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Representatividade -

A roupa de Mãe Bernadete no Museu Nacional e o que ela guarda

Doação de peça de líder quilombola ao espaço simboliza a virada de chave no combate ao apagamento de memória

A doação foi feita pelo professor Jurandy Pacífico dos Santos, filho da ialorixá, durante a 3ª edição do Diálogos da Reconstrução
A doação foi feita pelo professor Jurandy Pacífico dos Santos, filho da ialorixá, durante a 3ª edição do Diálogos da Reconstrução |  Foto: Felipe Cohen / Projeto Museu Nacional Vive

O que faz uma roupa virar história? Quem merece ser lembrada, qual história vale ser contada para as próximas gerações? No fim de outubro, uma dessas escolhas pintou no Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Um vestido branco com detalhes em azul, peça de uso pessoal de Mãe Bernadete, passou a fazer parte do acervo, o conjunto de peças que a instituição preserva.

Ialorixá e líder do Quilombo Pitanga dos Palmares, em Simões Filho, na Bahia, Mãe Bernadete foi assassinada em 2023. A doação foi feita pelo filho dela, Jurandy Pacífico dos Santos, durante a 3ª edição do Diálogos da Reconstrução, encontro do museu com lideranças quilombolas.

Quem o museu escolhe lembrar

Durante muito tempo, os museus brasileiros guardaram sobretudo a memória de quem estava no poder. A historiadora Michele de Barcelos Agostinho, do Museu Nacional/UFRJ, diz isso sem rodeios em entrevista ao MASSA!.

“Não podemos mais aceitar que o espaço museológico seja dedicado à exaltação da elite, de figuras da monarquia ou de homens brancos consagrados”, afirma. Na visão dela, é preciso trazer para dentro do museu “aquelas e aqueles que conhecem o chão desse país”, que “por muito tempo ficaram apartadas e apartados das narrativas oficiais”.

Na prática, quando só alguns grupos aparecem na história contada oficialmente, os outros ficam do lado de fora dela. A entrada do vestido de Mãe Bernadete no acervo é uma forma de começar a corrigir isso.

Uma instituição que também precisa se rever

A historiadora lembra que o próprio Museu Nacional tem uma história a reparar. A reconstrução da instituição acontece com o apoio de lideranças quilombolas e indígenas, “neste espaço de ciência que, no século XIX, criou e difundiu teorias raciais que subalternizaram a população negra e indígena”. Para ela, “ter o apoio e a presença dessas lideranças em nosso Museu hoje também demonstra o compromisso da instituição com a reparação histórica”.

Uma mulher que representa muitas

Segundo Michele, Mãe Bernadete entrou na lista de memórias do museu por causa do que a vida dela simboliza. “Sua trajetória, marcada pela luta por direitos, representa a história de muitas mulheres negras e quilombolas do Brasil”, defende. A historiadora também reconhece o preço dessa luta quando afirma que “a dimensão da violência, infelizmente, ainda marca a vida das pessoas que se engajam nessa luta”.

A ialorixá Mãe Bernadete, líder da Comunidade Quilombola de Pitanga de Palmares, em Simões Filho, foi assassinada em 2023.
A ialorixá Mãe Bernadete, líder da Comunidade Quilombola de Pitanga de Palmares, em Simões Filho, foi assassinada em 2023. | Foto: Arte sobre foto de Walisson Braga / Conaq

De acordo com informações da Agência Brasil, Jurandy destacou, no ato da doação, que a mãe dedicou 72 anos de vida à defesa dos direitos humanos, dos quilombos e do território. Para ele, o vestido não é só um objeto: representa ancestralidade e mantém viva a memória dela. Ele contou ter sido consultado pelo museu e ter escolhido a peça.

O que um vestido pode ensinar

Hoje, o vestido está na reserva técnica, o espaço onde o museu guarda e conserva as peças que não estão em exposição. A ideia, segundo Michele, é que ele ajude a contar uma história maior. O museu prepara uma exposição sobre a história e a cultura africana e afro-brasileira, como determina a Lei 10.639, de 2003, que trata do ensino desses temas.

Michele afirma ainda que a peça traz um tema sensível e exige uma abordagem ética e cuidadosa; mas aposta no valor educativo da peça. “Penso que ajudará a contar os desafios que pessoas negras e quilombolas ainda enfrentam em nosso país, como a defesa de seus territórios e o combate ao racismo, inclusive o racismo religioso”.

Quem decide como ser lembrado

A escolha de Mãe Bernadete não partiu só de dentro do museu. Michele conta que a ideia nasceu de uma conversa dela com Bia Nunes, presidente da Associação de Comunidades Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro (Acquilerj). Dali veio a percepção de que seria importante ter a memória de Mãe Bernadete preservada e reconhecida na instituição.

Para Michele, é esse vínculo com as comunidades que dá sentido ao acervo etnográfico do Museu Nacional. Segundo ela, as peças “portam memórias e conhecimentos das comunidades de origem dos artefatos”. Por isso, o vestido não é tratado como mais um item da coleção.

Aspas

Não estamos falando de coisas, mas sim de pessoas

Michele de Barros, historiadora

O diálogo com as comunidades, afirma a historiadora, já está em curso. Além da Bahia, participam comunidades quilombolas de Minas Gerais e do Rio de Janeiro. E qualquer ampliação, segundo ela, “precisa considerar as expectativas das comunidades e a nossa capacidade para efetivar algumas ações”. Na prática, o que ela descreve é um museu que quer ouvir as comunidades antes de decidir o que contar e como contar.

O que ainda depende de recursos

Ouvir mais comunidades, porém, tem um custo. “Desejamos sim ampliar o diálogo com aqueles e aquelas que desejam colaborar com o Museu, mas operamos com recursos reduzidos. Nem sempre conseguimos atender a todas as ofertas que nos chegam”, diz Michele.

No fim, a pergunta do começo tem resposta. Uma roupa vira história quando alguém decide que ela merece ser guardada, estudada e contada. Agora vamos conhecer como o Museu Nacional vai contar a de Mãe Bernadete.

Memória presente

Uma das principais formas de manter seu legado vivo é continuar falando sobre suas ideias, sua trajetória e seus ensinamentos.

Com esse propósito, em celebração ao mês da Consciência Negra, o MASSA! vai produzir, ao longo de novembro, uma série de reportagens especiais sobre a história e a luta de Mãe Bernadete, com o objetivo de destacar sua contribuição para a preservação da cultura afro-brasileira, a defesa dos territórios quilombolas, o combate ao racismo e à violência contra essas comunidades.

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