
A tradição do Gandhy está ganhando novas cores, ou melhor, novos significados. O maior afoxé do mundo, historicamente marcado pela hegemonia masculina cis-hétero, tornou-se palco de resistência para foliões LGBT+. No Carnaval de Salvador, vestir o turbante e o colar azul e branco passou a ser, para muitos, um manifesto de pertencimento e uma prova de que a fé e a festa não excluem identidades
Este é o caso do maranhense Mariano Filho, de 75 anos, veterano no Carnaval de Salvador, que acompanha há mais de duas décadas o desfile do Filhos de Gandhy. Ao MASSA!, ele afirma que o bloco segue sendo um dos espaços mais acolhedores da folia, apesar de ser tradicionalmente formado por homens cis e heterossexuais.

“O Gandhy é uma maravilha. Não tem preconceito, não tem racismo, nem religioso. É um bloco de paz, de diversão, que acolhe todo mundo. Para mim, é a melhor coisa da Bahia e do Brasil”, afirmou o maranhense.
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Mariano também comentou sobre uma das tradições mais conhecidas do bloco: a entrega do colar, gesto que pode simbolizar um convite à aproximação entre os foliões. De acordo com ele, a prática acontece de forma espontânea e respeitosa, sem imposições. “Existe essa tradição. Se a pessoa aceita, tudo bem. Mas no meu caso, eu não beijo. Já aconteceu de me pedirem, eu entregar o colar, e ficar só nisso. Sem beijo. E está tudo certo”, explicou.
Sonho antigo!
O brasiliense Juscelino Bezerra, de 41 anos, homem cis gay, escolheu o Filhos de Gandhy para realizar um sonho antigo no Carnaval de Salvador. Desfilando pela segunda vez no tradicional afoxé, ele diz que nunca se sentiu atacado dentro do bloco. “Sempre foi um sonho meu sair no Gandhy. Eu acho que é um dos blocos mais belos do Carnaval de Salvador. Até agora, eu nunca vivi nenhum tipo de constrangimento ou discriminação ali dentro”, relatou.

Na avaliação do turista de Brasília, a presença de homens LGBT+ no bloco amplia o próprio sentido da tradição. “Eu sou um homem gay, cis. Os homens são diversos. Se o bloco acolhe essa diversidade, isso é positivo para ele e é algo contemporâneo. Um bloco do século XXI, em 2026, que não incorpora essa pauta, acaba ficando para trás”, finalizou.
