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Perigos da chuva - 16/06/2026, 07:00 - Lorena Conceição*

Perigo: chuva aumenta risco de doenças transmitidas por ratos

Estima-se que, por ano, haja mais de 1 milhão de casos e 50 mil óbitos com leptospirose

Todo cuidado é pouco no período chuvoso
Todo cuidado é pouco no período chuvoso |  Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Da Peste Bubônica ao tifo murino, passando pela leptospirose aos recentes casos de Hantavirus. Todas essas doenças possuem um denominador comum: são transmitidas por roedores. Esses animais estão presentes em todas as cidades, com um maior ou menor contato, mas sempre estão presentes.

Em entrevita ao MASSA!, o Biólogo, Doutor em ecologia, Fábio Neves, colaborador do laboratório de Patologia e Biologia Molecular no projeto Eco-epidemiologia de Leptospira Urbana e coordenador Programa Integrado em Saúde Ambiental e do Trabalhador (PISAT) explicou os perigos causados pelos animais.

Segundo o biólogo, estima-se que, por ano, haja mais de 1 milhão de casos e 50 mil óbitos de pessoas com Leptospirose. Já no estado da Bahia, de acordo com dados da plataforma Datasus, do Ministério da Saúde, houve 16 óbitos por leptospirose no ano passado. Em 2026, até o momento, 11 casos foram notificados, com 2 mortes.

Dr Fabio Neves no Instituto de Saúde Coletiva
Dr Fabio Neves no Instituto de Saúde Coletiva | Foto: Raphael Muller / Ag. A TARDE

Em Salvador, as regiões do Subúrbio e da Cidade Baixa apresentam o maior número de casos da doença. Informações detalhadas podem ser consultadas nos boletins da Secretaria de Saúde.

Tipos de ratos e seus perigos

Existem três espécies principais de ratos em áreas urbanas, que variam pelos tamanhos e ambientes:

➡️Ratazana (Rattus norvegicus): Maior porte, encontrada em lixeiras e esgotos. É o principal reservatório da Leptospira, a bactéria da leptospirose, e representa 90% dos roedores encontrados em comunidades.

➡️Rato-de-telhado (Rattus rattus): São aqueles encontrados em árvores ou em cima de telhados, têm baixa prevalência, mas também é reservatório de Leptospira

➡️Camundongo (Mus musculus / rato-domiciliar): Conhecido também como “Calunga” são ratos de comportamento domiciliar, não expostos aos esgotos. Não é reservatório de Leptospira, contudo, transmite outras doenças especialmente verminoses.

“Hoje, na nossa comunidade, 90% dos ratos que a gente encontra é o Rattus norvegicus, sendo esse o principal reservatório da leptospirose, o agente causador da leptospirose”, afirma Fábio.

Tipos de roedores urbanos
Tipos de roedores urbanos | Foto: Raphael Muller / Ag. A TARDE

A proximidade do Ratazana com as pessoas em áreas precárias, a torna o maior risco para a leptospirose.

“Os principais fatores que afetam a abundância de roedores são fatores bem comuns no nosso cotidiano: a presença de lixo exposto, que fornece alimento para os roedores; esgoto a céu aberto, que fornece água abundante para esses animais. Então, dentro das nossas comunidades, nas áreas mais urbanas das favelas aqui em Salvador, é um cenário ideal para esses animais.”

Transmissão e o perigo das chuvas

Todas as enfermidades transmitidas por ratos possuem duas formas de contaminação.

➡️Direta: contato da pessoa com a urina ou fezes do rato.
➡️Indireta: contato com solo, lama ou água contaminados pela urina do rato (ex.: durante chuvas, ao caminhar descalço, manusear quintais ou esgotos).

Fábio aponta que os casos aumentam significativamente após chuvas, pois os tipos de roedores que mais transmitem doenças são justamente os que as pessoas mais veem, principalmente durante o pós-chuva, próximos aos esgotamentos abertos e às residências.

Ratos próximos a córrego no campo de pesquisa
Ratos próximos a córrego no campo de pesquisa | Foto: Dr Fabio Neves

É durante o período chuvoso que os roedores migram, espalhando urina contaminada, além da água das enchentes, que leva a bactéria para a população. A água corrente facilita a exposição.

Chuvas fortes e enchentes fazem com que os roedores saiam de seus abrigos inundados em busca de novos lares e, consequentemente, espalhem contaminação pelas comunidades.

“Se a gente pensar em Salvador, uma cidade de vales, onde muitas pessoas precisam sair para trabalhar durante o período de chuva, às vezes tem um alagamento que é inevitável", iniciou.

“Às vezes é preciso limpar o bueiro. Quando a gente não tem esse serviço rápido da prefeitura, a gente acaba tomando atitudes individuais de limpar e acaba contraindo a infecção, se expondo a essa bactéria no ambiente", completou Fábio.

Grupo de risco

Diante deste cenário, surge o grupo de maior risco: homens com idade entre 20 e 59 anos, frequentemente ligados a essas atividades laborais, que os expõem ao contato com ambientes contaminados sem proteção adequada.

A patologia afeta uma população economicamente ativa, muitas vezes chefes de família, gerando um significativo impacto social quando acometida.

Prevenção

Fabio enfatiza que a principal forma de reduzir os riscos está na prevenção e no investimento estrutural. A implementação de saneamento básico, um direito assegurado na constituição, com esgotamento sanitário e manejo adequado de resíduos sólidos, é considerada a medida mais eficaz para diminuir o risco da doença.

“Hoje a gente defende o controle integrado, não só como função do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), mas sim a Secretaria de Limpeza Pública, da Ordem Pública.”

Fábio alerta que a presença de diferentes tipos de ratos na comunidade já indica risco à saúde.
Fábio alerta que a presença de diferentes tipos de ratos na comunidade já indica risco à saúde. | Foto: Raphael Muller / Ag. A TARDE

Enquanto a situação não avança de forma prática, a busca por medidas individuais se torna essencial, sobretudo para quem está mais exposto. “As medidas de proteção nesse momento são simples: usar botas impermeáveis, como galochas, e luvas de borracha ao ter contato com água de enchente, lama ou esgoto”, destaca Fábio.

Evitar andar descalço em áreas alagadas e redobrar os cuidados na limpeza de casas e quintais após as chuvas também são orientações importantes. Dentro das comunidades, alguns moradores já adotam estratégias para reduzir a presença de roedores, como manter o lixo em recipientes fechados ou suspensos.

Para o especialista, o enfrentamento da doença exige uma ação integrada entre poder público e população. “O controle de roedores não depende só de um setor, precisa envolver limpeza pública, saúde e a própria comunidade”, aponta o biólogo.

O que fazer na residência

Dentro dos lares, o tipo de rato mais comum são os Ratos "Calungas", aqueles até tidos como “fofos”. Apesar de serem ratos de residência, raramente vistos na rua, são animais que geram transtornos ao entrar em contato com cozinhas, ou outras partes da casa como guarda-roupas. Para afastá-lo e outros ratos devemos seguir as seguintes recomendações:

➡️Manter alimentos em recipientes fechados e embalagens bem vedadas para evitar o acesso dos animais.
➡️Acondicionar o lixo em locais suspensos com ganchos para impedir que outros animais, como cachorros, o rasgue e, consequentemente, atraia ratos.
➡️Higienizar potes de ração animal e não deixar alimentos de pets disponíveis no quintal ou área domiciliar.

Ainda sem vacina disponível para a leptospirose no Brasil, a prevenção segue a principal ferramenta. “São medidas simples, mas que evitam o contato com a bactéria no ambiente”, reforça Fábio.

*Sob a supervisão do jornalista Wiliam Falcão

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