
O aumento massivo de casos da Síndrome de Burnout, distúrbio psíquico que está associado ao esgotamento mental, físico e emocional ligado ao ambiente de trabalho, acendeu um alerta sobre a necessidade de mudanças nas condições laborais dos brasileiros.
De acordo com dados divulgados pelo Ministério da Previdência Social em 2025, os quadros de afastamento do trabalho por Burnout no Brasil cresceram em 823% em apenas quatro anos.

O atual cenário do país é tão preocupante que provocou mudanças na Norma Regulamentadora 1 (NR-1), que agora inclui também os riscos psicossociais no ambiente de trabalho e obriga as empresas a considerem estes fatores dentro do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).
Para a psicóloga baiana Cristiane Prado, que possui pós-graduação em Neuropsicologia e atua há mais de 20 anos na área de Gestão de Pessoas e Recursos Humanos, especialmente com consultoria, treinamento e desenvolvimento, além de Psicologia Clínica, os empresários precisam identificar as fontes de estresse e tomar atitudes que tragam resultados concretos, como a readequação de jornadas e o treinamento adequado de gestores.
"Vejo a NR-1 como um avanço importante, mas o resultado dependerá principalmente de quanto as organizações estarão dispostas a transformar aquilo que encontrarem no mapeamento", declarou.

Muito além do volume de trabalho
Mesmo que a sobrecarga física seja um dos fatores que chame atenção em casos de Burnout, a origem desse sofrimento costuma ser mais profunda. De acordo com a psicóloga Cristiane Prado, a maneira como as atividades são estruturadas e o clima do ambiente de trabalho pesam mais do que a quantidade de tarefas em si e formam um terreno fértil para o esgotamento.
“Cobranças excessivas, pressão constante, sobrecarga, falta de autonomia, pouca clareza sobre as responsabilidades, ausência de reconhecimento, dificuldades de comunicação e relações marcadas por desrespeito ou violência são fatores que podem contribuir significativamente para o adoecimento”, explicou.
Para a profissional, o caminho para um ambiente de trabalho melhor é trilhado em conjunto: “Não podemos colocar toda a responsabilidade no trabalhador, ensinando-o apenas a 'lidar melhor com o estresse', quando muitas vezes o próprio contexto de trabalho está produzindo esse sofrimento".

Sinais de Burnout no corpo e na mente
➡️ Evasão e aversão: dificuldade crescente para ir ao trabalho ou vontade constante de evitar o ambiente laboral;
➡️ Tensão diante de estímulos: sensação negativa ou mal-estar físico imediato ao receber notificações em grupos de mensagem profissionais;
➡️ Pensamento obsessivo: dificuldade para se desligar das tarefas, mantendo o foco fixado em cobranças e possíveis falhas mesmo nos momentos de descanso;
➡️ Manifestações físicas de ansiedade: aceleração cardíaca (taquicardia), sudorese e tensão muscular ao pensar no expediente;
➡️ Alterações no sono e no humor: dificuldade recorrente para dormir, irritabilidade constante e sensação contínua de estar em estado de alerta;
➡️ Fadiga crônica: cansaço persistente que não passa nem mesmo após finais de semana ou períodos de descanso.
Quando o corpo pede socorro
Por trás das estatísticas alarmantes de Burnout no Brasil, há histórias reais de trabalhadores que convivem com a angústia de permanecer no local que os adoecem pela necessidade de ter um emprego. Os primeiros sinais começam a aparecer e o corpo pede socorro, como é o caso de um profissional baiano, morador de Salvador, que preferiu não se identificar.
“Acho que o principal sinal foi perceber que eu já não conseguia desligar do trabalho. Mesmo fora do horário, minha cabeça continuava funcionando em torno de demandas, prazos, mensagens e problemas para resolver. Eu comecei a sentir um cansaço que não era só físico, era mental também. Coisas que antes eram simples, que eu já faço há muitos anos, começaram a pesar muito mais, e eu fui percebendo que estava sempre em estado de alerta”, disse ele em entrevista ao MASSA!.
Cheguei no trabalho, comecei minhas demandas e comecei a chorar sem nenhum motivo aparente. Foi aí que percebi que tinha um problema e ele era sério

Os sintomas de quem tem Burnout ultrapassam as paredes da empresa e afetam a vida da pessoa em todos os aspectos: “Acabou misturando completamente a minha vida pessoal com a profissional. Eu tinha dificuldade de aproveitar momentos de descanso porque sentia que sempre tinha algo pra produzir ou resolver. Isso também afetou minha disposição, minha relação com as pessoas e até a forma como eu enxergava o meu próprio trabalho”.
Gostaria que existisse uma percepção maior sobre os limites e sobre a carga de trabalho. Além de uma remuneração adequada para que o funcionário possa se cuidar e ter uma boa qualidade de vida fora do ambiente de trabalho
Ainda na visão da fonte, as empresas poderiam ser mais solícitas e preparadas para situações como essa: “Acho importante que a empresa crie um ambiente em que o funcionário possa dizer que está sobrecarregado sem sentir que isso significa falta de comprometimento. Muitas vezes, uma conversa e alguns ajustes feitos antes poderiam evitar que a situação chegasse a um nível tão extremo”.
A Justiça pode ser acionada
Diante da omissão empresarial em casos como este, o amparo judicial passa a ser a principal ferramenta de proteção do trabalhador. A advogada trabalhista Milene Gonçalves, que também é Técnica em Segurança do Trabalho e formada em Gestão de Recursos Humanos e tem mais de 10 anos de experiência na área de RH em grandes empresas e multinacionais, apontou as medidas que um funcionário pode tomar.
"Uma empresa vai ser sempre responsabilizada pelo adoecimento mental de um trabalhador quando for comprovado que aquela ansiedade, aquele burnout ou aquela depressão foi oriunda do ambiente de trabalho", destacou.

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Para quem vivencia o problema e pensa em levar a situação aos tribunais, a orientação jurídica é agir de forma estratégica e respaldada por provas. Confira:
➡️Buscar suporte médico urgente: consultar um profissional de saúde e solicitar um laudo detalhado para saber se a crise de Ansiedade, Depressão ou Burnout é oriunda do ambiente de trabalho;
➡️Formalizar queixas internas: registrar o ocorrido nos canais formais de denúncia ou no setor de compliance da empresa, seja por pessoas de cargos superiores ou por colegas do mesmo nível hierárquico;
➡️Reunir acervo probatório: o trabalhador deve se resguardar guardando o máximo de evidências possíveis, desde gravações de conversas com gestores assediadores, vídeos, mensagens no WhatsApp, e-mails com teor de cobrança excessiva ou vexatória e, se possível, conseguir uma testemunha;
➡️Procurar orientação especializada: consultar um advogado trabalhista munido de provas e laudos para entender com clareza a viabilidade da ação.
Do lado corporativo, negligenciar essas diretrizes custa caro. "As consequências de não mapear adequadamente os riscos psicossociais são o turnover alto, porque sempre vai ter um alto número de pessoas saindo e pessoas entrando o tempo todo na empresa, um passivo trabalhista gigante e, agora, a punição com multa administrativa do Ministério do Trabalho e Emprego", revelou a advogada.
O papel das empresas para alcançar uma gestão humanizada
Garantir um ambiente profissional saudável não deveria ser apenas um cumprimento burocrático de normas legais e sim uma questão da própria sustentabilidade corporativa.
Com mais de duas décadas de atuação no setor de Recursos Humanos e atualmente à frente da gestão de pessoas em uma empresa de engenharia mecânica, Susana Fagundes analisou que o primeiro passo para conter a epidemia de adoecimento mental no ambiente de trabalho é a identificação transparente das fragilidades da rotina.

"Tem alguns aspectos como excesso de carga de trabalho, pressão por resultados, jornadas bem extensas, assédio, alguns conflitos entre liderança, liderados e até colegas de trabalho, falta de apoio e dificuldade de organizar tarefas. Esses riscos devem ser incluídos no gerenciamento de riscos ocupacionais e ter medidas preventivas", apontou a analista de RH.
Para a consolidação de um ambiente seguro e positivo, é preciso adotar mudanças estruturais na cultura organizacional e permitir que o funcionário possa falar sobre as suas queixas sem o receio de ser punido ou até demitido.
“A maioria das organizações sempre prioriza muito o feedback negativo. A gente precisa reconhecer os bons resultados e os esforços dos funcionários e manter canais seguros de denúncia, onde eles, por vontade própria, relatem qualquer tipo de desconforto", concluiu Susana Fagundes.

