
Coceira persistente, verrugas na região anal, sangramento ao evacuar ou dor intensa são sintomas que muita gente prefere ignorar por vergonha ou preconceito. O problema é que esse atraso pode dificultar o diagnóstico de doenças que vão desde a infecção pelo papilomavírus humano (HPV) até a doença hemorroidária e, em casos mais graves, o câncer do canal anal.
Com o avanço da medicina, pacientes também passaram a contar com tratamentos menos invasivos para doenças anorretais, reduzindo a dor e acelerando a recuperação. Em entrevista ao MASSA!, a proctologista Glícia Abreu esclareceu as principais dúvidas sobre HPV, hemorroidas, prevenção e os procedimentos disponíveis atualmente.
HPV pode não apresentar sintomas
Segundo a médica, o HPV na região anal costuma se manifestar principalmente por meio de verrugas. No entanto, nem sempre a infecção é visível.
"A principal manifestação do HPV anal é através de verrugas nessa região. Outra forma de ele se apresentar é através de um prurido, de uma coceira intensa, em que o paciente faz tratamento e não apresenta melhora. Também pode haver alteração da cor da pele anal, que pode ficar mais escurecida, como se fossem pequenas pintas ao redor do ânus", explica.
Ela alerta que a ausência de verrugas não significa ausência da doença. "Existem lesões que são assintomáticas, e isso é muito importante saber. Existem pessoas que fazem parte dos grupos de risco e podem ter lesões causadas pelo HPV que não são vistas a olho nu. Essas lesões podem evoluir para um câncer do canal anal."

Quem faz parte do grupo de risco?
A especialista destaca que alguns pacientes precisam de acompanhamento periódico justamente porque possuem maior chance de desenvolver lesões relacionadas ao vírus.
"Geralmente são homens que fazem sexo com homens, mulheres que já tiveram câncer genital diagnosticado, pessoas transplantadas que utilizam medicamentos para reduzir a imunidade e pacientes que convivem com o HIV."
Nesses casos, ela explica que o diagnóstico precoce é feito por meio da anuscopia de alta resolução.
"É um exame realizado por dentro do ânus, com magnificação, como se fosse um microscópio, que permite visualizar lesões imperceptíveis a olho nu."
Câncer anal é raro, mas casos aumentam
Embora seja considerado incomum, o câncer do canal anal tem apresentado crescimento nos últimos anos, principalmente entre pessoas que fazem parte dos grupos de risco.
"O câncer do canal anal é raro, não é como o câncer colorretal. Mas temos observado aumento da incidência, especialmente nesses pacientes. O grande objetivo é evitar que a pessoa evolua para esse câncer, e a vacinação contra o HPV é a principal forma de prevenção."
Vacinação continua sendo a melhor proteção
Além do uso de preservativos, Glícia reforça que nenhuma medida é tão eficaz quanto a imunização.
"A outra medida é fazer sexo com prevenção, utilizando camisinha. Mas a grande prevenção realmente é a vacinação contra o HPV."
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Ela ainda explica que o ideal é receber a vacina antes do início da vida sexual.
"O ideal é que a vacinação seja feita antes de qualquer relação sexual, antes do contato com um parceiro que possa transmitir o vírus. Pelo SUS, é oferecida a vacina quadrivalente, que protege contra quatro tipos de HPV. Hoje também existe a vacina nonavalente, que protege contra nove tipos."
"Já existem estudos publicados mostrando que mulheres vacinadas antes do início da vida sexual não desenvolveram câncer de colo do útero, que também é causado pelo HPV. Isso demonstra o impacto da vacinação."
Vergonha atrasa diagnósticos
Apesar das campanhas de conscientização, muitas pessoas ainda evitam procurar um proctologista por constrangimento.
"Ter preconceito faz com que a pessoa fique com medo ou vergonha de procurar um médico e perca a oportunidade de tratar uma doença ainda na fase inicial, quando ela pode ter cura."
Para ela, ampliar a divulgação do tema é essencial. "É muito importante falar sobre isso. Quanto mais conhecimento a população tiver, maior será a procura por avaliação médica, mesmo na ausência de sintomas."
Quando procurar um proctologista?
Além de pessoas que apresentem sintomas, alguns grupos devem realizar acompanhamento preventivo.
Segundo Glícia, homens que fazem sexo com homens e convivem com o HIV devem procurar um proctologista a partir dos 35 anos.
Já homens que fazem sexo com homens, mas não vivem com HIV, devem iniciar esse acompanhamento aos 45 anos.
Também devem manter acompanhamento mulheres que tiveram câncer genital tratado há mais de um ano, pessoas transplantadas de órgãos sólidos após dez anos do transplante e pacientes que apresentam lesões recorrentes por HPV na região genital.
"Nesses casos, pode acontecer de a pessoa apresentar repetidas lesões na região genital porque existe alguma lesão também na região anal."
Nem toda hemorroida é uma doença
Outro tema cercado de dúvidas é a doença hemorroidária. A proctologista explica que muitas pessoas acreditam que ter hemorroidas significa, automaticamente, estar doente, mas isso não é verdade.
"Na verdade, todo mundo tem hemorroida. Ela funciona como uma almofada, um coxim que fica dentro do ânus e ajuda na continência fecal. O que acontece é que esse coxim pode perder a sustentação e desenvolver o que chamamos de doença hemorroidária."
A condição é bastante comum e afeta cerca de um quarto da população.
"Ela é muito frequente e costuma ser caracterizada por sangramento e pela presença de um caroço que aparece quando a pessoa faz força para evacuar. Em alguns casos, ele volta sozinho; em outros, precisa ser colocado para dentro com o dedo."
Além da doença hemorroidária, outra queixa recorrente nos consultórios são as fissuras anais.
"As fissuras são pequenos cortes no ânus que provocam muita dor. Geralmente estão associadas à diarreia ou à prisão de ventre, que acabam traumatizando essa região."
A médica também chama a atenção para dermatites provocadas pelo excesso de higiene.
"Algumas pessoas utilizam papel higiênico em excesso ou lavam a região repetidamente com sabonetes e produtos abrasivos. Isso pode causar irritações importantes."
Maus hábitos aumentam o risco
Entre os principais fatores de risco para desenvolver a doença hemorroidária estão as alterações do funcionamento do intestino.
"Os dois extremos favorecem o problema: tanto a prisão de ventre quanto a diarreia. Além disso, existe influência familiar, e algumas pessoas têm maior predisposição."
Outro hábito bastante comum também merece atenção: permanecer muito tempo sentado no vaso sanitário.
"Ficar muito tempo sentado favorece porque esses pequenos músculos que sustentam a hemorroida vão cedendo. O ideal é permanecer cerca de cinco minutos, tempo suficiente para esvaziar o reto."
Para reduzir os riscos, ela recomenda alimentação equilibrada e hidratação adequada.
"É importante manter uma alimentação rica em frutas, verduras e cereais, além de beber bastante água. Isso ajuda a regular o intestino e evita o esforço durante a evacuação."
Pomadas aliviam, mas não resolvem o problema
Apesar de muito utilizadas, as pomadas vendidas nas farmácias não substituem uma avaliação médica.
"Quando você apresenta um sintoma, o ideal é procurar um médico. Às vezes, a pomada alivia naquele momento, mas ela pode mascarar um problema mais grave."
Segundo Glícia, o sangramento atribuído à hemorroida pode ter outra origem.
"A pessoa pode acreditar que está sangrando por causa da hemorroida ou de uma fissura anal, quando, na verdade, esse sangramento pode ser provocado por um câncer de intestino ou outra lesão importante."
Por isso, ela desaconselha a automedicação. "Numa situação de emergência, a pessoa até pode utilizar uma pomada para aliviar os sintomas, mas o correto é procurar avaliação médica."
Tratamentos menos invasivos ganham espaço
Se antes a cirurgia tradicional era praticamente a única opção para quem não melhorava apenas com mudanças na alimentação e no estilo de vida, hoje existem alternativas menos agressivas.
"Antigamente, o tratamento consistia em retirar a hemorroida. Apesar de apresentar bons resultados e baixa taxa de recidiva, era uma cirurgia bastante dolorosa no pós-operatório."
Com os avanços tecnológicos, novas técnicas passaram a reduzir esse desconforto.
"Hoje utilizamos tratamentos como laser e radiofrequência. São energias que fazem o vaso coagular e diminuir de tamanho, sem necessidade de grandes cortes."
Outro procedimento bastante utilizado é a ligadura elástica.
"Ela costuma ser indicada para hemorroidas menores e pode ser realizada no próprio consultório."

Há ainda a escleroterapia com espuma, técnica semelhante à utilizada para tratar varizes.
"Introduzimos uma espuma específica dentro do vaso para provocar sua coagulação. O vaso seca e os resultados têm sido muito bons."
Segundo a médica, a principal vantagem é justamente preservar a estrutura da região anal.
"O objetivo desses tratamentos é tratar a hemorroida sem precisar removê-la. Como não existe uma ferida grande, o pós-operatório costuma ser muito mais tranquilo."
Recuperação costuma ser mais rápida
Mesmo sendo menos invasivos, os procedimentos ainda exigem alguns cuidados.
"Não podemos dizer que o paciente não sentirá dor. Ela existe, mas costuma ser muito menor do que na cirurgia convencional."
Na maioria dos casos, o desconforto dura cerca de uma semana. "Normalmente, o paciente consegue voltar ao trabalho entre sete e dez dias. Já na cirurgia convencional, a recuperação pode levar de 14 a 30 dias, e a cicatrização completa acontece em torno de 60 dias."
A alimentação continua sendo parte importante da recuperação. "Muita gente acha que deve evitar evacuar após a cirurgia, mas é justamente o contrário. É importante evacuar regularmente para evitar que as fezes endureçam e traumatizem a região operada."
Ela também recomenda compressas frias para aliviar o desconforto. "O gelo deve ser colocado dentro de um saco plástico, envolvido em um pano, nunca diretamente sobre a pele. Fazer compressas quatro ou cinco vezes ao dia ajuda bastante no controle da dor."
Mitos ainda cercam HPV e hemorroidas
No consultório, Glícia afirma que ainda escuta muitas informações equivocadas.
"O principal mito sobre o HPV é achar que ele não causa problemas maiores. Dependendo do tipo do vírus e das condições da imunidade da pessoa, ele pode evoluir para lesões mais graves. Por isso, a vacinação continua sendo a principal forma de prevenção."
As falsas crenças também persistem quando se fala sobre a hemorroida.
"Muita gente acredita que relação sexual causa hemorroida ou que sentar em um lugar quente, ou até no mesmo banco de uma pessoa que tem hemorroida, faz a doença aparecer. Nada disso é verdade."
Segundo a especialista, fatores como prisão de ventre, diarreia, predisposição familiar e gravidez continuam sendo os principais responsáveis pelo desenvolvimento da doença hemorroidária.
Por fim, ela ainda reforçou que o diagnóstico precoce faz toda a diferença, tanto para o HPV quanto para as doenças anorretais.
"Quanto mais cedo o paciente procurar avaliação médica, maiores são as chances de tratar o problema de forma simples, menos invasiva e com melhor qualidade de vida", finalizou Glícia Abreu
