nascido e criado no bairro da Cidade Nova, o jovem músico Luciano Neves ficou impossibilitado de manter o seu sustento com a arte durante a pandemia e precisou se reinventar para garantir o pão de cada dia. A solução dele foi arregaçar as mangas e sair para vender mingau nas ruas.

Diariamente, Luciano acorda de madrugada para preparar quatro tipos de mingau, transporta baldes quentes e pesados com os produtos para o bairro do Campo Grande, organiza a sua barraquinha, passa a manhã inteira atendendo os clientes e, mesmo distante da grande paixão, que é a música, ele não deixa o sorriso sair do rosto.

“No período da pandemia, eu passei por um apertozinho financeiro, estava precisando ter uma renda, e aí um amigo me sugeriu vender mingau. Eu achei estranha a sugestão dele, mas com a necessidade, acabei me jogando. Aí, eu conheci uma pessoa que fazia mingau e peguei para revender. Inicialmente, eu fiquei lá no Hospital Santo Amaro, depois vim para esse ponto de cá e as coisas começaram a fluir, fui fazendo clientela”, explicou ele em entrevista ao MASSA!.

Lu vende mingau de segunda a sexta-feira, a partir das 4h50 da manhã
Lu vende mingau de segunda a sexta-feira, a partir das 4h50 da manhã | Foto: José Simões/Ag. A TARDE

Seis anos se passaram e muitas coisas mudaram na vida do empreendedor. Determinado e carismático, ele conquistou uma freguesia fiel e passou a ser conhecido na região apenas como Lu, do Mingau do Lu. A aceitação foi tão grande que ele passou a ouvir conselhos dos clientes e decidiu produzir a própria receita de mingau. Agora, aos 32 anos, ele não só vende como também prepara os mingaus de aveia, milho, tapioca e o tradicional mungunzá, com opções de R$ 4, R$ 5 e R$ 6.

“Apesar da rotina pesada e da dificuldade que tem, como qualquer atividade que você vai exercer, você vem trabalhar feliz porque você é bem tratado, é considerado. E tem um lado mais humano, já que aqui tem muitas pessoas em situação de rua, também tem esse lado das pessoas fazendo a sua caridade como podem. Não que eu pensasse que isso ia acontecer, mas acontece e eu acho legal”, declarou ele.

Carinho dos clientes motiva o empreendedor a continuar
Carinho dos clientes motiva o empreendedor a continuar | Foto: José Simões/Ag. A TARDE

Para dar início a um dia de trabalho às 4h50, na Avenida 7 de Setembro, em sua barraquinha localizada na esquina em frente ao Hotel da Bahia by Wish, Lu acorda 1h30 da madrugada para começar a colocar os mingaus no fogo. Depois, ele ainda organiza todo o material do trabalho e limpa as panelas. Nos fins de semana, a prioridade é acordar cedo para fazer compras dos alimentos que usa, na Feira de São Joaquim, para oferecer produtos frescos e da melhor qualidade possível.

O poder da internet

Um fator importante para as vendas do Mingau do Lu, assim como na trajetória de outros empreendedores, foi a internet. A partir das redes sociais, muitos micro negócios ganharam visibilidade e puderam expandir o seu alcance por causa do impacto que o mundo virtual trouxe. Assim foi na vida de Luciano.

A movimentação devido à divulgação na web aconteceu de forma muito espontânea, depois que a arquiteta Letícia Durlo, de 30 anos, saiu do Sul do Brasil para fazer um mestrado na Universidade Federal da Bahia (UFBA), sobre como os pontos de venda de comida constituem a paisagem de Salvador e compartilhou os seus objetos de estudo na própria página no TikTok e Instagram, batizada de Comida de Rua em Salvador. Em apenas um ano, ela conseguiu influenciar positivamente os lucros de alguns trabalhadores de Salvador.

Letícia Durlo é arquiteta e faz mestrado na UFBA
Letícia Durlo é arquiteta e faz mestrado na UFBA | Foto: José Simões/Ag. A TARDE

“Eu vim fazer um mestrado em Urbanismo na UFBA e é sobre como a comida de rua constitui a paisagem de Salvador. E Salvador é o lugar, o berço da comida de rua, o berço do Brasil, e a comida de rua é muito presente, então tinha que ser aqui! A colonização e todo o processo histórico das mulheres ganhadeiras fez com que a presença da comida de rua ainda fosse muito forte aqui, no Sul não tanto”, disse ela em entrevista ao MASSA!.

Ela conheceu Lu naturalmente, pelo fato de morar próximo ao local onde ele vende o mingau. A aproximação foi como cliente, mas em pouco tempo eles se tornaram grandes e verdadeiros amigos.

“O Lu trabalha muito pertinho da minha casa. Então todo dia a gente passava por aqui, via ele, comia o mingau e aos pouquinhos a gente foi criando uma amizade muito grande. Um dia eu perguntei ao Lu se ele topava gravar um vídeo, contar um pouquinho dessa história. E aí ele topou, e aí também a partir dele outras pessoas foram querendo aparecer, querendo contar um pouquinho mais a sua história”, relembrou a mestranda.

Letícia e Lu se tornaram grandes amigos
Letícia e Lu se tornaram grandes amigos | Foto: José Simões/Ag. A TARDE

Leia Também:

Muitos influenciadores digitais fazem conteúdos parecidos, indicando locais para comer bem e barato nas ruas da capital baiana. Porém, para Letícia Durlo, o processo é um pouco diferente. Como pesquisadora, as gravações são apenas o complemento daquilo que ela tem estudado.

“Na verdade, não é nem um projeto de influência, é um projeto de valorização e difusão da comida de rua em Salvador. Então a ideia é justamente essa: a partir das pessoas que eu vou me aproximando no campo de pesquisa, quem quer, quem topa trocar uma ideia e falar sobre essa história, eu vou colocando ali. Então é um processo bem natural, menos de influência e mais de campo e vida”, detalhou.

Quem também analisa essa herança cultural é Thaísa Barros, socióloga e ativista cultural: “O mingau na Bahia, especialmente o de milho (conhecido como mungunzá ou canjica), é um prato que une saberes africanos e ingredientes indígenas, resultando em uma deliciosa combinação”.

Thaísa Barros fala sobre origem do mingau na Bahia
Thaísa Barros fala sobre origem do mingau na Bahia | Foto: Dux Almeida/Divulgação

Os sonhos no coração do Lu

Luciano Neves estuda piano e fazia parte do coro juvenil do Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia (Neojiba) antes de precisar abrir mão da música para focar no trabalho. Com o passar do tempo, a sensação gratificante de comercializar um mingau de alta qualidade e ter trocas genuínas com centenas de clientes que passam diariamente em seu carrinho foi ganhando espaço. Agora, ele carrega no coração alguns sonhos que envolvem o equilíbrio perfeito entre suas duas paixões.

“Hoje o sonho é a casa própria, conseguir uma estabilidade financeira e o tempo para fazer as coisas que, de fato, me fazem feliz. Ter um tempinho para tocar, estudar música, ler também livros, ter um tempo também para viajar e sair”, revelou.

Imagem ilustrativa da imagem Da música ao mingau: pianista encontra sustento nas ruas de Salvador
Foto: José Simões/Ag. A TARDE

De olho nas metas, o trabalhador não mede esforços para fazer o próprio negócio prosperar. O seu próximo objetivo é ter condições de contratar uma pessoa que possa auxiliar em algumas tarefas e permitir que ele desfrute de uma vida para além dos afazeres e até mesmo estudar gastronomia para se capacitar cada vez mais.

“Eu penso na possibilidade de ter alguém para ajudar, para fazer as outras funções, que no caso me daria esse tempo pela tarde para fazer um curso e outras coisas”, pontuou Luciano.

Quem prova, aprova e cria um laço para a vida

A barraca do Mingau do Lu não fica vazia. Seja por clientes que compram o mingau e saem em direção ao trabalho, faculdade e demais afazeres, seja pelas pessoas que passam de carro para buscar seus pedidos ou seja por quem se encanta com a simplicidade do vendedor e se aproxima para conversar. Uma das pessoas que se encaixa nesse último perfil é Rusival Oliveira, de 59 anos, que trabalha com carrinho de publicações.

Imagem ilustrativa da imagem Da música ao mingau: pianista encontra sustento nas ruas de Salvador
Foto: José Simões/Ag. A TARDE

Rusival é morador da Barra, mas está sempre no Campo Grande devido ao serviço. Já faz parte da rotina tirar um tempo para ir na barraca: “Todo dia de manhã eu passo aqui, converso com ele e tomo o mingau”.

O cliente não mediu palavras para elogiar o atendimento, o produto e também a personalidade do jovem Luciano. Ele acabou criando um grande laço com o rapaz, assim como muitos moradores que fazem questão de cumprimentá-lo, ainda que não comprem o produto no dia.

Rusival Oliveira é cliente fiel do Mingau do Lu
Rusival Oliveira é cliente fiel do Mingau do Lu | Foto: José Simões/Ag. A TARDE

“O diferencial dele é a higiene 100%, ele trabalha com máscara! Depois da pandemia a gente ficou com aquela coisa de não contaminar os alimentos e ele leva isso a sério, e ele tem uma personalidade muito agradável, é educado, trata bem a clientela, é gentil, hospitaleiro, paciente, trata as pessoas com muita dignidade, até mesmo quando um pedinte vem aqui, ele trata de uma forma muito digna a essas pessoas. Ele poderia simplesmente entregar o copo e pronto, mas faz do mesmo modo que ele trata os outros clientes que pagam, eu acho isso incrível, muito bonito. Ele não é uma pessoa gananciosa, não se preocupa só com ganhar o dinheiro, se preocupa em apresentar um mingau de qualidade e tratar bem as pessoas. tudo isso acrescenta ao trabalho dele”, finalizou.

exclamção leia também